arte (sociologia)

Poder-se-á admitir que na origem do fenómeno artístico se encontra a dicotomia agradável/desagradável; entenderemos, assim, a arte como a criação de objetos cujas formas, massas, texturas e proporções propiciam sensações estéticas agradáveis, por oposição às criações que provoquem reações de repulsa ou de desagrado. Não falamos, no entanto, do belo como paradigma do que deve ser considerado arte: falamos apenas de sensações estéticas.
De facto, a criação de objetos tendo em vista a experiência estética existe em todos os conjuntos de homens (entendidos como "culturas", como "povos", como "sociedades"...). Poder-se-á afirmar, perto da verdade, que não há homens sem experiências estéticas. No entanto, o prazer estético "puro" (no dizer de Bourdieu) é privilégio dos que têm acesso às condições necessárias para o sentir (ou seja, a existência de arte pela arte e uma educação familiar/escolar que permita a disposição "pura" para a apreciação da arte, que, por sua vez, dará acesso ao prazer "puro"). Estas condições tendem, ainda segundo este autor, a perpetuar-se num mesmo grupo social, conforme a sua tese de reprodução social. Ainda assim, cada homem sente o objeto, ou cria o objeto, de entre muitas outras perspetivas, numa aceção estética e, se quisermos, artística.
A criação artística possui, desta forma, uma vertente coletiva, experimentada por uma comunidade, e uma vertente individual, o conjunto se sensações de cada homem per si. O desejo de dar forma, de usar da sensibilidade estética própria para criar, é o aspeto fundamental da faceta individual da arte: é-se artista, intimamente, para além da envolvente. No entanto, o artista é membro de uma comunidade, tem à sua disposição materiais e condições de criação inerentes ao seu lugar e ao seu tempo; além disso, o artista produz não apenas para si próprio, mas para a sua comunidade. Nesta aceção, o artista é um produtor social, como a sua arte é um produto social. Analisemos com maior profundidade:
O Homem, produzindo objetos que têm em vista a experiência estética (ou, de outra forma, objetos estéticos), funciona como um produtor social, uma vez que, ainda que o não faça voluntariamente, produz para os outros. Os outros irão experimentar os seus objetos, poderão ser por eles tocados de variados pontos de vista (estético, económico, funcional, político, religioso e tantos outros). O objeto artístico assume papéis sociais tão mais complexos e abrangentes quanto mais conhecido e mais experimentado. Voltando a referir Bourdieu, valerá a pena refletir no que este autor afirma a propósito do acesso à arte (por exemplo, no que se refere ao ingresso nos museus onde a arte está disponível): o acesso, verifica--se, depende estatisticamente do nível de instrução (isto é dizer, do número de anos passados na escola). Por outras palavras, a arte é produtor social, sim, mas de grupos restritos da sociedade; grupos que tendem a perpetuar-se como tal, produzindo e gozando os resultados dessa produção quase em ciclo fechado; reproduzindo-se socialmente, para usarmos a linguagem do autor.
Por outro lado, o objeto estético, artístico, é também um produto social: tudo o que envolve a sua produção aponta nesse sentido. O artista não é um ser isolado, imune e intangível; quando o objeto é produzido é-o para um público (real ou potencial) e muitas vezes o artista recorre a colaboradores na execução do seu objeto; a própria produção material do objeto, recorrendo a instrumentos e a meios técnicos, é uma produção que está imbuída de social; o artista integra-se ou destaca-se de "escolas" e de "estilos", teme ou despreza a "concorrência", mas, inevitavelmente, não pode deixar de existir e de produzir num meio socialmente ativo e influente; o objeto artístico é, ainda, produto social pela própria universalidade da linguagem estética, independentemente dos padrões de belo que cada sociedade adota ou rejeita;
finalmente, a produção do objeto estético encerra objetivos, almeja fins, e, nessa perspetiva, não pode deixar de ser olhado também como produto social, mesmo quando esses objetivos e esses fins pareçam ser apenas do íntimo do seu produtor.
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