As Bodas de Fígaro

A personagem de Fígaro foi criada pelo francês Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, professor de música dos filhos do Rei Luís XV. Caron escreveu, nos finais do século XVIII, três comédias para teatro: O Barbeiro de Sevilha (1775), As Bodas de Fígaro (1784) e A Mãe Culpada (1792), partilhando aquelas duas primeiras obras mencionadas a personagem de Fígaro. Beaumarchais tinha uma sólida posição económica que lhe permitia efetuar muitas viagens, nomeadamente a Espanha, em 1764. A obra, O Barbeiro de Sevilha, foi transformada em ópera por Giovanni Paisielo, em 1782, cuja estreia foi em São Petersburgo. Mais tarde, foi orquestrada para uma outra ópera, com o mesmo nome, por Rossini.
As Bodas de Fígaro foram imortalizadas pela ópera, em quatro atos, de Wolfgang Amadeus Mozart, estreada em 1786, em Viena, com libreto em italiano, escrito por Lorenzo da Ponte. Esta história é uma continuação da vida de Fígaro, iniciada em O Barbeiro de Sevilha, na qual Fígaro é barbeiro e, inteirando-se dos amores do Conde de Almaviva e de Rosina, decide uni-los através de um plano.
A trama das Bodas de Fígaro, situada 30 anos depois da ação d'O Barbeiro de Sevilha, começa com os preparativos do casamento de Fígaro (serviçal do Conde de Almaviva) com a donzela Susana, que está ao serviço da condessa Rosina. Fígaro fica ofendido quando Susana lhe conta que o Conde pretende exercer o direito de "pernada", direito ancestral que consistia em tomar o lugar do noivo na noite de núpcias, direito que era comum nos tempos medievais e exercido pelos nobres sobre as suas criadas. Fígaro resolve então enganar o Conde. Começa por se apresentar no palácio com um grupo de camponeses, que homenageiam o Conde, atirando-lhe pétalas de flores aos pés, por este ter, alegadamente, eliminado o direito de "pernada". O Conde apercebe-se de que Fígaro está a tentar alguma artimanha e resolve enganá-lo também. Entretanto, a Condessa confessa a Susana que gostaria de recuperar a paixão do seu marido. Susana conta-lhe as insinuações do Conde relativamente a ela própria, assim como os ciúmes que o Conde tem da Condessa por causa dos amores que esta dedica ao seu criado Querubim.
Fígaro urde o plano de enviar um aviso ao Conde, dizendo-lhe que a Condessa tem um amante com quem se reunirá no jardim nessa noite. Entretanto Querubim disfarça-se de Susana para, mais tarde, juntar-se ao Conde que, pensando ter Susana, julgará estar, ao mesmo tempo, a vingar a sua honra. O Conde irrita-se por encontrar os aposentos da Condessa fechados à chave, enquanto esta e Susana disfarçam Querubim. Segue-se uma cómica troca de pessoas que culmina com a revelação da Condessa que afirma que Querubim se encontrava fechado no seu toucador mas, quando o Conde abre a porta, encontra Susana. A Condessa e Susana confessam ao Conde que a carta enviada por Fígaro é falsa, mas este continua a desconfiar de Querubim.
A data da boda estava a aproximar-se e o Conde, que também suspeitava da trama de Fígaro, diz a Susana que Fígaro deve dinheiro a Marcelina e que, portanto, terá que casar-se com esta. Susana quer entregar o dote que o Conde lhe deu para desobrigar Fígaro, mas o Conde lembra-lhe o direito de "pernada" implícito na promessa do dote. Entretanto, no momento da decisão, uma tatuagem no braço de Fígaro identifica-o como o filho desaparecido de Marcelina e Bártolo, que lhe perdoam a dívida e abençoam o seu casamento com Susana. Com mais algumas peripécias cómicas, a peça termina com o casamento de Fígaro e Susana e com o Conde ajoelhado aos pés da Condessa, pedindo-lhe perdão e assegurando-lhe o seu amor.
Em termos musicais, a ópera de Mozart, composta em 1785, apresenta, na Abertura, a sua parte mais famosa, introduzindo pela primeira vez o clarinete numa orquestra sinfónica e usando um tempo extremamente rápido, o prestissimo, que era dificilmente executado na época. O tempo da música acompanha desta forma o ritmo alucinante da narrativa encadeada de intrigas e situações cómicas, que se sucedem em catadupa.
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