Astecas: Origens e Desenvolvimento

O termo "asteca" costuma utilizar-se para designar a cultura dos povos da última etapa pré-hispânica do México Central. Em determinadas situações utiliza-se de forma mais estrita para se referir unicamente aos habitantes de Tenochtitlán (ou "México", atual Cidade do México), a maior cidade e a mais poderosa do ponto de vista político.
Tal como sucede com a maior parte dos grupos políticos que se destacam na história universal, a elite governante de Tenochtitlán elaborou uma tradição "oficial" relativamente às suas origens, segundo a qual os seus antepassados tinham emigrado de um lugar situado no noroeste a que davam o nome de Aztlan (daqui asteca, "povo de Aztlan"), o qual teriam abandonado no século XII d. C. Obedecendo assim à ordem do seu deus protetor. Após um longo período de nomadismo penetraram na bacia do México e estabeleceram-se em Chapultepec, na segunda metade do século XIII d. C. Expulsos por volta do ano de 1300 por uma coligação de inimigos, estiveram, durante uma geração, sob o controlo de Colhuacan, que tinha herdado diretamente a tradição político-dinástica tolteca. Finalmente, conseguiram escapar dirigindo-se para o Norte, onde acabaram por se fixar em Tenochtitlán.
O primeiro governante, o tlatoani, de Tenochtitlán, Acamapichtli, era herdeiro da dinastia real de Colhuacan, que afirmava descender diretamente de Topiltzin Quetzalcoatl, tradicional fundador do poder tolteca. Assim, Tenochtitlán considerava ter herdado a proeminência política tolteca, que constitui uma importante contribuição para o imperialismo dos mexicanos. Inicialmente, a cidade esteve subordinada a Azcapotzalco, situada a oeste de Tenochtitlán e capital dos tepanecas, que em meados do século XIV criaram um império no centro do México sob a dinâmica liderança de um notável governante, Tezozomoc. À sua morte, em 1426-1427, um dos seus filhos, Maxtla, usurpou o trono, começando então um período de guerra civil e revolta generalizada. Por volta de 1433-1434, o poder dos tepanecas tinha-se eclipsado por completo e a maior parte dos seus antigos tributários tinham passado a depender de Tenochtitlán, governada agora pelo seu quarto tlatoani, Itzcoatl.
Uma nova ordem política foi instaurada com a "tripla aliança" dos mexica (México Tenochtitlán), Acolhuac (Tetzcoco) e Tepaneca (muito debilitada mas não destruída, com uma nova capital, Tlacopán). A Tripla Aliança desenvolveu um grande poderio militar, controlando progressivamente todas as regiões que antes eram de domínio tepaneca, para depois se expandirem para o sul e este. Durante o reinado de Moctezuma I (entre 1440 e 1469), sobrinho de Itzcoatl, Tenochtitlán superou notavelmente os seus estados aliados. Três dos netos de Moctezuma - Axayacatl (1469-1481), Tizoc (1481-1486) e Ahuitzotl (1486-1502) - sucederam-lhe no trono e todos eles continuaram com êxito a Tripla Aliança que recebia tributos de centenas de entidades dispersas, desde San Luís Potosí até às fronteiras da Guatemala. Porém, o poderoso império tarasco de Michoacán impedia o seu avanço para oeste.
Quando Moctezuma II, filho de Axayacatl, ascendeu ao trono em 1502-1503, o poder de Tenochtitlán encontrava-se no seu apogeu. Ainda que parte substancial do oeste de Oaxaca fosse independente - Moctezuma II conquistou a maior parte dessa região durante o seu reinado -, a era da espetacular expansão imperialista da Tripla Aliança praticamente tinha terminado. O reinado do Moctezuma II foi fundamentalmente um período de consolidação e integração das conquistas anteriores. Segundo a tradição, Moctezuma II organizou uma corte muito mais opulenta e aristocrática que as dos seus predecessores, o que deixou os espanhóis bastante impressionados. Isto era um reflexo do poder e da riqueza de uma capital imperial que controlava, juntamente com os seus dois aliados, uma área de mais de 300 mil km2 e a que milhões de súbditos pagavam importantes tributos.
A agricultura intensiva constituía a base do sistema de subsistência. Existia uma grande variedade de culturas, sendo o milho o alimento fundamental. O algodão e o magüey eram as plantas fundamentais das quais se obtinha a fibra para tecer. A exudação da sacarina fermentada desta última planta servia para fabricar a única bebida alcoólica importante, o octli. Existiam várias plantas alucinogéneas, que eram colhidas no seu estado selvagem e que se utilizavam, fundamentalmente, nos rituais adivinhatórios. O cacau, que se utilizava para fabricar o chocolate, uma bebida de luxo das classes superiores, era um cultivo importante em algumas das terras baixas tropicais, mais quentes e húmidas que o planalto, mais frio e seco.
O pau de madeira era a ferramenta básica da agricultura utilizada para semear (coa). Nas zonas de maior vegetação, a técnica agrícola básica era a queimada e o desbravamento. Nas terras altas semiáridas utilizavam-se outros métodos mais intensivos, como o cultivo sistemático dos campos ou o pousio por longos períodos de tempo, de acordo com os tipos de solo e a humidade. O cultivo por inundação, o sistema de terraços e o regadio praticavam-se onde as condições o permitissem.
O problema do armazenamento de comida estava bem resolvido com celeiros solidamente construídos, tanto de forma quadrangular, em madeira, como em forma de copo, em adobe.
O método mais habitual de preparar o milho para consumo consistia na mistura de grãos moídos com água, formando uma grossa massa a partir da qual se obtinha o tlaxcalli (tortilha), fino e de forma circular, que posteriormente se cozinhava numa grelha. Em geral, a cozinha asteca era rica e variada e nela abundavam os molhos quentes aromatizados com malagueta. A caça, especialmente o cervo, coelho, pecári e as aves aquáticas, era uma fonte importante para a obtenção de carne, ainda que se utilizasse o peru como fonte de proteínas. Outro animal domesticado de certa importância era o cão, cuja carne também se consumia ocasionalmente.
Em consonância com a grande extensão e complexidade social e política do império, as instituições económicas alcançaram um grande desenvolvimento, mas parecem ter estado mais dominadas pelas instituições políticas do que pelos autênticos mecanismos de mercado. Na época da conquista, o mercado mais importante do Novo Mundo situava-se em Tlatelolco, cidade gémea de Tenochtitlán. Este imenso empório de um colorido rico - que tanto fascinou os conquistadores, especialmente Cortés - oferecia praticamente todas as mercadorias disponíveis no mundo asteca. Estava estritamente supervisionado por uma série de funcionários, alguns dos quais ocupavam um edifício no centro da grande praça do mercado para resolver qualquer contenda que ocorresse.
Os comerciantes profissionais organizavam-se em estruturas sociopolíticas que recordam, de alguma forma, os grémios medievais europeus. Viviam nos seus próprios bairros e com os seus próprios dirigentes, adoravam os seus próprios deuses e dirigiam expedições de grande alcance - tanto para o Estado como por iniciativa privada - por todo o império e inclusivamente para além dos seus limites, chegando, em ocasiões, até ao Panamá. Os produtos das exuberantes terras tropicais eram especialmente apreciados pelos habitantes das terras altas. Por seu lado, os habitantes destas últimas desejavam obter uma série de produtos só possíveis de conseguir nas terras frias e semiáridas da meseta. Ainda que em geral se utilizasse o sistema de troca, empregavam-se, muitas vezes, os apreciados grãos de cacau e as túnicas de algodão de tamanhos únicos como unidades fixas de valor em transações comerciais.
Por todo o império existiam centros urbanos de notável extensão, especialmente nas terras altas. O maior de todos, Tenochtitlán, juntamente com a sua cidade gémea, Tlatelolco, possuía uma população que superava, em muito, os cem mil habitantes. Na época da conquista, era uma espécie de Veneza do Novo Mundo, atravessada por numerosos canais, pois assentava sobre um lago drenado, o que aumentava a sua sismicidade. Dada a sua qualidade de capital imperial, possuía grandes palácios, templos, mercados, entre as inumeráveis chinampas. A evaporação constante do lago desde o início do período colonial está na origem da localização da atual cidade do México: a herdeira urbana de Tenochtitlán, mais gloriosa do que esta, encontra-se dissecada e numa elevação - o que lhe confere uma aparência e situação invulgares.
As casas eram simples e práticas. Nas terras altas construíam-se em adobe com telhados planos ou inclinados. Nas terras baixas, as paredes eram feitas com canas consolidadas com barro e os telhados eram feitos com palha. A maior parte das casas possuíam várias estruturas, a vivenda principal, o armazém e o banho de vapor. As casas dos governantes e dos membros mais ricos da nobreza eram muitas vezes estruturas labirínticas de tamanho considerável, compostas por várias divisões de adobe e dispostas à volta de pátios.
A unidade social básica era a família nuclear. Na casa viviam normalmente outras pessoas, especialmente os parentes políticos. Todos os membros destas famílias amplas cooperavam estreitamente no sustento económico. As raparigas casavam-se muito jovens e os varões um pouco mais tarde, depois de um período de serviço militar. A poligamia era habitual entre a aristocracia, enquanto que entre o povo comum os matrimónios eram - provavelmente por razões económicas - monogâmicos. A principal responsabilidade do marido era o sustento da família, que conseguia trabalhando como agricultor ou artesão. O papel da esposa centrava-se no desempenho das suas funções domésticas, que incluíam as tarefas de cozinhar, tecer os vestidos da família e criar os filhos. Quando chegavam aos dez anos, os rapazes eram separados das suas famílias para ingressar nas escolas militares do seu bairro ou, se pertenciam à nobreza, nas escolas dos templos onde recebiam uma educação mais religiosa que os preparava para o sacerdócio ou para serem dirigentes da sua comunidade. Também algumas raparigas ingressavam nas escolas dos templos; todavia, a maior parte delas eram instruídas nas habilidades domésticas pelas suas mães ou parentes. A maior parte dos indivíduos livres da comunidade - a nobreza e o povo comum - pertenciam a essas unidades, cada uma das quais adorava a sua própria divindade. A população comum era obrigada a contribuir com o seu trabalho nas obras públicas e a cumprir o serviço militar dentro do seu calpulli (unidades que constituíam dependências separadas ou subdivisões, bairros ou autênticas aldeias). Alguns calpulli eram formados fundamentalmente por artesãos especializados ou por membros de outras profissões, como comerciantes.
A sociedade asteca estava rigidamente estratificada em duas classes fundamentais: os nobres - pipiltin - e o povo comum - macehualtin - com diferentes categorias dentro de cada estrato. Todos os membros da classe inferior tinham que pagar impostos aos seus governantes, e se as suas comunidades estavam submetidas a um poder exterior, deviam contribuir para o tributo coletivo. A nobreza também possuía escravos - tlacotin - mas estes tinham direitos legais e não eram considerados como meros utensílios.
Uma multitude de comunidades de extensão muito diferente povoavam a paisagem do centro do México à chegada de Cortés. Estas comunidades estavam inter-relacionadas de formas diferentes. O modelo habitual era o de um amplo centro dominante, que exercia o controlo político sobre um conjunto de comunidades menores. Estas cidades-Estado partilhavam geralmente uma história comum e consideravam-se unidades étnicas singulares. Eram autónomas do ponto de vista político, ainda que pertencessem a um sistema imperial mais amplo.
Em termos religiosos, os astecas acreditavam que um panteão muito numeroso de personalidades sobrenaturais individualizadas controlava as diferentes esferas do universo. De uma forma geral, cada atividade natural e humana estava ligada a um deus ou deusa. De facto, esta profusão de divindades expressava aspetos diferentes e em parte coincidentes: primeiro, a criatividade celeste; segundo, a fertilidade agrícola; por último, a guerra, o sacrifício e a alimentação sanguinária do sol e da terra.
As atividades religiosas centravam-se nos templos. Por norma, situavam-se dentro de recintos muralhados, que podiam conter também dormitórios e escola sacerdotais, piscinas sagradas, altares, lareiras gigantescas para fogos sagrados, jardins e bosques artificiais, entre outros. O templo típico - teocalli - consistia numa infraestrutura sólida disposta sobre uma plataforma, com uma escada de acesso, com balaustrada num dos lados, e sobre a qual se situava o santuário que continha a imagem da divindade a que tinha sido dedicado o templo.
A região do México Central destacou-se ainda por realizações de carácter estético com alguma notoriedade, especialmente na escultura monumental de pedra. A talha de madeira, de extraordinária qualidade, o fabrico de mosaicos com pedras preciosas, o trabalho da pedra, os trabalhos com penas e a ornamentação à base de metais eram outras das tantas manifestações artísticas pelas quais os astecas se evidenciaram. A arte de tecer, ofício exclusivo da mulher, conheceu também um grande desenvolvimento.
A civilização asteca, herdeira e sintetizadora dos milénios de desenvolvimento cultural intenso na Meso-América, encontrava-se no seu auge aquando da conquista espanhola. Os seus protagonistas foram milhões de índios que habitavam centenas de comunidades de diferentes extensões. Apesar de ter sido saqueada e dominada durante mais de quatro séculos por uma civilização estranha, muito desta cultura sobrevive ainda hoje.
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