Aton

Aton era, na mitologia egípcia, fonte de luz, vida e calor, criador de tudo e todos. O culto atoniano estava associado a um arrojado projeto político e religioso, que pretendia revolucionar os mais diversos aspetos da cultura do Egito Antigo. Associado à "solarização" faraónica, era representado como um disco solar de onde saíam raios que terminavam em mãos e abençoavam o faraó. O culto de Aton assume um importante papel político durante o reinado de Akhenaton. Tratava-se do nome do disco solar que, mesmo antes do referido faraó, era já objeto de culto enquanto forma mais apurada de -Horakhti. A ascensão do culto atoniano tinha como um dos principais objetivos diminuir a preponderância do clero de Amon. Foi em Aton, fonte de luz, calor e vida, que Amenhotep III e seu filho Amenhotep IV encontraram a resposta para a imposição de um deus único. Deste modo, procurou-se no culto de Aton o inverso da proposta de Amon: na arte encontrava-se a revelação da infinidade e o realismo das formas contra o idealismo amoniano, na arquitetura surgem templos a céu aberto contra os espaços de penumbra dedicados a Amon, na representação de Aton encontrava-se um disco solar, de onde saíam raios que terminavam em mãos, por oposição à figura oculta e escondida de Amon. Ao culto atoniano está profundamente ligado o culto da personalidade de Akhenaton, que reclama ser o único verdadeiro conhecedor do deus. O Hino a Aton foi composto pelo referido rei e é a expressão de uma visão humanista do mundo, típica do Império Novo, que reconhece todos os seres, independentemente da cor da sua pele ou língua, como criação do deus sol, seja este , Amon ou Aton. O Hino a Aton é o testemunho da personalidade de um rei pacifista, pacífico, terno com uma grande predisposição para a meditação. Paradoxalmente, em várias representações Akhenaton surge numa pose clássica e ríspida, massacrando os seus inimigos. Outras discrepâncias podem ser vislumbradas nas representações do rei na forma clássica dos colossos osíricos, quando o culto de Osíris havia sido praticamente abandonado em detrimento do culto de Aton, que dava vida aos defuntos. Incongruentemente, ao longo do Hino a Aton encontramos invocações "monoteístas" não só ao disco solar como também a outras divindades, como por exemplo, a Amon ou Amon-. A natureza politeísta da religião egípcia foi apenas momentaneamente e levemente abalada pelo fenómeno atoniano. Ainda que se registem perseguições a outras divindades, a experiência atoniana foi negligenciada pelo povo egípcio, que continuava a cultuar Osíris, Ptah, Amon e outros deuses. A questão acerca da possível existência de um monoteísmo de Akhenaton não é passiva, pois o que se verifica é a procura de uma unidade na pluralidade de deuses. Ainda que nos deparemos com a secundarização do culto dos outros deuses, estes não são banidos tal como testemunham os nomes das duas últimas filhas de Akhenaton e Nefertiti, o "casal solar": Neferneferuré ("Bela é a beleza do Ré") e Setepenré ("Escolhida por Ré"). Segundo a tradição, Aton seria faraó no céu e Akhenaton, seu filho, faraó na terra. Do mesmo modo encontramos Akhenaton, o dileto filho de Aton, a usar o título de filho de , tendo também recuperado o prenome de Neferkheperuré ("Belas são as manifestações de Ré") e Uaenré ("O único de Ré"). Em Amarna, fundada com o nome egípcio de Akhetaton, isto é, "Horizonte de Aton", é possível encontrar testemunhos do culto de Aton, como a mais desenvolvida versão do Hino ao Sol, dedicada à referida divindade e descoberta no túmulo do sacerdote e vizir Ai. Com Tutankhamon, que nasceu como Tutankhaton, o culto de Aton, do disco solar, é abandonado, e Amon passa a ser o detentor dos raios, rei dos deuses, o "único".
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