Auto da Barca do Inferno

Representado na câmara da rainha D. Maria, que se encontrava doente, em 1517.
Personagens: Anjo (arrais do Céu), Diabo (arrais do Inferno), Companheiro do Diabo, Fidalgo, Onzeneiro, Parvo, Sapateiro, Frade, Brízida Vaz (alcoviteira), Corregedor, Procurador, Enforcado e Quatro Cavaleiros.
O Anjo e o Diabo são personagens alegóricas. As restantes personagens personificam classes sociais e comportamentos típicos, sendo, por isso, consideradas "personagens-tipo". (ver NOTA)

Argumento: Julgamento das almas humanas na hora da morte. Como lugar deste julgamento é escolhido um profundo braço de mar (a água como símbolo da passagem da vida para a morte e da purificação) onde estão dois arrais: um conduz a Barca da Glória (o Anjo), outro a Barca do Inferno (o Diabo).
Por este porto vão passar diversas almas que terão que enfrentar um tribunal, esgrimir argumentos de defesa constituindo-se como advogados em causa própria, e enfrentar os argumentos do Anjo e o Diabo que surgem como advogados de acusação.
Através da brilhante metáfora do tribunal, Gil Vicente põe a nu os vícios das diversas ordens sociais e denuncia a "podridão" da sociedade, recorrendo ao processo já utilizado pelos poetas da Antiguidade Clássica do Ridendo castigat mores (rindo, castigam-se os costumes).
Assim, a grande maioria das almas são condenadas ao Inferno. Joane (o Parvo) fica no cais porque não é responsável pelos seus atos e o Judeu vai à toa (a reboque da barca) porque, não se identificando com a religião católica, não tenta embarcar na Barca da Glória e é recusado pelo Diabo.
Apenas os Quatro Cavaleiros (personagem coletiva) vão embarcar diretamente na Barca da Glória porque se entregaram em vida aos ideais do Cristianismo (luta contra os mouros).
Ao definir este percurso para cada uma das almas, Gil Vicente tinha por certo o objetivo de fazer desta obra alegórica um auto de moralidade, através do qual o Bem fosse compensado e o Mal castigado.

NOTA: A didascália, no texto prínceps, é a seguinte:
"Auto de Moralidade, composto per Gil Vicente, por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Dona Lianor, nossa senhora, e representado per seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei D. Manuel, primeiro de Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra:
Primeiramente, no presente auto, se figura que, no ponto que acabamos d'espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa pera o Paraíso, e o outro pera o Inferno; os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do Paraíso um Anjo; e o do Inferno, um arrais infernal e um Companheiro."
Como referenciar: Auto da Barca do Inferno in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-06-17 18:46:40]. Disponível na Internet: