Bela de Dia

Filme realizado por Luis Buñuel em 1966, com o título original de Belle de Jour. Considerada por muitos cinéfilos como a obra maior deste realizador, esta adaptação cinematográfica do romance homónimo de Joseph Kessel foi protagonizada por Catherine Deneuve que assinou uma inesquecível interpretação no papel de Séverine Serizy, uma jovem recém-casada com o médico Pierre (Jean Sorel). Ela ama o seu marido mas não consegue ter relações íntimas com ele. Passa então a ter fantasias eróticas carregadas de sado-masoquismo para satisfazer os seus desejos sexuais. A conselho dum amigo do seu marido, decide visitar um bordel parisiense de luxo. Após vencer a sua timidez, é contratada por Madame Anais (Geneviève Page) para trabalhar como prostituta. Mas Séverine apresenta uma condição: só poderá permanecer no bordel durante a tarde, para poder estar à noite com o seu marido, facto que leva Anais a alcunhá-la de «Bela de Dia». Pelas suas mãos, passam clientes de diversos tipos: mulherengos, tímidos, eruditos e excêntricos. Marcel (Pierre Clémenti), um jovem gangster, desenvolve um amor obsessivo por ela e ameaça revelar toda a verdade ao seu marido. Numa medida de desespero, ele alveja Pierre, tornando-o cego e paraplégico. Mais tarde, Pierre convence-se que está a ser um fardo pesado para a sua mulher e decide suicidar-se mas é impedido por um amigo seu, Henri Husson (Michel Piccoli), que lhe revela toda a verdade sobre a sua mulher.
Buñuel decidiu filmar este título em França, convencido que a censura ditatorial de Franco lhe estilhaçaria a obra caso esta fosse rodada em Espanha. Totalmente provocatório, Buñuel procurou apresentar uma personagem dividida entre a sua inconsciente castidade e o apelo da sua natureza sensual, obrigando o espectador a identificar-se com Séverine, aqui magnificamente retratada pela excelente direção de fotografia de Sacha Vierny. Buñuel (que assinou o argumento em cooperação com Jean-Claude Carrière) não teve pruridos em romper com os ditames matrimoniais da fidelidade, ainda que diluídas num estado de semi-inconsciência. O destino trágico de Séverine surge aos olhos do espectador como um desfecho lógico da sua queda em tentação e traição conjugal com o valor simbólico da culpabilização da mulher pelo pecado original. Apesar de tudo, o realizador optou por um final carregado de simbolismo onde o espectador assiste a mais uma fantasia de Séverine, predisposta a abraçar um casamento feliz e fiel junto do seu marido curado, aceitando a sua própria condição.
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