Bloco Central

Entendimento político entre o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata que permitiu a constituição de um Governo de coligação entre 1983 e 1985, com Mário Soares como primeiro-ministro.
Por volta de 1980 a situação ao nível das opções políticas - e no seguimento da estabilização que se havia iniciado com o 25 de novembro de 1975 - estava consolidada: Portugal dispunha de uma Constituição, de um presidente da República, deputados, Governo, tribunais e demais autoridades legitimamente constituídas e respeitadas. Mas o mesmo não se passava entretanto ao nível económico. A situação que, após os solavancos do 25 de abril, havia começado a melhorar por volta de 1980, irá degradar-se de novo logo nos anos seguintes - desequilíbrio entre importações e exportações, elevadas taxas de inflação, despedimentos e consequente desemprego, salários em atraso (expressão que designava o facto de várias empresas, invocando dificuldades económicas, pagarem aos seus funcionários apenas parte dos ordenados, ou pagarem-nos com atraso, por vezes de vários meses, do que resultavam situações de fome, que se julgava para sempre eliminadas. Ao nível político, (entendido no sentido governativo) a situação não era fácil, pois não existia no Parlamento uma maioria estável. Por outro lado, restavam "marcas" do período revolucionário, como algumas herdades coletivas de produção, empresas em auto gestão, sem falar do Conselho da Revolução que mantinha ainda alguns poderes e da existência de um largo setor nacionalizado. Ora, para apagar essas "marcas" tornava-se necessário mudar a Constituição, o que implicava uma maioria de dois terços, difícil de congregar.
Surge assim a ideia de formar um "Bloco Central" englobando o Partido Socialista e o Partido Popular Democrático (mais tarde este partido viria a tomar o nome de Partido Social-Democrata). Os centristas (membros do Centro Democrático e Social considerados demasiado à direita) e os comunistas (opositores ferozes aos ataques às "Conquistas da Revolução") não teriam nele lugar. Um dos defensores da política do "Bloco Central" era o então presidente da República general Ramalho Eanes. Mas esta ideia tinha também os seus opositores, nos quais avultava Sá Carneiro, líder do Partido Popular Democrático, e que defendia, em resumo, que, por um lado, não havia que fazer concessões aos "socialistas"; e, por outro, que um governo de "Bloco Central" manter-se-ia eternamente no Governo, com o que, na prática, se negaria aos eleitores a possibilidade de levarem a efeito uma mudança de política através de eleições. Sá Carneiro, entretanto, viria a falecer em consequência de se ter despenhado a avioneta em que se deslocava e o seu candidato à Presidência da República, general Soares Carneiro, foi derrotado. Assim Portugal veio a ter um governo do "Bloco Central" em 1983, o IX Governo Constitucional, empossado a 9 de junho, com Mário Soares como primeiro-ministro. A atividade do Bloco Central foi marcada pela tentativa de travar a grave crise económica que assolava o país. Durante a sua permanência no Poder, lidou com assuntos de grande importância, como as negociações da adesão de Portugal à CEE (assinada a 12 de junho de 1985) e a modernização do país, preparando o terreno para as futuras privatizações das empresas públicas.
Por outro lado este Governo subiu ao Poder numa conjuntura financeira de crise, com baixo índice das reservas cambiais, baixa de salários e um elevado número de desempregados. O governo de Bloco Central viu-se, então, forçado a desvalorizar a moeda e a negociar a dívida externa com o Fundo Monetário Internacional (FMI), num primeiro passo de forma a restaurar a confiança nos mercados internacionais. Como resultado das conversações foi imposto ao país um plano que obrigava ao corte das despesas públicas e à redução da procura privada, enfim, de uma política de austeridade. Em contrapartida, Portugal beneficiava de um crédito de 750 milhões que permitiu estabilizar os salários, aumentar o Produto Interno Bruto e reduzir o défice da balança de transações. Se em termos financeiros o programa estabilizou o país, sob o ponto de vista social os custos da desvalorização foram elevados, pois obrigavam a uma contenção das despesas e a um refreamento dos níveis de consumo, o que se refletiu na diminuição dos postos de trabalho e no aparecimento dos salários em atraso.
A partir de 1984, as divergências entre os dois partidos tornaram-se permanentes, agudizando-se pelo facto de, nas presidenciais previstas para 1985, o PSD não apoiar um candidato único do Bloco Central, que segundo os socialistas seria Mário Soares. Em fins de 1984, a coligação encontrava-se já em estado de crise dificilmente ultrapassável. Embora de curta duração (terminaria em 1985) o clima de entendimento gerado entre os dois maiores partidos portugueses foi suficiente para alterar a Constituição, nomeadamente extinguindo os poderes do Conselho da Revolução (que não emanava do sufrágio popular, mas do golpe do 25 de abril, substituindo-o pelo Conselho de Estado e Tribunal Constitucional). Finalmente, em 1989, de certa forma, o "Bloco Central" funcionou para eliminar o preceito constitucional da "irreversibilidade das nacionalizações", abrindo caminho às desnacionalizações, privatizações e venda das empresas nacionalizadas.
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