bode expiatório

A expressão bode expiatório tem a sua origem no ritual judeu do Livro dos Levíticos, em que Aarão ao pôr as mãos sobre a cabeça de um bode transmite para este animal todos os pecados do povo de Israel. As palavras bode expiatório fazem hoje parte da nossa linguagem comum e são aplicadas em qualquer situação em que um inocente é responsabilizado por uma culpa que não tem. Nas relações entre etnias dominantes e dominadas este processo ocorre frequentemente, especialmente em épocas de crise, em que uma sociedade transfere para uma minoria frágil e facilmente identificável os seus medos e infortúnios. Nas sociedades ocidentais atuais, na Europa e EUA, são os africanos, asiáticos ou latinos que ciclicamente são responsabilizados pelo desemprego, pela crise económica ou pela criminalidade; na História mais recente foram os judeus e os negros a sofrerem a perseguição pelos mesmos motivos. Mas os alvos da transferência são muitas vezes também grupos sexuais, políticos ou religiosos, como os católicos na Irlanda do Norte, que são e foram usados ao longo dos tempos como bodes expiatórios.
Uma das características principais dos bodes expiatórios, quer sejam grupos de pessoas ou indivíduos, é a falta de poder, ou seja, a sua incapacidade de lutar por meios legais ou violentos relativamente àqueles que os oprimem e de, paralelamente, já sofrerem alguma forma de marginalização pela sociedade onde estão inseridos. Uma outra característica é a incapacidade de o grupo dominante compreender as razões reais e profundas do seu descontentamento, sendo mais fácil e simples canalizar as suas frustrações para os outros, só porque estes são diferentes. Estes bodes expiatórios evitam análises mais profundas, e eventualmente dolorosas sobre os fundamentos e as verdadeiras razões dos problemas, não os resolvendo e adiando-os indefinidamente. Porque não são nunca resolvidos, eles voltam ciclicamente a afetar as sociedades que escolhem os mesmos ou novos bodes expiatórios, já que sempre que há uma pessoa, grupo ou etnia diferente, é caracterizado por um estereótipo que normalmente se torna o "gatilho" que despoleta a canalização da agressão.

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