botulismo

O botulismo, também conhecido como doença das paralisias, é uma doença neuroparalisante, resultante de uma intoxicação altamente fatal e não-febril, no homem e em vários animais, por ação de uma neurotoxina produzida por Clostridium botulinum. Esta é uma bactéria do tipo bacilo Gram positivo, anaeróbia (sobrevive na ausência de oxigénio) e formadora de esporos, que, em condições ótimas - pH não ácido, temperatura próxima dos 30.ºC e ausência de oxigénio - se reproduz rapidamente, produzindo uma das mais poderosas toxinas que se conhecem. Embora seja considerada uma espécie única, existem diferentes subtipos desta bactéria, caracterizados pelo tipo de neurotoxinas que produzem - subtipos A, B, Ca, Cb, D, E, F e G -, que, no entanto, têm um mecanismo de ação semelhante sobre o sistema nervoso.
As toxinas são produzidas sob uma forma protéica não-tóxica, sendo que a digestão proteolítica que sofrem no estômago as ativa, ficando constituídas por dois fragmentos unidos por ligações dissulfito. Na forma ativa, a toxina atua nas junções neuromusculares, bloqueando a libertação do neurotransmissor acetilcolina, o que origina uma paralisia flácida, devido à ausência de estímulo nervoso.
Considera-se, com base na etiologia, a existência de cinco tipos diferentes de botulismo: alimentar, por contaminação de feridas, infantil, de toxicoinfecção e botulismo em espécies não-humanas. O botulismo alimentar deve-se à ação das toxinas A, B e E, surgindo como consequência da ingestão de alimentos contaminados, geralmente enlatados, conservas ou enchidos, em cujo processo de fabrico ou preparação não foram tidos em conta os devidos procedimentos de esterilização ou de embalagem. Surge normalmente em conservas caseiras ou em refeições congeladas, que foram aquecidas e deixadas depois à temperatura ambiente vários dias. Esta variante, embora sendo a mais frequente no homem, é uma doença esporádica e com pouco impacto em termos de saúde pública, graças à evolução das medidas de assepsia na preparação dos alimentos.
O botulismo por contaminação de feridas é a forma mais rara, sendo causada pelas toxinas A e B. Surge como resultado da infeção de feridas traumáticas com solo, tendo também aparecido em toxicodependentes.
O botulismo infantil surge em crianças até aos 12 meses de idade e é causado pelas toxinas A e B. Deve-se à absorção da toxina, produzida no trato gastrintestinal por bactérias que germinaram a partir de esporos, presentes em alimentos contaminados. Os casos conhecidos reportam-se à ingestão de mel.
O botulismo por toxicoinfecção abrange os casos de etiologia desconhecida, optando-se por esta designação quando não se consegue determinar a via de infeção.
O botulismo apresenta também casos de ocorrência em espécies não humanas, como animais domésticos, gado e aves, sendo causado pelas toxinas C e D.
Após um período de incubação, que vai de algumas horas a 10 dias (normalmente, entre 24 a 72h), surgem os sintomas, caracterizados por manifestações neuro-musculares, como hipotonia, paralisia flácida da musculatura e disfunção do sistema nervoso autónomo. O descontrolo muscular surge de um modo sequencial e descendente, começando pela cabeça, pescoço, membros superiores, tronco e membros inferiores. Surgem também alterações a nível ocular, como visão dupla e esborratada, fotofobia, midríase, pupilas fixas e olhos secos. A nível digestivo, ocorre disfagia, secura da boca, língua e faringe, além de vómitos e náuseas. Pode surgir retenção urinária e hipotensão postural, sobrevindo, na maior parte dos casos, a morte por falha respiratória, devido à paralisia dos músculos respiratórios.
O combate da infeção faz-se pela aplicação de antitoxina e pela manutenção das funções de suporte do organismo, como respiração assistida, sendo que a recuperação, quando ocorre, é gradual e muito lenta.
A prevenção passa por uma correta lavagem e esterilização dos alimentos e dos recipientes a usar na elaboração de conservas, devendo estas manter um pH interno baixo, por forma a evitar o crescimento de esporos. O consumo de alimentos enlatados caseiros, fumados, enchidos e de carne e peixe seco, tem constituído a principal fonte de casos de botulismo, juntamente com o consumo de peixe cru, no Japão. Conservas e enlatados que apresentem a tampa deformada não devem ser consumidos, já que tal indica produção interior de gás, potencial sinal indicador da presença de Clostridium botulinum.
Segundo dados do Laboratório de Microbiologia dos Alimentos, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, o presunto foi o alimento mais frequentemente relacionado com a ocorrência da infeção botulínica em Portugal, da qual ocorreram 14 casos entre 1992 e 1997. A incidência desta infeção tem baixado devido à melhoria das técnicas de processamento dos alimentos e métodos de conservação..
Recentemente, foram descobertas outras duas espécies que produzem toxinas semelhantes à E, F e C - Clostridium butyricum e Clostridium baratii.
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