burguesia

Classe social que, no regime capitalista, é a dominante na divisão do trabalho e nas relações de produção, pois domina os meios de criação e circulação de riqueza. É detentora do capital, quer industrial quer financeiro. Historicamente, é originária do povo e afirmou-se politicamente com o derrube do Antigo Regime. Até ao aparecimento da teoria marxista, a burguesia era considerada como o conjunto de cidadãos da classe média das cidades. Devido à posse crescente dos meios de produção e ao facto de se constituir como entidade empregadora de trabalhadores, a burguesia aparece no epicentro das lutas sociais, dos choques de interesses na sociedade - aquilo a que Marx chamou luta de classes.
A burguesia remonta à Idade Média, ao mundo feudal, pertencendo na origem ao povo ou Terceiro Estado. Porém, liberta dos grilhões feudais com o decorrer do tempo, constitui-se como um grupo social distinto pelo facto de não possuir vínculos à terra ou a qualquer senhor. A sua ascensão económica, social e política vai eliminar o feudalismo e alterar profundamente as mentalidades e a atividade humana. A burguesia assume a representação da sua classe, o povo, nas Cortes. É cada vez mais um conjunto de cidadãos entre o povo e a nobreza. Surge assim, antes do século XVI, como um novo grupo social urbano e especializado na atividade comercial e nos ofícios artesanais, fruto do renascimento das cidades e sua irradiação por toda a Europa.
Com o desenvolvimento do comércio colonial nos séculos XVI e XVII, devido às Descobertas para que muito contribuiu no plano material, a burguesia consolida cada vez mais a sua posição. Perfeitamente sintonizada com os ideais do Renascimento e da Reforma, demonstra gradualmente as suas intenções de luta pelo poder político. Não entra ainda na esfera governamental, mas já a financia. São os grandes banqueiros alemães, como os Fugger ou os Welser, quem fornece, aos italianos e às monarquias ibéricas particularmente, uma base material capaz de ativar as suas iniciativas ultramarinas e expedições militares, para além dos intentos políticos da nobreza. Carlos V é mesmo eleito imperador germânico graças a uma campanha política financiada pelos Fugger junto dos príncipes eleitores. Por outro lado, nomeadamente em França no século XVII, a burguesia ganha nova dimensão ao apoiar e fornecer quadros para o desenvolvimento da administração real face ao poder da nobreza, embora sem participar na decisão política. Partindo destes antecedentes, a burguesia clama cada vez mais pelo poder. Porém, só o alcança efetivamente com a Revolução Inglesa de 1648, que impôs o parlamentarismo frente ao absolutismo. O século XVIII é a época das revoluções burguesas - Estados Unidos da América em 1776 e França em 1789. O assalto final às estruturas do Antigo Regime foi possível graças à consolidação económica da classe e à sua supremacia cultural (burguesia de negócios e de toga, ligada à administração, cultura e leis). Os privilégios e poder da nobreza e do clero eram o principal obstáculo para a burguesia. A revolução foi o único meio de eliminar essa barreira secular, criando-se estados liberais de base burguesa. Na primeira metade do século XIX, as reações aristocráticas - ou absolutistas - surgem um pouco por toda a Europa, mas não foram capazes de repor a ordem anterior às revoluções.
A Revolução Industrial, por outro lado, fortalece ainda mais o poder económico da burguesia, sentindo-se agora a sua confrontação constante com o operariado. A sociedade passa a dividir-se em dois grupos distintos: os detentores dos meios de produção e distribuição e o proletariado, força de trabalho. A burguesia, cada vez mais zelosa dos seus interesses e senhora do poder político, dá azo à insatisfação do povo, empobrecido e sem direitos políticos ou regalias sociais nos países industrializados. Cria-se então o cenário para o germinar das ideias socialistas e marxistas. Estas últimas semeiam uma oposição radical e intransigente do proletariado, em termos sociais, económicos e políticos, face à burguesia. Marx considerava esta corrente ideológica de luta contra a burguesia como a preparação para o seu aniquilamento e a instauração de uma sociedade sem classes.
Por outro lado, a burguesia, industrial e financeira, é cada vez mais poderosa e rica, acompanhando o processo de desenvolvimento do capitalismo, sofrendo os seus reveses mas ganhando com os seus êxitos, para além de continuar a deter o poder político. O século XX dá lugar ao aparecimento de uma nova sociedade, progressivamente mais complexa, principalmente nos países desenvolvidos, onde se desenha uma classe média poderosa e importante. A tendência é, nas últimas décadas, para um esbatimento e indefinição das classes sociais, termo que começa a perder sentido, criando-se um tecido heterodoxo e multifacetado.
Em Portugal, a burguesia acompanhou a evolução europeia. Incipiente e pouco numerosa até aos séculos XIV e XV, ganhou expressão económica e alguma influência com a Dinastia de Avis, depois do seu apoio ao partido de D. João I na Crise de 1383-85. O desenvolvimento comercial derivado da expansão ultramarina nos séculos seguintes deu-lhe uma posição económica e cultural ainda mais importante, mesmo que lhe fugisse o poder político face ao domínio da nobreza e do clero. Foi senhora das esferas económicas nacionais nos séculos XVII e XVIII, apesar de sofrer a concorrência de investidores e banqueiros estrangeiros, mas não conseguiu ter a capacidade de luta e reivindicação da burguesia europeia, só se afirmando com o Liberalismo, na primeira metade do século XIX. A fraca e tardia industrialização do país, a mentalidade conservadora e o atraso cultural, educacional e científico, a mentalidade senhorial e a profunda vivência religiosa dos portugueses impediram sempre a existência de uma burguesia tão poderosa ou ativa quanto a de além-Pirenéus, o que atrasou reformas políticas importantes no século XIX, principalmente, e avanços técnicos cruciais para o desenvolvimento do país.
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