Café 25 de abril

Trata-se da terceira parte da trilogia Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha, publicada em 1987, ao longo da qual, Álvaro Guerra percorrera a história portuguesa contemporânea, desde as duas grandes guerras mundiais até à revolução de 25 de abril, perspetivando os acontecimentos que abalaram o Portugal do século XX, a partir de um espaço metonímico, Vila Velha, e, mais precisamente, o café situado no seu centro, batizado sucessivamente com as designações de Café República, Café Central e Café 25 de abril. A série histórica desta trilogia entronca na tradição do romance oitocentista, com a preocupação de recriar com exatidão coordenadas espácio-temporais e de desenhar com rigor a descendência das três gerações que participaram no desenrolar histórico.
O romance situa-se entre os "dias felizes" de abril de 1974 e a cronologia do "verão quente", anos em que "a política era o motor que fazia girar a vida de cada um" e em que Portugal, à deriva, parecia caminhar cego para um totalitarismo à esquerda ou à direita, ao longo de um processo revolucionário pelo qual buscava desesperadamente um espaço entre o socialismo de Leste e a social-democracia do Ocidente. Recriando alguns episódios dramáticos e cómicos do torvelinho de convulsões que atravessavam Portugal, evoca a cisão em grupos rivais da massa que se concentrara em torno da revolução; a reivindicação da liberdade em proveito próprio e a ambição do poder de algumas figuras históricas; a chegada dos retornados, protagonistas do "último episódio da História Trágico-Marítima"; a iniciação perplexa e forçada do mundo rural nos benefícios do corporativismo, da distribuição da riqueza, das nacionalizações.O romance é escrito em dois planos, a partir de duas perspetivas complementares: a perspetiva testemunhal, em direto sobre os acontecimentos, obtida a partir do acesso aos manuscritos inéditos do jornalista David de Castro, e a perspetiva distanciada do narrador, que, embora recorde acontecimentos vividos nesses dias, detém já a chave do devir, situando-se numa posteridade histórica. A diferença entre as duas vozes não reside apenas no tipo de registo: memorial, jornalístico, autobiográfico, lírico, em David, de observação exterior e de reconstituição factual, no narrador, mas também no ponto de vista ideológico. D. Quixote, sempre pronto a partir em defesa da sua amada, a liberdade, presa por novos inimigos emboscados, versus Sancho Pança; herói romântico versus anti-herói realista; no diálogo entre David e o narrador opõe-se o discurso da "amargura do idealismo espezinhado", depois da descoberta que "toda a revolução aspira a uma unanimidade falsificadora da diversidade essencial da nossa natureza" (p. 159) e o discurso da razão, da realidade, do conformismo, da desilusão. A par destas duas personagens que compõem, cada uma a seu modo, uma visão histórica do período pós-revolução, emerge um outro protagonista, o povo anónimo, que, como "em 1383, em 1640, e em 1910", perde o medo, "rompendo o casulo e descobrindo do ciclo milenário das metamorfoses...", fazendo inconsciente e espontaneamente a história.
Como referenciar: Café 25 de abril in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-04-26 01:08:41]. Disponível na Internet: