caldeirão

É um dos símbolos femininos mais antigos e sendo fonte de alimentação é também recetáculo de transformação e magia, e por isso associado às feiticeiras. Fonte de abundância e de conhecimento, o caldeirão simboliza o ventre materno e primordial que dá vida e regenera tanto nas tradições pré-cristãs, como nas tradições cristãs.
No antigo Egito, a junção de três caldeirões num hieróglifo simbolizava o ventre inicial criador de onde tinha surgido o universo e todas as coisas. Os mesmos três caldeirões estão presentes na tradição da Índia e também na mitologia norueguesa simbolizando o poder feminino da criação do Universo. O deus Indra indiano bebeu o sangue da lua de três caldeirões, da mesma forma que o deus escandinavo Odin bebe a sabedoria juntamente com o sangue dos caldeirões Odredrir, Bodn e Són, que estavam nas profundezas do ventre da Terra. Na tradição celta existe um caldeirão das três matriarcas, que está no fundo do mar ou dos lagos e, trazido à superfície, poderia ressuscitar os heróis mortos na batalha, simbolizando o seu retorno ao ventre materno e, portanto, uma espécie de reencarnação. Na literatura celta existe o caldeirão do sacrifício, o caldeirão da ressurreição e o caldeirão da abundância de Dagda, que encerra não são os alimentos físicos como também os alimentos espirituais e o conhecimento. O caldeirão em todas estas tradições está ligado à água, elemento ele também de vida, uma força mágica que existe no ventre materno. Na China, o caldeirão onde se fervem as ofertas e onde perecem os culpados é sinónimo de felicidade e prosperidade. Em toda a Ásia, existe a imagem do caldeirão mágico, o Kazan, que é também nome de cidades e de heróis. Segundo a tradição do Quirguistão, o herói é obrigado a procurar um caldeirão mágico com quarenta asas que tem uma natureza temível, destruindo todos aqueles que dele se aproximam, e que está guardado no fundo de um lago. O carácter universal do caldeirão é de ordem também iniciática, presente nas lendas dos antigos gregos onde cair no caldeirão simboliza uma passagem ritual ou teste para decidir da natureza divina dos heróis, ou seja, da sua imortalidade. Foi o caso da deusa Tétis que tendo filhos de um mortal, Peleu, os mergulhou num caldeirão com água para saber se eram mortais ou imortais. Medeia utilizou o caldeirão para tentar dar a Pélias a juventude perdida. O caldeirão era também utilizado pelos druidas celtas para a elaboração das sua poções mágicas.

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