Canção de gesta

Poema épico declamado, de origem francesa, celebrando os feitos de heróis, com intuito edificante.
Em França, as canções de gesta, inspiradas sobretudo nas lendas célticas da Grã-Bretanha, normalmente de autor anónimo, aparecem entre o século XI e XIII. O termo "gesta" vem do latim gesta, orum (n.pl.) que designa feitos, façanhas, daí que estas canções relatem feitos gloriosos de cavaleiros (reais ou imaginários) e, por vezes, da família destes, com o objetivo de enaltecer um ideia nobre, uma moralidade ou um espírito cristão, elementos fundamentais para a formação de um país.
No início do século XIII, as canções de gesta francesas, que se encontravam dispersas, foram organizadas e classificadas em ciclos, pelo trovador Bertrand de Bar-sur-Aube, de acordo com a árvore genealógica dos heróis ou com a temática abordada. Assim, existem três grandes ciclos: a Gesta do Rei (ou Gesta dos Reis de França ou Gesta de Carlos Magno), que inclui a mais antiga e importante obra-prima do ciclo - A Canção de Rolando (La Chanson de Roland); a Gesta de Garin de Magúncia (posteriormente designada como Gesta de Guilherme de Orange); e, finalmente, a Gesta de Doon de Magúncia (ou Gesta dos Barões Revoltados). No entanto, das 150 canções encontradas, pertencentes ao período entre os século XI a XIII, algumas não se integram nestes três grandes ciclos, formando, por isso, outros, como o ciclo Provincial, o ciclo das Cruzadas. Quanto à sua forma, as canções são compostas em versos decassilábicos (posteriormente aparecem com versos dodecassílabos ou alexandrinos), encontrando-se organizados em estrofes de medida irregular (entre 3 a 20 versos por estrofe). As canções apresentam esta estrutura específica, pois destinavam-se a ser cantadas por trovadores acompanhados de instrumentos de cordas, em melodia simples e repetitiva. Durante a atuação, o intérprete tinha que suscitar admiração ou desprezo no ouvinte e criar suspense nos momentos mais dramáticos da narração. As canções eram, geralmente, cantadas nos castelos, nos caminhos de peregrinação (como Tours, Santiago de Compostela, Roma ou Terra Santa) e nos locais onde se desenrolaram os acontecimentos.
Relativamente à unidade de conteúdo, a canção centra-se sobretudo numa personagem principal, que é mencionada no início da narração. Esta não apresenta linearidade, nem conclusão. Normalmente, as ações contadas aludem a feitos ou personagens que se situam dois ou três séculos antes do tempo da narração. As temáticas fundamentais são a guerra, a religião e o amor.
A cultura cavaleiresca das canções de gesta, que se difundiram por toda a Europa, está presente também na literatura de vários países. Para além do caso francês, salienta-se a obra castelhana o Cantar de mío Cid (cerca de 1140), as obras do ciclo asturiano ou de Chrétien de Troyes (1135-1183), os Lais de Maria de França (por volta de 1170), entre outras.
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