Casa dos Bicos

Em sintonia com a voga renascentista Ocidental, também Portugal possui um belo exemplar dos palácios "dei diamanti", cuja característica mais notória é a ornamentação da fachada, talhada em ponta de diamante, conferindo-lhe de imediato um ar de nobre imponência.
A Casa dos Bicos deve-se à iniciativa de Brás de Albuquerque que, tal como tantos outros nobres, elegeu a zona ribeirinha de Lisboa para morar, seguindo o exemplo de D. Manuel I. Regressado de uma viagem a Itália, onde acompanhou a Infanta D. Beatriz por motivo do seu casamento com o Duque de Saboia, empreende em 1523 a construção da sua residência, mandando arrasar as anteriores casas para além de um pedaço da "Cerca Moura", que lhes estava adjacente (nos trabalhos arqueológicos detetou-se parte de uma torre da cerca). Na tradição dos palácios Bevilaequa em Bolonha e Del Diamante em Ferrara, nasceu uma obra inovadora constituída por loja, sobreloja e dois andares nobres, impregnada do ideário renascentista, embora seja ainda o interior e a sua vivência funcional a ditar a planimetria da fachada, independentemente dos ideais métricos e ortogonais que os tratados propõem. "A fachada surge com a interseção de arcos manuelinos de volta perfeita e em curva e contracurva, transgredindo com a lógica racionalista da malha dos bicos" (Hélder Carita).
O Palácio do Infantado, em Guadalajara, parece ter também servido de fonte de inspiração do arquiteto a quem se atribui a obra: Francisco de Arruda. Aquele apresenta um detalhe idêntico ao do nosso palácio ribeirinho, que o demarca da sujeição pura e simples ao gosto italiano - a alternância do geometrismo das pirâmides com superfícies retas.
A loja e sobreloja eram visíveis a nível da fachada sul, virada ao rio (Rua dos Bacalhoeiros) e o primeiro piso nobre constituía o rés do chão da fachada norte (Rua Afonso de Albuquerque), cuja entrada principal era precedida por um pátio, definidor de toda a orgânica da casa. Este era um espaço críptico, privado e íntimo, pois era fechado por um muro onde se rasgava um portal quinhentista (restam apenas duas pedras da ombreira). Junto a este pátio houve em tempos uma passagem pública através duma escada contígua ao topo nascente, que dava acesso a um outro pátio com revestimento mudéjar, com acesso à Ribeira. Em 1643, os proprietários conseguem ganhar este espaço à Câmara. D. João Afonso, então o senhor desta casa, redimensiona-a criando uma escadaria central que obrigou a alterações significativas, a nível do interior.
Com o terramoto de 1755 e o posterior incêndio, a casa degrada-se bastante. Em 1772 foi parcialmente reconstruída - o seu anterior volume foi completamente alterado, uma vez que a casa passou a ser constituída apenas por loja e sobreloja (viradas ao rio). Albergava então um comerciante de bacalhau, encontrando-se depois intimamente ligada a esta atividade que perdura até ao século XX - em 1872, o décimo primeiro proprietário vende-a ao neto do bacalhoeiro Caetano Lopes da Silva. Por aqui passou ainda a instalação de uma tipografia, mas, nos anos 80 deste século, volta a sofrer profundas alterações. Foi o local eleito pelo comissariado da "XVII.ª Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura", para a montagem do núcleo "Os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento". Tratou-se de um vasto projeto de reabilitação que, ao integrar um trabalho rigoroso de pesquisa arqueológica, permitiu o conhecimento da "memória espacial" deste palácio e a integração de algumas das suas estruturas arqueológicas a nível da arquitetura (caso do rés do chão).
Assim, podemos visitar quatro dos cinco tanques da fábrica romana de conserva de peixe que aqui laborou entre o século I a. C. e o final do século III, início do IV, altura em que se constrói a muralha de Lisboa. São visíveis também os restos da torre medieval e o pavimento mudéjar. Os dois andares nobres são fruto do risco de arquitetos contemporâneos que optaram por uma recriação, cuja base estrutural tem como pano de fundo a gramática manuelina.
Posteriormente, a Casa dos Bicos serviu de acolhimento à Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, função que ainda cumpre.
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