Casas Pardas

A leitura de Casas Pardas obriga a um papel ativo da parte do recetor que deverá, ao longo de mais do que uma leitura, ir compondo o seu sentido do romance, de tal forma esse sentido, bem como a história e as personagens que o sustentam, se encontra pulverizado através de uma "apetência da jonglerie verbal" (p. 242) que aproxima a escrita narrativa do fluxo da irracionalidade, desconstruindo-a sistematicamente desde o nível de uma estrutura externa até ao menor segmento sintático. Parecendo obedecer a uma proliferação verbal incontida, capaz de assumir todo o tipo de registos, de géneros ou de estilos, este romance surpreendente concorre para a afirmação de que "a literatura moderna serve para demonstrar a irrelevância da evidência de processos de mostrar" (p. 326). Obra distinguida com o Prémio Cidade de Lisboa, em 1977, para Maria Alzira Seixo, neste romance, Maria Velho da Costa coloca com particular acuidade problemas de remodelação da estrutura narrativa, detendo nele a linguagem uma força primordial na organização "não propriamente como estilo [...] mas como fundamento do próprio seguimento narrativo": "a polissemia, a flutuação semântica, os paroxismos morfológicos e fonéticos [...], o jogo aliterante, o exótico dos arcaísmos e dos regionalismos, a utilização abundante do aposto frásico paronímico, a desconstrução ou inversão de aforismos, as hipérboles - são processos que atravessam o sentido comum, quebrando-se na sua representatividade e promovendo a produção textual exuberante e criativa, como elemento (e isto é o mais importante) de própria ficção." (SEIXO, Maria Alzira - A Palavra do Romance, Lisboa, Livros Horizonte, 1986, p. 187.) Centrado em personagens femininas, Elisa, Elvira, Mary, Casas Pardas ultrapassa, ainda de acordo com a mesma estudiosa, a sua "explícita mensagem possível" que corresponderia, respetivamente, a cada uma dessas personagens, ao sentido de "decadência da burguesia, incipiente acesso à consciência social de elementos das camadas populares, marginal mas precursor papel do intelectual" (id. ibi.), exigindo antes do leitor uma atitude de questionamento diante da sua multiplicidade complementar de sentidos.
Como referenciar: Casas Pardas in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-04-24 19:09:41]. Disponível na Internet: