Artigos de apoio

casta
Os cientistas reconheceram a existência, entre os insetos considerados sociais, como as formigas ou as abelhas, de diferenças, quer em termos anatómicos quer funcionais, que definem o seu estatuto de soldados ou operários e que identificaram em termos de castas. No que diz respeito aos seres humanos, o conceito de casta foi atribuído a diferentes formas de organização social por grupos, em sociedades tão díspares como as colónias da América de influência ibérica até ao século XIX, como a Índia, a África do Sul ou a África ocidental antes da colonização europeia.
Para além da corrente das ciências sociais que defende uma utilização do termo reservada ao sistema de estratos sociais promovido pelo hinduísmo nas sociedades da Índia, existe uma outra corrente que estende o conceito a outras sociedades com características diversas do sistema de castas indiano, nas quais se verificava cumulativamente a aquisição do estatuto social através do nascimento, portanto hereditário, o casamento entre os membros da mesma classe (endogamia) e a existência de uma hierarquia social. Estas características foram utilizadas para definir as relações entre negros e brancos nos EUA e na África do Sul, por autores como Gunnar Myrdal.
Apesar de ser, sobretudo e hoje em dia, aplicado à organização social no subcontinente indiano, o termo casta tem uma origem portuguesa e foi aplicado inicialmente relativamente a grupos de raças diferentes nas colónias espanholas da América. No entanto e curiosamente, este inicial "sistema de castas" nada tinha a ver, em termos de conceito, com qualquer uma das correntes atuais, indiana ou generalista. Na verdade, nas sociedades latino-americanas a endogamia era reduzida e verificou-se uma ampla mistura de raças que deu origem a uma espécie de "subcastas", designadas mestiços, mulatos ou zambos. A noção de casta aqui não tinha a ver com uma noção rígida e estanque ou imutável de diferenciação social relativa ao nascimento ou ao casamento, mas sim de ordem económica e financeira, perfeitamente mutável ao longo da vida, atendendo à capacidade de atingir uma supremacia social através do prestígio económico ou militar.
Na Índia, a palavra casta é utilizada para diferenciar tanto os três tipos iniciais de castas ou varnas, classes constituídas a partir de uma ocupação social - a principal divisão social em Brâhmana (sacerdotes), Kshatriya (guerreiros) e Vaishya (trabalhadores da terra e artesãos) a que se juntou uma posterior quarta casta, os Shûdra, que eram servos não indo-europeus hinduizados - como as inúmeras subcastas, chamadas de jatis, que se foram constituindo a partir das iniciais ao longo dos séculos e que chegam a atingir mais de quatro mil. O sistema de castas indiano é muito complexo e ainda permanece socialmente vivo apesar de ter sido oficialmente abolido por J. Nehru, no século XX, que proibiu igualmente todas as formas de discriminação social.
Para além das conotações de casta relativas aos sistemas sociais indiano, norte-americano e sul-africano, este conceito foi aplicado a grupos sociais dentro de sociedades que não utilizavam o sistema de castas, devido à sua diferenciação a partir de certas características de ocupação profissional ou de origem, como foi o caso no Japão dos burakumin, e dos ferreiros e dos sacerdotes de religiões tribais de muitas sociedades africanas. Esta grande diversidade dentro do conceito obriga à necessidade de distinguir as sociedades que estão estratificadas por castas, como a Índia e a África do Sul até 1994, chamadas de sistemas de castas genuínas, das outras sociedades em que apenas alguns grupos constituem uma casta à parte pelo facto de praticarem a endogamia e terem funções de ocupação social bem identificadas relativamente à restante população indiferenciada. Neste contexto, podem ser inseridos muitos grupos de minorias étnicas como os ciganos na Europa ou os judeus na Europa medieval.
Como referenciar: casta in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-05-24 10:45:26]. Disponível na Internet: