China: do Nacionalismo ao Comunismo (1916-1949)

À mercê das grandes potências, a dinastia Manchu foi submetida a um tratado imposto por estas a 7 de setembro de 1901. Segundo este, o Governo chinês era obrigado a entregar a estas potências uma grande indemnização.
Por outro lado, a guerra russo-japonesa de 1904-05, que tinha como objetivo a província da Manchúria e a anexação por parte dos japoneses da Coreia (protetorado chinês) em 1910, revelaram o declínio da China, reduzindo o papel da imperatriz Tseu-Hi, que acabou por apoiar a política reformadora.
Contrariando a oposição retrógrada dos Manchus, Tseu-Hi, chamou para junto de si Yuan Che-Kai que reorganizou o exército, suprimiu os exames dos funcionários em 1905, abriu novas escolas estatais (1901-1910) e, por um decreto de 27 de agosto de 1908, fez com que a China adotasse um sistema de monarquia constitucional. Com a morte da imperatriz e do imperador Kuang-Siu, em novembro de 1908, o trono ficou nas mãos de uma criança de 3 anos, Pu-Yi. Porém, a regência ficou a cargo de seu pai, o príncipe Tchuen, tradicionalista. Assim, um dos seus primeiros passos foi destituir Yuan Che-Kai, acabando, desta forma, com a reforma imperial e dando aos revolucionários do Sul, nacionalistas e democratas, a possibilidade de a levar em frente, agrupando-se no Kuomintang, que foi fundado por Sun Yat-Sen em 1900.
Enquanto o príncipe-regente, em Pequim, continuava a fazer os possíveis para atrasar o estabelecimento do regime constitucional que a imperatriz quis impor, a 10 de outubro de 1911 dá-se a revolta em Wu-tchang, no Ho-pei.
Assustada, a corte imperial chama Yuan Che-Kai, o militar mais poderoso do antigo regime, que forma um governo de reformadores. Porém, o movimento revolucionário continuava a alastrar, exigindo a instauração da república.
Desta vez, a Assembleia Nacional reuniu em Nanquim a 30 de dezembro de 1911, proclamando Sun Yat-Sen presidente da República.
Sozinho e constatando ser impossível combater os republicanos do Sul, Yuan Che-Kai obrigou o imperador Pu-Yi a abdicar a 12 de fevereiro de 1912, instituindo três dias depois o regime republicano em Pequim.
Porém, a fundação da República não resolveu os problemas.
Transformada em ditadura, a República, ao derrubar a ordem manchu e o regime imperial, retirou à China o seu elo de coesão, levando a uma desestruturação da sociedade e fazendo emergir todas as contradições que acabavam com ela.
A situação da China estava enfraquecida, o que obrigou o Governo a contrair grandes empréstimos no estrangeiro para cobrir um deficiente sistema de receitas públicas.
Ao mesmo tempo, para pagar estes empréstimos, dava aos estrangeiros as regalias dos direitos alfandegários.
Sun Yat-Sen, preocupado com a união nacional, afastou-se, o que levou a que Yuan Che-Kai fosse reconhecido como presidente da República, em março de 1912.
Com o único objetivo de conseguir reverter a revolução em seu proveito, a união entre os democratas do Kuomintang e Yuan Che-Kai não era possível.
Assim, a 4 de novembro de 1913, Yuan tentou acabar com os deputados do Kuomintang, dissolveu o Parlamento, substituindo-o por uma comissão nacional em janeiro de 1914, e acabou com as assembleias provinciais, em março de 1914.
Em agosto do mesmo ano, os japoneses ocuparam a região de Chang-tung.
Em janeiro de 1915, o Governo nipónico apresentou a Yuan Che-Kai um rol de exigências que se traduziram numa tentativa de colonização económica por parte do Japão. Face a este ultimato, Pequim cedeu, o que desencadeou em toda a China, principalmente no Sul, um movimento nacionalista.
Em agosto de 1917, a China entrou na Primeira Guerra Mundial ao lado dos Aliados, esperando adquirir com a Conferência de Paz, em 1919, a abolição da extraterritorialidade, a recuperação dos territórios que tinha cedido em arrendamento, a restituição das possessões ex-alemãs de Chang-tung e a liberdade de poder fixar as taxas alfandegárias.
Porém, a França e a Inglaterra não manifestaram qualquer intenção de dar à China a independência económica, recusando-se os diplomatas chineses a assinar o Tratado de Versalhes.
Este desacordo dos chineses face à política das nações europeias esteve patente um pouco antes, quando rebentou em Pequim o Movimento de 4 de maio de 1919, movimento estudantil, patriótico, de cariz antinipónico e antiocidental, de uma nova geração de estudantes e intelectuais orientados a partir do Ocidente, bem como de operários, com o objetivo de demonstrar uma consciência nacional e modernista de uma China modernizada, capaz de fazer respeitar a sua vontade a todas as nações ocidentais.
Em 1918, foi fundada na Universidade de Pequim, uma sociedade para estudar o marxismo, da qual fazia parte Mao Tsé-Tung, responsável pela biblioteca.
A rutura entre o Norte e o Sul depois da morte de Yuan Che-Kai, em 1917, era um facto. A morte deste e o regime que tentou impor deixou a China detentora de um governo central enfraquecido, enquanto a autoridade real nas províncias se encontrava cada vez mais nas mãos dos generais.
Assim, ao governo revolucionário de Sun Yat-Sen, com sede em Cantão, e que controlava as províncias do Sul, opunha-se o governo de Pequim que estava nas mãos dos senhores militares do Norte, dos quais se destaca Chang Tso-Lin, governador da Manchúria, e Wu Pei-Fu, general muito conceituado. Com o intuito de impor em Pequim um governo por eles escolhido, incompatibilizaram-se, sendo vencido o governador da Manchúria.
No Norte, a anarquia militar alastrava-se, enquanto no Sul Sun Yat-Sen organizava o Kuomintang que, aos poucos, ia conseguindo refazer a unidade na China.
Os revoltosos de Cantão, adeptos do Movimento de 4 de maio, possuíam um programa nacionalista que incluía a abolição dos tratados que implicavam determinadas obrigações incompatíveis com a soberania chinesa em território nacional.
A China era um dos países do Mundo menos desenvolvidos no que toca à economia.
A população vivia, essencialmente, da agricultura, que era rudimentar. A indústria concentrava-se na Manchúria, onde os capitalistas japoneses colhiam a grande parte dos lucros, e em Xangai, que era uma cidade tipicamente ocidentalizada. Os recursos minerais não eram explorados e o artesanato continuava a assumir um papel importante. As fábricas, bancos e caminhos de ferro eram controlados pelos estrangeiros, que também dirigiam as alfândegas.
Assim, as reivindicações nacionalistas de Sun Yat-Sen não suscitavam, por parte dos ocidentais, grande agrado.
Convicto de que o marxismo não podia ser aplicado na China, Sun Yat-Sen queria realizar a unidade nacional, aceitando a ajuda militar soviética e colaborando com o Partido Comunista Chinês, já que no II Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscovo em 1920, ficou estabelecido que os comunistas deveriam ajudar as lutas de libertação nacional dos povos colonizados.
A partir de 1923, Sun Yat-Sen reorganizou o Kuomintang (Partido Nacionalista) e o seu exército, ajudado pelo Comintern, que fez uma aliança com o embrionário Partido Comunista.
Deste modo, em janeiro de 1924, o Partido Comunista Chinês decidiu cooperar com o Kuomintang.
Nesta altura, Sun Yat-Sen já era ajudado por militares soviéticos, recebendo também armamento, dinheiro e munições.
É nesta época que se destaca a figura de Chiang Kai-shek, o mais destacado chefe militar do Kuomintang.
Quando Sun Yat-Sen morre, em março de 1925, o movimento nacionalista atinge o seu apogeu com uma onda de greves e boicotes organizados pelo Partido Nacionalista e pelo Partido Comunista e apoiados pela classe mercantil.
O governo nacional de Cantão passou para as mãos de Wang Tsing-Wei.
A influência comunista foi ganhando consistência nas cidades industriais.
Em julho de 1926, Chiang Kai-shek chefia a Expedição Norte, dos exércitos nacionalistas, com o objetivo de acabar com os generais e unificar o país. Apodera-se de Han-Keu em setembro de 1926, de Xangai a 20 de março de 1927 e de Nanquim a 24 de março do mesmo ano, onde instalou o governo nacional.
Durante esta expedição, os comunistas colaboraram com o Kuomintang, mas sempre querendo instaurar, nas regiões ocupadas, o seu poder revolucionário.
Deste modo, para evitar um golpe por parte dos comunistas, Chiang Kai-shek decidiu acabar com a organização comunista em Xangai a 12 de abril de 1927 e em Wu-han a 11 de novembro de 1927, ao mesmo tempo que a missão militar russa abandonava a China deixando os comunistas chineses sozinhos.
Estes tentaram, ainda que sem êxito, uma sublevação operária em Cantão (dezembro de 1927).
O Kuomintang cortou relações com a União Soviética e Chiang Kai-shek expulsou os comunistas e estabeleceu o seu regime em Nanquim.
Em abril de 1928, Chiang dirigiu-se para norte com os seus exércitos.
Chang Tso-Lin abandonou Pequim e Chiang Kai-shek ocupou a cidade a 4 de julho de 1928.
Embora a China estivesse agora reunificada sob um governo nacionalista e a guerra civil entre comunistas e o Kuomintang tivesse acabado, os generais não desapareceram.
Chiang Kai-shek procedeu rapidamente a uma reconstrução que tentou conciliar as exigências de modernização com a tradição nacional.
Ineficaz para resolver os problemas sociais agravados pela crise mundial, Chiang restaurou o prestígio da China no plano internacional, aumentando a sua participação na Sociedade das Nações e conseguindo de algumas potências ocidentais novos acordos que defendiam a abolição da extraterritorialidade.
Contudo, apesar de ter afastado os senhores da guerra, Chiang teve de enfrentar a ameaça nipónica.
Em setembro de 1931, os japoneses ocuparam a Manchúria a qual transformaram, em fevereiro de 1932, num Estado fictício de Manchukwo, sob o governo do último imperador manchu, Pu-Yi. Aqui construíram as bases de uma economia moderna, com uma grande rede de caminhos de ferro e indústrias ligeiras e pesadas.
Na mesma época, atacaram os quartéis de Xangai, ao que Chiang Kai-shek mostrou uma grande passividade.
Outra ameaça que Chiang teve de enfrentar foram os comunistas.
Após a expulsão de 1927 e o fracasso da sublevação operária de Cantão, o comunismo sob liderança de Mao Tsé-Tung deixou de ver no proletariado urbano a alavanca da revolução e virou-se para a luta camponesa, nas montanhas, onde estabeleceu regimes locais.
O mais poderoso destes regimes foi o Soviet Kiangsi, de onde, entre 1929-34, o Partido Comunista controlava uma grande área com milhões de habitantes e desenvolvia reformas agrárias do agrado e apoio das populações, organizando um exército constituído por camponeses miseráveis e soldados desertores do Kuomintang.
Em novembro de 1931, em Kiangsi foi proclamada uma república soviética chinesa sob a presidência de Mao Tsé-Tung.
Rapidamente os comunistas se disseminaram pelas províncias vizinhas de Fukien, Hu-nan e Hu-pei.
A partir de dezembro de 1930, Chiang Kai-shek avançou com sucessivas campanhas com o intuito de derrubar os comunistas de Kiangsi. Em outubro de 1934, os exércitos do Kuomintang atacaram Kiangsi, o que levou os líderes "vermelhos" a abandonarem a zona para evitar a aniquilação, dando início à Longa Marcha encetada pelo exército comunista que, durante um ano, num percurso de milhares de quilómetros, atingiu Chen-si (Norte da China).
Durante a Longa Marcha, na Conferência de Tsunyi a ala camponesa do partido dirigida por Mao Tsé-Tung estabeleceu a sua liderança.
Chiang Kai-shek, preocupado em esmagar os comunistas e os rivais das províncias, pouco ligou à resistência dos nipónicos.
Por pressão da União Soviética, também preocupada com os avanços japoneses, o governo soviético chinês, em 1935, lançou uma propaganda contra a ameaça exterior com profundas consequências nos patriotas que reprovavam a política de Chiang em relação a este inimigo.
Porém, em 1936, Chiang foi forçado, sob ameaça de morte, a constituir uma frente unida contra o inimigo comum, o que fez com que o Kuomintang e os comunistas se aproximassem.
Os japoneses invadiram a China a 7 de julho de 1937 apoderando-se de Pequim a 28 de julho do mesmo ano e de Tien-Tsin a 29 de julho de 1937, ocupando o Norte da China e Xangai a 8 de novembro de 1937, atingindo o vale do rio Amarelo e entrando em Nanquim a 13 de dezembro de 1937, onde instalaram um governo chinês presidido por Wang Tsin-Wei, sucessor de Sun Yat-Sen. A 21 de outubro de 1938 tomaram Cantão, Han-keu (25 de outubro de 1938) e obrigaram Chiang Kai-shek a refugiar-se na parte ocidental da China, em Szechwan.
Nos finais de 1938, os nipónicos já ocupavam uma vasta área do território chinês no Norte e Centro, tal como os principais portos e centros de indústria moderna.
Porém, apenas controlavam as grandes cidades e os meios de comunicação. Nas zonas ocupadas, a resistência chinesa feita pelos comunistas ganhava cada vez maior credibilidade, enquanto o Partido continuava a sua guerrilha obtendo cada vez mais simpatia por parte dos camponeses, devido às reformas agrárias que implantava.
Assim, enquanto o regime de Chiang Kai-shek ia enfraquecendo, devido às intrigas e à corrupção, não conseguindo mobilizar as massas, os comunistas, com a sua base regional e exército autónomo, organizavam guerrilhas muito importantes no Norte e Nordeste da China, apesar da falta de meios.
Em 1945, os comunistas procuravam controlar as áreas libertadas da ocupação japonesa, conseguindo em algumas delas estabelecer um poder administrativo.
Nestas zonas, o exército comunista vivia em estreita relação com os camponeses, devido às reformas agrárias e à nova distribuição de terras.
Este movimento, liderado por Mao Tsé-Tung, ao aliar o nacionalismo à revolução agrária, conseguiu o apoio da população.
Após a capitulação japonesa em agosto de 1945, os nacionalistas continuavam nas regiões do Centro e Oeste do Sul, afastados das zonas costeiras e das regiões industriais, enquanto os comunistas dominavam grandes territórios no Norte da China e Manchúria.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Governo nacionalista voltou a Nanquim.
Durante a guerra, o Governo nacionalista ficou dependente da ajuda financeira americana, tornando-se cada vez mais corrupto e desacreditado. A inflação subia e os exércitos estavam desmoralizados.
Após a capitulação nipónica, os nacionalistas e comunistas travaram lutas incessantes com o intuito de tomarem posse dos antigos territórios controlados pelos japoneses.
Ao mesmo tempo, decorriam negociações com o objetivo de ser criado um governo nacional que serviu para acentuar as diferenças entre Mao Tsé-Tung e Chiang Kai-shek.
Contudo, as hostilidades continuaram até à primavera de 1946, altura em que rebentou a guerra civil.
Após as vitórias nacionalistas em 1947, como a tomada de Yenen, a capital comunista a 19 de março, em 1948 a situação inverteu-se, isto é, enquanto a corrupção e a desordem se propagavam, as forças nacionalistas abandonadas pelos americanos que se concentravam, agora, na Europa, os comunistas, senhores da Manchúria desde o final de 1948, ao derrotarem os enfraquecidos exércitos nacionalistas, tomaram Tien-Tsin e Pequim em janeiro de 1949 e seguiram para sul. Ao mesmo tempo, o Kuomintang desagregava-se.
No Sul, várias cidades caíram nas mãos dos comunistas em 1949: Nanquim (24 de abril), Xangai (maio), Cantão (15 de outubro) e Tchong-king (8 de dezembro). No final de 1949 já controlavam toda a China.
A 1 de outubro de 1949 foi proclamada a República Popular da China, sob a presidência de Mao Tsé-Tung.
Chiang Kai-shek e o Governo nacionalista refugiaram-se na Formosa (Taiwan).
O novo regime instituído por Mao era constituído também por dirigentes não comunistas e com o apoio da viúva de Sun Yat-Sen. Só metade dos membros eram comunistas.
O Partido controlava todos os altos postos e interferia na vida das populações, devido às organizações militares e sindicais, aos movimentos juvenis e femininos.
Por outras palavras, tudo quanto era meio de informação, ensino e motores impulsionadores da economia estavam, exclusivamente, nas mãos do Estado ou Partido.
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