China do Rio Amarelo (1600 a 250 a. C.)

A China foi uma das primeiras regiões do Mundo a ser habitada pelo Homem.
O Paleolítico Inferior encontra-se representado, na China, pelas indústrias do vale do Fen.
O Mesolítico ainda é difícil de distinguir, mas no III milénio, o Neolítico aparece no curso médio do rio Amarelo, com a cultura do Yang-chao. A civilização neolítica estendeu-se a todo o Noroeste da China. No II milénio surge a cultura de Long-chan, no Chang-tong.
É a este período que remonta a primeira dinastia chinesa: a dos Hia (sécs. XXI-XVI a. C.).
Estes homens, protochineses, eram autóctones, dos planaltos de "loess" e da planície da bacia média e inferior do rio Amarelo e não imigrantes do Oeste.
Distinguiam-se dos povos vizinhos pelo facto de serem sedentários, onde a agricultura desempenhava um papel principal.
O fundador da dinastia Hia foi Yu, o "Grande". A este se devem os trabalhos de secagem e construção de diques e canais.
É esta civilização, essencialmente agrícola, que vai unificar a China aos poucos: II milénio ao Norte da China e no I milénio ao Sul da China.
No século XVII a. C. surge a dinastia Shang que vai durar até ao século XI a. C., cujo fundador foi T'ang, um nobre virtuoso.
Esta dinastia surgiu na confluência de duas culturas neolíticas (a de Yang-chao e a de Long-chan) na bacia do rio Amarelo, região de "loess" muito fértil.
Sucedeu à dinastia Hia e assistiu ao desenvolvimento do bronze chinês.
Com a dinastia Shang, as características da civilização chinesa antiga manifestaram-se: domesticação do cavalo, do boi, do cão, do porco, do carneiro e da cabra; possuíam a escrita pictográfica, o carro atrelado, a adivinhação sobre ossos e carapaças de tartaruga, surgiram as primeiras manifestações de astronomia e possuíam uma organização política estruturada em torno da cidade real.
Os Shang estabeleceram um estado poderoso que sobreviveu sem sérios rivais até ao século XI a. C.
Vestígios de cidades, túmulos luxuosos e artefactos de grande valor demonstram, claramente, que os governantes e a aristocracia eram extremamente sofisticados e, em parte, urbanizados.
A capital dos Shang mudou de lugar várias vezes, sendo Zhengzhou e Anyang os mais importantes sítios arqueológicos da China Shang.
As fortificações de Zhengzhou que datam de c. 1650 a. C. estabelecem o aparecimento da civilização chinesa durante a dinastia Shang.
Dentro da muralha encontravam-se os edifícios administrativos e de culto. Descobriram-se, também, estruturas muito grandes que parecem corresponder a uma construção palaciana, assim como a forma de um altar construído com terra batida.
Sob estes edifícios foi descoberto, em 1974, um poço que continha uma centena de crânios humanos, cortados à altura das sobrancelhas e orelhas.
Estes achados indicam uma sociedade muito estratificada, na qual os escravos ou os prisioneiros de guerra, ou ambos, eram utilizados em cerimónias religiosas ou como matéria-prima para a indústria do osso. Só a família real e a nobreza viviam dentro das muralhas.
No exterior, a população dispunha-se em volta das oficinas ou em aldeias agrícolas.
As duas fundições de bronze escavadas mostram a importância social dos trabalhos de bronze. As suas oficinas e casas eram mais cómodas que as da população em geral.
Quanto a Anyang que foi a capital Shang durante os séculos XIV-XI a. C., isto é, provavelmente a última residência dos governantes Shang, é a principal instância arqueológica da dinastia Shang. De vital importância são os túmulos reais e as jazidas de ossos oraculares com diversas inscrições.
Foi o comércio destes ossos que atraiu a atenção dos estudiosos sobre estas jazidas, já que no final do século XIX, os farmacêuticos chineses consideravam-nos muito importantes, em virtude das suas propriedades medicinais.
Apelidados de "ossos de dragão", revelam detalhes de valor incalculável sobre a vida e a cultura Shang e as suas inscrições constituem o testemunho do aparecimento da escrita.
As origens da escrita Shang, os pictogramas dos quais derivam os caracteres chineses, podem ser as marcas de propriedade ou de manufatura gravadas na cerâmica neolítica.
As inscrições que aparecem nos ossos oraculares ou nas carapaças de tartaruga contêm, geralmente, uma pergunta e uma resposta.
Os espíritos ancestrais eram considerados como guardiães zelosos e os seus descendentes tentavam obter o seu apoio, por meio de oferendas, como alimentos cozinhados em potes de bronze, e pediam o seu conselho que recebiam através da consulta das omoplatas e das carapaças de tartaruga.
Também típica desta Idade do Bronze foi a megalomania funerária dos soberanos Shang.
Os túmulos reais eram construídos e apetrechados com toda a pompa. Orientados na direção norte-sul, o acesso era feito através de rampas existentes nos dois ou quatro lados. Uma destas tumbas reais possui um poço funerário, no qual existia uma câmara de madeira onde se encontrava depositado o governante, enquanto que numa série de nichos adjacentes e nas rampas se encontravam seres humanos e animais sacrificados.
Este sacrifício das vítimas era fruto de um conjunto de práticas religiosas e de culto que, mais tarde, foram transformadas por Confúcio (551-179 a. C.) e seus seguidores na religião oficial da China.
Os sacrifícios humanos desapareceram quase totalmente com o findar da dinastia Shang.
A continuidade da civilização Shang e das restantes civilizações da antiga China apoiava-se nos ritos de culto aos antepassados que eram realizados pelo sacerdote-rei.
Quanto à sociedade, a aristocracia Shang era uma nobreza familiar, estritamente unida, cujo membro principal, o rei, remontava a sua descendência ao deus supremo, Shang-Ti, fundador antepassado do seu povo e governante atual do Mundo. Ao morrer, o rei subia ao céu para se unir ao seu grande antepassado, legando ao seu filho mais velho o papel de principal sacerdote no culto dos antepassados. No fundo, o rei era filho do céu e a sua autoridade terrena dependia da aproximação divina.
Os assuntos de Estado estavam na mão do rei. Era ele que decidia a política, fixava os tributos, mandava no exército já equipado com o carro e o arco e velava pela conservação dos sistemas hidráulicos. A sociedade feudal era confirmada pelo sistema de prestações pessoais que permitiram ampliar cada vez mais o método de rega e a prevenção das inundações.
Os benefícios deste sistema hidráulico também se estenderam aos agricultores. As principais culturas eram a do milho, trigo e do arroz.
Os Shang praticavam a caça e a pesca que lhes davam o necessário para a sua alimentação.
O excedente agrícola, resultado da irrigação e do trabalho intensivo, servia para sustentar a nobreza e os artesãos que eram um grupo muito importante da sociedade Shang. A condição de artífice sofreu grandes benefícios, nesta altura, como resposta à procura de uma classe aristocrática rica e privilegiada, por bens sofisticados.
Entre os ofícios mais importantes destacam-se os do trabalho do barro, bronze, ferro, couro, pedra, jade, madeira, seda e lã.
Salientam-se pela sua qualidade os trabalhos de bronze e jade.
No fim do período Shang, as tradições culturais chinesas já se encontravam bem definidas.
No que toca à arte, pode-se dizer que a maior parte dos vestígios chegados até aos nossos dias são artefactos de bronze. Na primeira fase da dinastia Shang, onde se destaca a cidade amuralhada de Cheng-chou, os vasos rituais de bronze combinam a preferência pelo desenho geométrico elaborado, como atesta a cerâmica da última fase da cultura de Yang-chao, com a preocupação pelo equilíbrio e a proporção das formas mais típicas da tradição de Long-shan. Os temas são originais e não muito numerosos. Destacam-se as máscaras monstruosas "t'ao-t'ieh". Sintetizando, a dinastia Shang surge em plena Idade do Bronze.
Cheng-Chou e Anyang foram as sedes de organizações governamentais fortemente centralizadas que controlavam uma série de aldeias espalhadas no Norte da China. No topo da sociedade encontra-se uma nobre linhagem que constituía o centro da estrutura política, económica e cerimonial. Por outras palavras, a dinastia Shang era uma teocracia hereditária muito rigorosa. Os senhores que administravam os povoados das diversas localidades eram familiares do governante, altos funcionários administrativos e governantes autóctones de localidades mais longínquas que pagavam um tributo ao Governo central.
Aparece também a classe guerreira revestida de muita importância.
O "status" mais alto herdava-se por primogenitura, num sistema de linhagem patrilinear. O sustento teocrático deste sistema era o culto aos antepassados que se mantém até aos dias de hoje.
O grande desenvolvimento das artes e ofícios, principalmente, da metalurgia do bronze, denota uma organização muito bem estruturada, isto é, a planificação e a redistribuição centralizada era de ordem burocrática como o aparecimento de bairros profissionais.
Os artesãos trabalhavam fora das muralhas, mas estavam, diretamente, ligados à corte.
Já na época Shang, aparece a combinação do caulino com o quartzo, que são tentativas de criar a porcelana que, mais tarde, será uma peça vital desta civilização caracterizada por uma grande precocidade.
A caligrafia era também uma atividade muito especializada e profissionalizada que concorria com as outras artes, incorporando a literatura e a pintura.
Em meados do século XI a. C., a dinastia Shang foi destronada por uma casa vassálica, a dos Zhou, Chou, Tcheu ou Tchou, que destruiu o último rei Shang, o tirano Chou Hsin.
Apesar da dinastia Shang ter sido derrubada no século XI a. C., a continuidade essencial destas tradições permaneceu indestrutível e as fundações deixadas durante este período continuam a ser a base da civilização chinesa dos tempos primitivos.
A dinastia Zhou foi a mais longa dinastia chinesa (1027-256 a. C.).
Durante este tempo produziram modificações na sociedade e na mentalidade, criando-se as condições adequadas para a unificação da China, em 221 a. C., e para o estabelecimento de um sistema imperial que iria durar dois mil anos.
O primitivo Estado Zhou ou dos Zhou ocidentais, que vai do século XI ao VIII a. C., era em certa medida uma continuação do período Shang. Isto é-nos revelado pela semelhança nas técnicas de construção, tipologia das tumbas reais, recipientes de bronze e pelo uso do mesmo sistema de escrita.
Os primeiros vasos de bronze deste período eram menos perfeitos que os últimos dos Shang, ainda que não fosse por muito tempo. Porém, a sua contribuição, tanto na religião como na política, levou a um amadurecimento do estado feudal.
O país foi dividido em feudos que estavam nas mãos dos grandes nobres que prestavam serviço de guerra sob ordens do soberano.
No fundo, os reis Zhou mantiveram o seu poder, garantindo estados feudais aos seus parentes e homens ricos. A organização feudal do período Zhou é documentada nos vasos em bronze que contêm inscrições que atestam a passagem dos feudos aos vassalos, em troca de ajuda política e militar.
A nobreza encontrava-se dividida em diferentes graus como conde, duque e barão. A pequena nobreza ou os filhos dos senhores serviam o rei e os senhores feudais.
A base da economia era o trabalho campesino. Sustentavam a sociedade ao conseguir um excedente agrícola e ao realizar prestações pessoais.
Os escravos, cuja existência durante a dinastia Shang ficou provada, vão desaparecer na época Zhou.
O reino central, que era como se autodenominavam os territórios do Norte da China nesta época, gozou de uma estabilidade total até ao ano de 771 a. C., altura em que se produziu uma quebra no sistema feudal como resultado da aliança das tribos bárbaras com os parentes da rainha que se tinham visto afastados da corte como consequência do enamoramento do rei pela sua concubina.
Como resultado, a capital Hao foi saqueada e o rei assassinado.
A dinastia Zhou recuperou-se deste desastre, mas a partir do século VIII a. C., para além de ter de estabelecer a nova capital em Loyang, mais segura e mais abaixo no curso do rio, os Zhou reinariam só de nome, já que apenas exerceram uma autoridade de ordem religiosa sobre os estados feudais que em breve se emancipariam.
O rei Zhou foi perdendo a sua autoridade e o poder passou para os nobres que possuíam os maiores feudos, os quais não tardaram em converter-se em estados independentes.
Este período entre 771 e 481 a. C. é conhecido pelos historiadores como o período dos anais da "primavera e outono", época que demonstrou a debilidade dos reis Zhou.
Com o desaparecimento das obrigações feudais e da autoridade central, os estados feudais entraram em confrontos, disputando entre si a hegemonia.
Estes conflitos provocaram tumultos políticos e sociais e os valores morais e religiosos foram questionados.
Porém, a fragmentação do Estado Zhou, no século VIII a. C., também marcou o início de um período de mudança e inovação. Uma das mais importantes características foi o desenvolvimento da metalurgia do ferro. A introdução do ferro nas ferramentas agrícolas e as ferramentas de madeira com pontas de ferro permitiu aumentar a produção da terra e ajudou a alimentar a crescente população.
A cunhagem da moeda surgiu pela primeira vez na China por volta de 500 a. C.
O sistema educativo aristocrático era constituído por uma série de artes militares, religião, cerimonial, escrita e aritmética. Esta aristocracia fortemente educada num sentido moral, ético e literário é uma das características mais marcantes da cultura chinesa.
Novas ideias, seitas e escolas rivais surgiram. Foi neste clima de agitação intelectual que foram definidas as grandes orientações do pensamento chinês, no século VI-V a. C., por Confúcio no plano moral, político e ético, e por Lau-Tseu (ou Lao-Tzu), fundador do taoísmo, no plano da filosofia mística.
Nos séculos IV-III a. C., a guerra a cavalo é substituída pela guerra dos aventureiros sem misericórdia e, mais tarde, a guerra de massas.
É o início do período dos Reinos Combatentes, em que a dinastia Zhou, de reis indolentes, perde a autoridade e, a partir de 335 a. C., os chefes dos diferentes feudos começam a adotar o título de rei: é a fase dos Zhou orientais.
Durante este período dá-se um grande desenvolvimento do amuralhamento das cidades e da armaria de ferro que refletem a insegurança constante em que se vivia. Vários estados do Norte da China construiram muralhas fronteiriças, algumas para proteção contra os estados vizinhos e outras contra a ameaça sempre presente dos povos nómadas do norte.
O mais ameaçador destes Reinos Combatentes foi o dos Tsin que se constituiu no Chen-si, nas fronteiras do Oeste, na proximidade com os bárbaros, na região que tinha sido o berço dos Zhou, acabando com a dinastia dos Zhou Orientais em 250 a. C.
Entre 230 e 221 a. C., o rei deste Estado autoritário destruiu todos os outros estados feudais e reunificou toda a China, dando origem à fundação do Primeiro Império Chinês, com a dinastia Ch'in ou Qin.
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