Chuva Braba

Publicado em 1956 pelo Instituto de Cultura e Fomento, o romance Chuva Braba é da autoria de Manuel Lopes, escritor cabo-verdiano nascido em 1907, em São Vicente.
Obra da novelística insular, a sua narrativa tem como polo central a vida de Mané Quim, personagem principal deste romance, e a luta que, diariamente, enfrenta para ultrapassar as dificuldades inerentes ao isolamento provocado pela condição de insularidade e à miséria decorrente de secas longuíssimas. Assolado por uma série de conflitos interiores, esta personagem é detentora de uma grande intensidade dramática que se vai aprofundando à medida que se aproxima do desenlace.
Tendo sempre aceitado pacífica e passivamente o seu quotidiano, na Ilha de Santo Antão, Mané Quim, de um dia para outro, é "desassossegado" por um convite que lhe foi feito pelo seu padrinho "Nhô Joquinha" para ir para a Amazónia - Brasil. Na verdade, perante este convite que lhe abre as portas da "oportunidade", sente-se arrebatado por um conjunto de sentimentos antitéticos que assentam fundamentalmente na dicotomia "precisar de partir" e "querer ficar". Esta dúvida, fonte de conflitos internos que invadem grande parte da população destas ilhas, acentua-se na personagem, quando, inevitavelmente, pensa no abandono a que sujeitará, se partir, a sua mãe, Ngã Joja, viúva há dez anos, e Escolástica, filha de Ngã Totona, que lhe começara a despertar o sentimento. Após a partida dos seus dois irmãos, os quais nunca deram notícias, Mané Quim foi alimentando a esperança de poder trabalhar um cantinho de terra abençoada por um pequeno regadio, no Ribeirãozinho, acreditando nas palavras de esperança de chuva "gritadas" por Nhõ Vital, o lunário.
Este sonho, associado ao fervor da paixão que crescia por Escolástica, é, repentinamente, destabilizado pelo convite do padrinho.
Assoberbado por esta nova situação, tenta aconselhar-se junto de sua mãe. Personificação da sabedoria e resignação, Ngã Joja, já ferida de morte pela partida dos outros dois filhos, mas consciente da "estreiteza" daquele espaço, acredita que Deus determinará os "destinos das coisas".
O protagonista tenta pesar na balança o convite de Nhô Joquinha e as palavras de Nhô Vital e as de Nhô Lourencinho que lhe dizia que deixar a Terra era perder a Alma.
De forma muito viva, o narrador vai prendendo a atenção do leitor, sempre à espera de conhecer o desenlace da intriga. Partirá ou não, perderá ou não a Alma Mané Quim?
Como que propositadamente, a decisão vai sendo adiada por sucessivos acontecimentos de que se destaca a destruição, pela calada da noite, da sua propriedade.
Resistindo à voz que lhe vinha do interior e que o convidava a ficar, Mané Quim foi abrindo a sua alma à possibilidade de partir, como solução para combater a miséria em que vivia. Contudo, acaba por não resistir ao chamamento da Terra, enquanto entidade que contém em si não apenas a componente física da geografia, mas fundamentalmente a componente espiritual e humana enformada pelas pessoas, pelos costumes, pelas tradições, em suma, pelas raízes, que definitivamente o impedem de partir.
Chuva Braba faz parte de um conjunto de obras de Manuel Lopes, nomeadamente Os Flagelados do Vento Leste, que apresentam como núcleo temático a luta do homem cabo-verdiano para vencer a natureza adversa.
Como referenciar: Chuva Braba in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-07-16 00:54:48]. Disponível na Internet: