cinema musical

Se o cinema nunca prescindiu de música, a importância desta variou ao longo dos tempos. Na sala escurecida, a tela branca recebia uma série de imagens do mundo real sem ruídos que tiveram de ser induzidos através dos sons dos instrumentos tocados ao vivo. O cinema mudo utilizava a música como acompanhamento, executada nos cinemas por pequenas orquestras ou por um simples pianista. Se muitas destas bandas sonoras surgiam da inspiração dos executantes, nos filmes mais importantes faziam parte de uma partitura que era distribuída com o filme, como foi o caso de The Birth of a Nation (O Nascimento de uma Nação, 1914), de D.W. Griffith. Curiosamente, a música também era utilizada durante as rodagens dos filmes para transmitir a atmosfera necessária ao desempenho dos atores, sobretudo nas cenas mais românticas.
Com o cinema sonoro e a sincronia entre som e imagem, a música não só continuou como tema de fundo mas também como artifício necessário para atenuar a rispidez das mudanças de plano. Eisenstein utilizou a banda sonora de forma magistral, adaptando-a à intensidade da ação, como foi o caso de Ivan Grosznyj (Ivan, o Terrível, 1945), na década de 40. Em outros filmes, a música foi tão importante que contribuiu em grande medida para a mitificação do filme, como Casablanca (1943), com o clássico "As Time Goes By". Apesar da importância da música ser crescente, ainda não se tinha chegado ao filme musical no sentido atual do termo. O cinema-espetáculo cedo teve exemplos em que as biografias de compositores clássicos eram o tema principal como Strauss e Mozart. Um exemplo interessante surgiu na Alemanha, em 1933, com Unfinished Symphony (Sinfonia Incompleta), de Willi Forst, sobre a vida de Schubert. A França retorquiu com a vida de Berlioz, em La Symphonie Fantastique (Sinfonia Fantástica, 1942), de Christian-Jaque, no que foi seguida pela Itália com vários exemplos. Não querendo ficar atrás, Hollywood lançou-se em grande com The Great Waltz (Grande Valsa, 1938), de Julian Duvivier, A Song to Remember (Chopin Imortal, 1945), de Charles Vidor, Song for Scheherazade (A Canção de Sherazade, 1947), de Walter Reisch, ou The Great Caruso (O Grande Caruso,1951), de Richard Thorpe, entre outros. Foram famosos os filmes de ópera protagonizados por divas como Grace Moore em When Your in Love (Prelúdio de Amor, 1937), de Robert Riskin, ou tenores como Mário Lanza. A moda dos musicais clássicos foi substituída por outros temas como a comédia burlesca, mas o filme musical começou a ter outras vertentes ou subgéneros definidos pelo seu argumento. São exemplos desta abrangência It's Always Fair Weather (Dançando nas Nuvens, 1955), de Stanley Donen e Gene Kelly, o trágico A Star is Born (Assim Nasce Uma Estrela, 1954), de George Cukor, ou a reflexão política de Cabaret (1972), de Bob Fosse. O género musical propriamente dito surgiu quando a inclusão de cenas cantadas e dançadas foi imprescindível à sua temática central e ao ritmo da sua ação. O embrião daquilo a que atualmente chamamos cinema musical nasceu com o cinema sonoro: eram as atuações filmadas das grandes estrelas da canção que apenas estavam disponíveis ao grande público através dos discos. As experiências francesas com Sarah Bernhardt e Caruso, em 1908 e 1914, antecederam o sucesso dos irmãos Warner com o primeiro filme sonoro que ainda não era musical, Don Juan (1926), mas que era acompanhado de curtas-metragens sonoras de figuras da dança e da canção. É difícil definir qual foi o primeiro filme musical. Em 1927, The Jazz Singer (Cantor de Jazz), de Alan Crosland, teve como protagonista Al Jolson e seria talvez o primeiro exemplo de um filme que tem a voz cantada, um musical, e o seu grande êxito abriu a porta para uma série de musicais de que a Grande Depressão de 1929 iria necessitar, como The Show of the Shows (A Revista das Estrelas, 1929), de John Adolfi, ou The King of Jazz (O Rei do Jazz, 1930), de John Murray Anderson, e os grandes sucessos dos anos 30: Paramount on Parade (Paramount em Gala , 1931) e Hollywood Partie (A Revista de Hollywood, 1932), com estrelas famosas como Maurice Chevalier, Laurel e Hardy, Clara Bow, Gary Cooper ou Buster Keaton. Na Alemanha, surgiu Marlene Dietrich, a primeira grande estrela europeia do cinema musical, que ficou famosa em The Blue Angel (O Anjo Azul, 1929), de Joseph von Sternberg, filme que seria o seu passaporte para os Estados Unidos da América. A inglesa Lilian Harvey foi uma atriz famosa do musical alemão que também continuou a sua carreira em Inglaterra e nos Estados Unidos da América. A década de 30 assistiu a muito filmes musicais assinados por Ernst Lubitsch e Rouben Mamoulian e com estrelas como Bing Crosby, Bob Hope ou a lendária e escandalosa Mae West, que chegou mesmo a assinar o argumento e os diálogos de alguns dos seus filmes e a ser presa pela utilização de linguagem obscena. A década de 30 foi ainda marcada pelo coreógrafo Busby Berkeley e pela magia e erotismo das suas girls em filmes como, por exemplo, Gold Diggers of 1933 (Orgia Dourada), de Mervyn Le Roy, em 1933. Frank Sinatra daria os seus primeiros passos no cinema a par de uma fulgurante carreira como cantor. Os musicais incluíam música, canto e dança e ofereciam, neste conjunto, o erotismo, um elemento muito poderoso numa época em que imperava o puritanismo. O clima entre Fred Astaire e Ginger Rogers, que contracenaram em dez filmes, ou Cyd Charisse e Gene Kelly, era mais poderoso do que qualquer beijo que de resto, de início, nunca chegavam a dar. Rita Hayworth provocava uma autêntica revolução nas salas quando dançava, mas também quando acendia um simples cigarro. Betty Grable, a pin-up dos tempos da guerra, representava com as suas pernas o ideal de mulher suave que os soldados consumiam em poster. Entre as muitas estrelas do cinema musical americano contam-se as crianças-prodígio como Mickey Rooney e Shirley Temple, esta última um mito eternamente infantil que mudou o penteado e as roupas de milhões de crianças da sua época. The Wizard of Oz (O Feiticeiro de Oz, 1939), de Victor Fleming, consagrou definitivamente Judy Garland, que viria a ser a grande estrela dos anos 40, bem como o realizador Vincent Minnelli, com quem casou, e Rouben Mamoulian, que continuou a dedicar-se ao género de musicais. Carmen Miranda, "a bomba brasileira", foi um dos grandes mitos dos anos 40, "fabricada" para conquistar os mercados latino-americanos durante o período da Segunda Guerra Mundial. Em 1949, a dupla Gene Kelly e Stanley Donen, lançou a sua obra-prima On the Town (Um Dia em Nova Iorque), que representou uma rutura com o passado ao afastar as anteriores convenções que justificavam os números de dança incluindo-os livremente. Na Europa do pós-guerra, o musical teve menos exemplos, à exceção da dupla Luís Romano e Carmen Sevilla, em filmes de produção hispano-francesa, como é o caso de Andaluzia (1950), de Luís Lúcia e Robert Vernay, e Violetas Imperiales (Violetas Imperiais, 1952), de Richard Pottier. O musical tornou-se um género tipicamente americano, ao transferir para a tela o music-hall e o vaudeville nacionais da Broadway, o que os países da Europa nunca conseguiram verdadeiramente atingir com a mesma dimensão, com o cabaret alemão, o café-concerto francês, o tablao espanhol ou a revista portuguesa. Mas apesar da grande contribuição da Broadway para o cinema musical, os grandes filmes do género não tiveram a sua origem nos palcos do teatro e foram antes criações originais, como foi o caso de The Band Wagon (A Roda da Fortuna, 1953), de Vincent Minnelli. O processo inverteu-se e muitos dos sucessos da Broadway passaram a ser adaptações de películas originais, como foi o caso de Eva (1950), de J. L Manckiewicz. Os anos 50 foram marcados por três grandes filmes: The Band Wagon (1953, A Roda da Fortuna), de Vincent Minnelli, Singin' in the Rain (Serenata à Chuva, 1952) e It's Always Fair Weather (Dançando nas Nuvens, 1955), ambas de Donen e Kelly. As estrelas mais brilhanres da década foram Marilyn Monroe, inexcedível em Gentleman Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Louras, de Howard Hawks, 1953), Marlene Dietrich, Rita Hayworth e Doris Day, entre outras. A estrela do rock Elvis Presley participou em alguns musicais, como Love Me Tender (1956), de Robert D. Webb. Os anos 60 e 70 iniciaram-se em 1961 com o grande êxito de West Side Story (Amor Sem Barreiras, 1961) de Jerome Robbins e Robert Wise, My Fair Lady (Minha Linda Lady, 1964), de George Cukor, com Audrey Hepburn. Mary Poppins (1964), de Robert Stevenson, e The Sound of Music (Música no Coração, 1965), de Robert Wise, tornaram-se clássicos inesquecíveis. Barbra Streisand tornou-se conhecida em Funny Girl (1968), de William Wyler. Liza Minnelli revela-se como a incrível atriz e cantora de Cabaret (1972), de Bob Fosse. Em Itália, o musical está praticamente ausente, com a exceção do realizador Ferdinando Baldi. Em Espanha, representam o género estrelas nacionais da música como Lola Flores, Sara Montiel, Joselito e Marisol, e, em Portugal, atrizes-cantoras como Beatriz Costa, Amália Rodrigues e vozes famosas da rádio como Milú e Maria Eugénia.
Uma análise à história do cinema musical dá conta da quase total ausência do jazz, a música americana por excelência. Depois de The Jazz Singer (O Cantor de Jazz, 1927), com a sua célebre canção Mammy cantada por Al Jolson, um branco pintado de negro, seguindo a triste tradição dos Minstrels, em que brancos pintavam a cara de negro e negros pintavam a cara de negro como se fossem brancos pintados de negro, o jazz efetuou uma longa travessia pelo deserto no cinema musical no que diz respeito ao protagonismo dos seus músicos mais carismáticos. Bessie Smith, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Duke Ellington e Mahalia Jakson são alguns dos muitos exemplos, que, para além de algumas fugazes participações como convidados, nunca tiveram o lugar que o seu génio merecia. O racismo americano levado à indústria pelo Código Hayes, fez mesmo com que a extraordinária cantora e atriz Lena Horne tivesse que esconder a sua origem e aclarar a sua pele para se converter na grande estrela dos musicais da Metro, mas cujas participações, sempre secundárias, estavam concebidas de forma a que pudessem ser retiradas quando os filmes passassem nos estados do Sul. Existem alguns exemplos de tentativas de estabelecer a origem branca do jazz, interpretados por Paul Whiteman, Glenn Miller ou Benny Goodman, mas que não foram bem sucedidas, acabando por ser excluídos também a maioria dos músicos brancos do jazz. Uma curiosa exceção ocorreu com George Gerschwin, no filme Porgy and Bess, realizado em 1959 por Otto Preminger.
A tradição do jazz em Paris acabou por permitir na Europa algumas exceções como foram a música de John Lewis para Sait-on Jamais? (Uma Aventura em Veneza, 1957), de Roger Vadim, e de Miles Davis para Ascenseur pour l'échafaud (Fim-de-Semana no Ascensor, 1958), de Louis Malle. Os musicais All That Jazz (1979), de Bob Fosse, e The Cotton Club (1984), de Francis Ford Coppola, apesar de uma excelente banda sonora, não se afastaram da linha anteriormente traçada. O primeiro filme a quebrar esta infeliz tradição terá sido provavelmente Bird (1988), de Clint Eastwood, sobre a vida do músico Charlie Parker, que ganhou o Óscar da Melhor Banda Sonora, da autoria de Lennie Niehaus. O pop chegaria ao cinema através dos Beatles no filme Help! (Socorro, 1965), de Richard Lester. Na década de 70 foram, vários os géneros musicais desenvolvidos em filme. O pop-rock e a protest song em Woodstock (1970), de Michael Wadleigh, 200 Motels (1971), de Frank Zappa, Jesus Christ Superstar (1973), de Norman Jewison, Tommy (1975), de Ken Russel, The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman, e Hair (1979), de Milos Forman. A exploração de outros géneros musicais continuou com a música country em Nashville (1975), de Robert Altman, a dance music dos "travoltanos" ao som dos Bee Gees Saturday Night Fever (Febre de Sábado à Noite, 1977), de John Badham, e Grease (1978), de Randal Kleiser. O revivalismo marca o filme de Oliver Stone, The Doors, de 1991, em homenagem ao famoso grupo dos anos 60, e também Moulin Rouge, de 2001, de Baz Luhrmann, um remake do filme homónimo francês de 1944, de Yves Mirande, com Josephine Baker. Dancer in the Dark (2000), de Lars von Trier, que tem como atriz principal a cantora Björk, é talvez a criação mais original da última década do século, num musical que inclui uma interessante referência ao sonho americano de Hollywood. Nos primeiros anos do século XXI, assistiu-se a um ressurgimento do cinema musical, muito devido ao êxito de Chicago (2002), de Rob Marshall, premiado com seis Óscares.
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