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comédia
Termo de origem grega (komoidía, de kômos, que significa festa, e oidós, cantor) que designa um subgénero dramático que se opõe a tragédia e cujo conteúdo apresenta a vida quotidiana e ações humanas. A comédia utiliza recursos que provocam o riso no espectador, recorrendo ao imprevisto, ao ridículo, à surpresa, à desordem.
Partindo da etimologia da palavra, pensa-se que a comédia nasce nas festividades, em homenagem a Dionísio ou Baco, que usavam cânticos fálicos em sua honra. A primeira definição deste subgénero teatral é a de Aristóteles que, na sua Poética (cap. V, 1149.ª, 32), a define como "imitação de homens inferiores; não, todavia, quanto a toda a espécie de vícios, mas só quanto àquela parte do torpe que é o ridículo. O ridículo é apenas certo defeito, torpeza anódina e inocente; que bem o demonstra, por exemplo, a máscara cómica, que, sendo feia e disforme, não tem [expressão de] dor." Aristóteles salienta ainda a dificuldade em precisar as características da comédia devido às suas mutações constantes. No entanto, na comédia, existe a presença do coro, das máscaras e da música, tal como na tragédia.
Na Grécia, este subgénero evolui em três fases distintas, considerando-se a comédia antiga, a comédia mediana e a comédia nova. Relativamente ao período da comédia antiga, Aristófanes é um seu grande representante estruturando-a com as seguintes partes: o prólogo; o párodo, que consiste na entrada do coro e nas suas intervenções ou disputa entre dois coros; a parábase, isto é, um interlúdio coral que suspende parcialmente a ilusão dramática, dirigindo-se diretamente ao auditório; os episódios, ou seja, as cenas dialogadas pelas personagens e intercaladas por intervenções do coro; o êxodo, concretizando-se no desenlace final. A comédia antiga caracteriza-se pelo tom de humor e de sátira com que se crítica assuntos da vida quotidiana, aspetos políticos e sociais e figuras e instituições proeminentes, sendo a sua finalidade principal a diversão, para além do objetivo moralizante. Emprega uma linguagem lúdica, através de jogos de palavras, equívocos, ironia, clichés e apresenta ainda personagens de forma caricatural.
A segunda fase denomina-se comédia mediana ou intermediária. A comédia deste período, cultivada por Antífanes e Alexis, entre outros, aborda assuntos mitológicos ou literários e caracteriza-se sobretudo pela ausência de coro.
A terceira fase, a comédia nova, iniciada por Menandro e desenvolvida também por Filemon, Apolodoro de Carystos, entre outros, trata principalmente o tema do amor e do comportamento humano. Este tipo de comédia revela economia na apresentação dos acontecimentos e na função do coro, apresenta simplicidade no espetáculo teatral e valoriza o predomínio completo do diálogo.
Em Roma, a comédia é constituída por prólogo, diálogo (diverbium) e acompanhamento musical (sobretudo flauta), eliminando a presença do coro. Apesar de não ter obtido o mesmo nível da comédia grega, existem várias das suas modalidades. A comédia paliata ou palliata, denominada assim pela veste (pallium), que os atores traziam, que se aproxima do modelo grego da comédia nova e é cultivada por Plauto e Terêncio, entre outros. A comédia togata, caracterizada pelo uso da toga (vestimenta romana), que os atores envergavam. Recria temas, cenas e personagens geralmente populares e é explorada por Titinio. Há ainda a comédia atelanas (fabulae atellanae), uma criação da península itálica, que representa obras populares, burlescas, próximas das celebrações em honra de Baco e que tem como antecedente a commedia dell'arte.
Na Idade Média, a comédia perde protagonismo, deixando de ser praticamente cultivada. No entanto, passa a empregar-se o vocábulo para as narrativas ou poemas de desfecho feliz, como é disso exemplo a Divina Comédia de Dante. A partir do século XIII, a comédia, recuperando as características primitivas, renasce com o florescimento de farsas, momos, arremedilhos e de pequenas peças cómicas.
No Renascimento, a comédia assume o papel de excelência, que possuía na Grécia, e adquire estrutura formal fixa (divisão em três atos). De referir que a expressão castigat ridendo mores (a rir se castigam os costumes), criada por Jean de Santeuil (1630-1697), é empregue essencialmente como divisa pela comédia italiana. Em Portugal, a comédia vulgariza-se com Gil Vicente e com o teatro popular. Em Espanha, a comédia é cultivada por Lope de Vega, Calderón de la Barca, Ruiz de Alarcón e Rojas Zorrilla, entre outros. Em Inglaterra, é desenvolvida por Shakespeare e Ben Johnson. Em França, por Molière e, em Itália, representada pela commedia dell'arte. No século XX, o teatro cómico é produzido por Luigi Pirandello, Bernard Shaw, Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Bertolt Brecht, entre outros.
A comédia pode ser categorizada segundo várias modalidades que a seguir se indicam.
A comédia de costumes tem como objetivo criticar os hábitos e as rotinas da sociedade de uma determinada época ou de um grupo social. São exemplo as obras de Molière, Les Precieuses Ridicules (1659, As Preciosas Ridículas) e Les Femmes Savantes (1662).
A comédia de personagem foca uma determinada figura estereotipada, como em Tartuffe (1664) e Le Misanthope (1666, O Misantropo) de Molière.
A comédia-ballet, criada por Molière, integra danças cómicas numa comédia de costumes ou de personagem, tal como em Les Fâcheux (1661) e Le Bourgeois Gentillhomme (1670).
A comédia lacrimejante, variante da comédia sentimental do século XVIII, através das aventuras das personagens, procura provocar comoção e piedade nos espectadores. Destacam-se, como exemplos, Fausse Antipathie (1733) de Nivelle de la Chaussée e La Mère Confidente (1735) de Marivaux.
A comédia da capa e espada, proveniente de Espanha, desenvolvida principalmente no século XVI (Siglo de Oro), foi designada com esse nome, dado que as personagens, que representavam os cavaleiros da época, usavam uma capa e uma espada. Este tipo de comédia abordava sobretudo as intrigas amorosas, como se verifica em La Dama Boba (1613) de Lope de Vega.
A comédia pastoril, aparece sobretudo nos séculos XVI e XVII. Valoriza a vida simples dos pastores como modelos de uma vivência inocente, idílica e nostálgica, tal como em Les Bergeries (1625) de Racan.
Na comédia burlesca, predomina uma sequência de aventuras cómicas e divertidas que acontecem a uma personagem excêntrica ou a um cómico, como em Dom Japhet d'Arménie (1653) de Paul Scarron.
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