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Condição Humana (3.º Quartel Séc. XX)
"O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância."

André MALRAUX, A Condição Humana, 1933

A Condição Humana pode ser entendida como o horizonte no qual se perfila toda a existência humana, com o mundo a servir de lugar de exílio, de refúgio ao indivíduo. Este terá na morte, única certeza do indivíduo, o incontornável momento de confronto com a sua própria condição humana. "A vida voa", dizia Omar Khayyam (poeta persa do século XII), pois "a flor que floresceu uma vez, morre para sempre". Muitas foram as formas de se encarar a Condição Humana, quer numa perspetiva de entrega à mesma quer numa forma de aceitação tenaz e lutadora, comportando sofrimento e morte, como entre os Cristãos, por exemplo. "A vida é uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia...", sentenciava Shakespeare (Macbeth). Tantas foram e são as formas de se encarar a Condição Humana, para uns um flagelo, um degredo terreal, um "vale de lágrimas", para outros o inevitável, logo não há forma de a evitar, para outros um tormento que aumenta em cada dia da vida. Uns vivem-na alegremente, outros lutam contra ela, outros esquecem-na.
O passado acaba por ser para o indivíduo um capital de experiência humana, um conjunto de tensões e choques, civilizacionais ou individuais, numa consciência dualista da vida do homem no mundo e da sua aventura do futuro. A Condição Humana pode assim ser entendida como a luta entre a vida e a morte, entre o indivíduo e o grupo (a sociedade), a liberdade e o destino, o que é finito e o que se pode aperfeiçoar. A condição humana não implica necessária e exclusivamente negativismo, antes apenas reflexão e tomada de consciência do papel do homem no mundo, no tempo e no espaço.
O homem é um ser vivo, nasce, cresce e morre um dia. Apenas tem a vida, orientada para a morte. Mas algo há que o impele ao desejo de fuga, quase de desafiar a sua condição enquanto homem. Como tal, porque vive, há que assegurar a manutenção da sua própria vida, comendo, bebendo, aprendendo, conhecendo, adaptando-se ao meio e ao grupo. Como condição é genericamente "tudo aquilo de que alguma coisa depende", dependendo o homem da vida e ninguém podendo pensar no seu lugar ou por si, há que dar pois um sentido à sua existência, "moldar" a sua própria condição humana, por mais que ela esteja impregnada de destino. Mas o homem não é um ser isolado, fisicamente precisa de algo para ter uma vida enquanto ser, necessita de outros seres, condição para a sua realização humana, o que faz dele um ser cultural e solidário. "Aprendamos a viver em conjunto como irmãos, senão vamos morrer em conjunto como uns idiotas" (Martin Luther King).
O homem é também capaz de efetuar escolhas, enquanto ser livre e responsável pelos "seus atos", tomados livremente, o que dele faz senhor do seu destino: no fundo, o homem é aquilo que ele quiser ser. A tensão aqui reside no facto de que muitas coisas (ou nem tudo) já não dependem dele, o que faz com que não seja senhor do seu destino. Porque não escolheu nascer, por exemplo, ou os seus genes, nem a época e lugar para viver, teve que aceitar uma série de contingências, adversidades, fatores externos de ordem física ou cultural, que lhe são impostos, o que já faz dele um ser dependente em muitos parâmetros da vida.
E porque vive, com efeito, é limitado como ser, no tempo e no espaço. Falha, erra, é frágil, engana-se, sofre. O que dele pode fazer um ser "eternamente insatisfeito", em luta pelo aperfeiçoamento, em aprendizagem com os seus erros e falhas, animado por um forte sentido de busca da perfeição. Do infinito, até: daí a ideia de Deus. Schopenhauer afirmava, nesta ideia de tensão entre finito e infinito, nesta procura do aperfeiçoamento, que "A vida de um homem não é senão uma luta pela existência com a certeza de ser vencido"...
A condição humana, vista desta forma, a partir da consciência das tensões e conflitos da história do homem, no todo ou individualmente, na história de cada um, pode ser vista como a avaliação da amplitude de defeitos e erros que o homem deve superar, para pura e simplesmente se realizar, dar um sentido à sua vida, ultrapassar as suas contradições. O homem é um ser metafísico, desde sempre, animado por duas forças essenciais que animam a sua condição humana, o amor, que une, e o ódio, que separa.
O existencialismo acabou por ser a grande corrente filosófica que projetou a sua reflexão em grande parte na condição humana. O individual, o ser, as suas experiências e singularidades de vida, são o objeto da filosofia existencialista, na sua forte crença na liberdade absoluta. Analisaram, a partir de meados do século XX, principalmente, o problema da existência humana, questionando-a em toda a sua natureza: quem somos, o que fazemos, para onde vamos, o que é que nos move, tantas foram as questões que Sartre, Jasper ou Heidegger, entre outros, lançaram ao mundo acerca da existência, enfim, da condição humana, do sentido da vida. Vendo-a a partir das experiências vividas, para uns é como que uma "náusea" (Sartre), outros consideram-na a "experiência da caminhada para a morte" (Heidegger), ou então a "fragilidade do ser" (Jasper). A reflexão sobre a Condição Humana ganhou grande expressão literária e cultural em meados do século XX, depois da publicação do título que lhe deu o nome, por André Malraux, em 1933. Depois veio a Segunda Guerra Mundial, teatro por excelência das venturas e desventuras da Condição Humana, com toda a reflexão que dela adveio, principalmente na filosofia e na literatura, onde pontificam nomes como Jean-Paul Sartre ou Simone de Beauvoir, os quais beberam as reflexões de Husserl, Heidegger, Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Kierkgaard ou Jaspers. O problema da Condição Humana centrou-se, no terceiro quartel do século XX, na consciência e tomada de posição sobre o "absurdo do mundo e da barbárie" sem justificação que resultou da Grande Guerra, já como Malraux debatia no seu livro, nas agruras da existência, dos conflitos, na vida dos que provavam o fel amargo da guerra, da destruição, que a Guerra Civil de Espanha e o grande conflito de 1939-1945 sublimariam, seguidos da Coreia, da Argélia, da Indochina Francesa, do Vietname e das descolonizações sangrentas de África, mundos de crueldade, de dor, de sofrimento, da dura e triste condição humana de tantos seres humanos.
"Vidas largadas ao abandono", na guerra como nos países marcados pelo progresso e pela paz, que também deixam marcas na existência de cada um e do grupo em que se insere, feridas da condição humana. Daí a ideia da solidão, do silêncio, do absurdo, da "morte de Deus"... Uma consciência aguda de abandono do indivíduo, em que já nem Deus o assiste e ampara, numa época em que o mergulho na solidão era cada vez mais gritante, na impotência do indivíduo em superar as contradições da sua existência e das suas ações, que geram morte, destruição, finitude entre o ser humano. A condição humana foi nos anos 50-70 do século XX vista sob a forma de luta contra as guerras, contra a opressão da sociedade de consumo, contra as soluções político-militares resultantes da Segunda Guerra Mundial, contra a destruição do indivíduo, logo da sociedade. Era preciso uma emergência do indivíduo, uma tomada de consciência do seu lugar no mundo, no tempo, na história, no todo. Daí a luta pelos direitos humanos, a luta contra a segregação racial e social, como fez Martin Luther King ou Nelson Mandela, entre outros profetas da Negritude, como Léopold Senghor, o direito à opção para os povos subjugados e para os marginalizados, a luta contra os fantasmas da Guerra Fria e contra o fosso entre países desenvolvidos e aquilo a que se começou a designar por Terceiro Mundo.
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