Conflito Etiópia-Somália

A Etiópia, ou antiga Abissínia, é a única nação africana que nunca foi colonizada por potências ocidentais, com exceção do período de ocupação italiana entre 1936 e 1941, a partir da sua colónia da Eritreia e da Somália oriental, que não contava com o protetorado britânico da Somalilândia, no norte da atual Somália independente. Esta resultou da unificação em 1960 dos referidos protetorados britânico e italiano, estabelecendo-se a capital em Mogadíscio.
As disputas em torno da região da fronteira central, o Ogaden, entre ambos os países remontam a 1948, ainda era a Somália uma colónia italiana. A ideia de se criar uma Grande Somália era recorrente então, pois no Ogaden a maioria da população é ainda hoje somali. Sem resultados, as tensões de 1948 repetir-se-iam depois entre 1960 e 1964, já com a Somália independente e unificada. Em 1977-78 o conflito agudizou-se, naquela que foi designada a Guerra do Ogaden e que deixou marcas profundas nas relações entre os dois países. A tensão foi sempre crescendo, incendiada pela divisão do povo somali pela fronteira comum e por tradições e culturas, que apesar de comuns, não conseguiram nunca abafar as divisões étnico-religiosas.
Na década de 80 os recontros fronteiriços sucederam-se, registando-se mesmo, em 1996 e entre 1998 e 2000, o cruzar da fronteira por tropas etíopes, durante a anarquia somali sob o domínio dos chamados "senhores da guerra" na Somália. Tinha caído em 1996 o que restava do poder central em Mogadíscio, as tropas etíopes invadiram a Somália através do Ogaden, em raids punitivos sobre a cidade de Balanballe, base operacional do movimento Al-Ittihad Al-Islamiya. Este movimento pró Somália lançava sucessivos ataques ao Ogaden então já sob controlo das tropas etíopes, de Addis Abeba, com a pretensão de unificar aquele território a Mogadíscio.
Apesar dos protestos, na ONU, dos "senhores da guerra" somalis Ali Mahdi e Hussein Aideed, em 1999, tropas etíopes atacaram de novo a Somália, no caso as cidades de Beledhawo e Dolo, repetindo pouco tempo depois, nesse ano, o ataque a Luq, cidade somali na fronteira com o Quénia, desta feita com apoio de fações somalis fiéis a Addis Abeba. Ainda em 1999, uma das posições de Aideed, a localidade de Garba Harre, foi atacada e tomada a partir de Luq por tropas etíopes.
Apesar do aparecimento de um governo de transição nacional em Mogadíscio em 2000, para superar o caos e a fome da década de 90, além do isolamento e atraso económico profundos do país, da Etiópia manteve os seus raids contra o Al-Ittihad em território somali, mantendo as relações tensas e o clima de guerra entre os dois países. As acusações somalis de ocupação etíope de cidades fronteiriças somalis mantiveram-se em 2001, além do apoio a Etiópia a diversos movimentos na Somália de luta contra os regimes de Mogadíscio ou as reminiscências político-militares locais dos "senhores da guerra" somalis. A presença militar etíope nunca foi totalmente negada por Addis Abeba e talvez nunca tenha desaparecido desde 1998. Em 2002, por exemplo, surge a notícia de mais de 300 militares da Etiópia terem invadido Garowe, capital do Punt, no extremo nordeste da Somália, além de movimentações em torno da cidade de Baidoa, não longe da fronteira. As incursões sucederam-se em 2002, com o exército da Etiópia a movimentar-se um pouco por toda a Somália, operações que apenas foram admitidas por Meles Zenawi, primeiro ministro etíope, em 2003, ao reafirmar a luta contra o movimento Al-Ittihad e suas incursões no Ogaden etíope, além da condenação das suas pretensas ligações à Al-Qaeda de Ossama bin Laden e da presença de ativistas seus no governo de Mogadíscio, o que implicava a acusação de apoio deste ao terrorismo e aos ataques à Etiópia. Mogadíscio e o seu presidente Hassan contra-atacaram ao acusar Addis Abeba de desestabilizar a Somália e de pretender interromper o processo de transição e estabilização do país.
Em 2004, com o advento de Abdullahi Yusuf à presidência do governo de transição nacional da Somália, alterou-se o apoio governamental de Mogadíscio ao Al-Ittihad e às fações islâmicas dominantes no país, valendo àquele líder o imediato apodo de "fantoche dos EUA". A Etiópia mudou a sua posição também, passando a apoiar este governo de Yusuf, agora com a justificação de o auxiliar na luta contra os designados "tribunais islâmicos" somalis. Com efeito, a União dos Tribunais Islâmicos da Somália ganhou forte alento nos últimos anos e constitui-se como um sucedâneo do regime caótico dos "senhores da guerra" e na tendência pan-islâmica de ataque ao Ocidente através do terrorismo organizado. Esta jihad foi desde o início condenada por Addis Abeba que em 2006 invadiu novamente território da Somália, alegando a perseguição das milícias dos Tribunais Islâmicos. Os próprios movimentos muçulmanos etíopes condenaram vigorosamente os Tribunais Islâmicos somalis e a sua jihad. Tropas etíopes, uma vez mais, atacaram o sul da Somália, já quase toda dominada pelas milícias islâmicas armadas, ao longo de 2006, em especial em finais de novembro, quando se produziram violentos combates em Galkayo, no centro do país. Numa altura em que a própria Mogadíscio era já domínio dos Tribunais Islâmicos. Mais de 2000 soldados etíopes atravessaram a fronteira no segundo semestre de 2006, as baixas aumentaram e a tensão não parou de crescer, com Adis Abeba a temer o recrudescer do poder dos movimentos islamistas entre os seus vizinhos somalis. Os meios militares etíopes aumentaram em número e capacidade bélica, com reforço do poder aéreo, da artilharia e da infantaria mecanizada, fazendo antever, ao longo de 2007, o reanimar do conflito. A guerra santa contra a Etiópia foi entretanto decretada pelos Tribunais Islâmicos, numa Somália mergulhada novamente na guerra civil. A complicar a situação, crescem as acusações da Etiópia à Eritreia de apoio militar aos rebeldes islâmicos somalis em luta contra Addis Abeba, que é, segundo fontes militares internacionais, apoiada pelos EUA, com bases no vizinho Djibouti.
Como referenciar: Porto Editora – Conflito Etiópia-Somália na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2021-12-04 20:34:08]. Disponível em