consciência de classe

Caracteriza a pertença, reiterada e conscientemente afirmada, de um indivíduo a uma classe social específica, que age de forma solidária e normalmente organizada, com os restantes membros, na defesa dos seus interesses coletivos e que se reflete na organização e ação político-sociais. De salientar que não existe uma relação linear objetiva entre posição de classe e consciência de classe. Para a sua estruturação concorrem aspetos como o lugar nas relações de produção - a posição objetiva -, os hábitos, os estilos de vida e outros comportamentos culturais - a posição subjetiva.
A consciência de classe é determinante para a luta de classes. Pela tomada de consciência da sua posição de classe, cada indivíduo age de forma organizada nos diversos contextos sociais, nomeadamente a nível político e laboral. Sem esquecer a importância do fator objetivo (a situação material), é necessário não desvalorizar o papel da consciência, enquanto fator subjetivo, para o sucesso de qualquer processo revolucionário, em especial quando articulado com o fator organizativo.
O problema da consciência mereceu, por parte de Marx (e Engels), uma prolongada reflexão. Considerando que é a vida - entendida como a existência quotidiana e material dos homens e das mulheres na sociedade - que determina, em última instância, a consciência, e não o contrário, Marx e Engels articulam, no plano ideológico (da superstrutura), a consciência com a produção das ideias. Partindo do princípio de que os indivíduos que constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, consciência disso, as ideias dominantes são as ideias da classe dominante, pois esta dispõe não só dos meios de produção material como também dos meios de produção intelectual (1975, Marx e Engels - A ideologia alemã: crítica da filosofia alemã mais recente na pessoa dos seus representantes Feuerbach, Bruno Bauer e Stirner, e do socialismo alemão na dos diferentes profetas. Lisboa: Presença). Porém, é necessário dizer que, no terreno concreto da vida social quotidiana, os indivíduos das classes sociais dominadas desenvolvem estratégias de resistência, nomeadamente a nível infrapolítico. Estas estratégias, amplamente analisadas em numerosos estudos sobre comunidades campesinas, constituem a fórmula possível encontrada pelas classes sociais dominadas para minimizar os diversos modos de exploração a que se encontram submetidas pelas classes sociais dominantes, sem colocar em risco a "segurança de subsistência e a estabilidade de um rendimento mínimo" (1998, SILVA, Manuel Carlos - Resistir e adaptar-se: constrangimentos e estratégias campesinas no Noroeste de Portugal. Porto: Afrontamento). Resta dizer que estas estratégias de resistência têm alcance limitado, raramente se fazendo sentir em outros espaços, nomeadamente a nível político-partidário, no qual estas classes dominadas votam predominantemente nos partidos conservadores ligados àqueles que as dominam.
Assim, para muitos permanece válido o argumento aduzido, entre outros, por Gramsci, Lukács e Lenine, da necessidade da tomada de consciência por parte das classes dominadas, em boa medida impulsionada pelos intelectuais revolucionários, e que se exprime em organizações de natureza política, como os partidos (1974, GRAMSCI, António - Obras Escolhidas (vol. I). Lisboa: Estampa). Estes esforçam-se por colmatar o défice de consciência das classes operárias e camponesas, que resulta, principal mas não exclusivamente, dos valores inculcados pela educação burguesa (Lenine).
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