Convento do Carmo (Lisboa)

Construído, à semelhança do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na sequência da vitória de Aljubarrota, o Convento dedicado a N. Sra. do Vencimento, no Monte do Carmo, surgiu no cumprimento de um voto feito pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, em 1389, seguindo o risco de Gomes Martins. Foi sempre um convento protegido, sobretudo pelo fundador, que o dotou de largo património, mas também por D. Duarte e D. Afonso V.
O local escolhido, repleto de significado quer para o instituidor, quer para a ordem carmelita a quem se destinava, apresentou desde logo enormes dificuldades técnicas, a nível dos alicerces, que cederam por duas vezes, e do suporte da cabeceira. Para a terceira tentativa, D. Nuno contratou os irmãos Afonso, Rodrigo e Gonçalo Eanes, três conceituados mestres de obras. Esta foi uma das maiores campanhas arquitetónicas de Lisboa, dinamizando grande número de homens que aqui introduziram novidades experimentadas já no estaleiro da Batalha.
Durante oito anos consolidaram-se os alicerces e o cruzeiro, mas pouco tempo depois foi necessário adquirir novos terrenos ao Almirante Pessanha para estruturar as fissuras do flanco sul - por aqui sabemos que em 1399 o templo tinha já paredes e frontaria, sendo-lhe acrescentados cinco arcobotantes. O mestre arquiteto teve em conta a instabilidade do terreno, devendo-se certamente a ele a iniciativa de cobrir de tijoleira as abóbadas das naves laterais (material mais leve que a tradicional pedra), tal como no Paço dos Condes de Ourém ou na Sinagoga de Tomar. À semelhança da Batalha, também a cabeceira é poligonal, formada por cinco capelas de eixos paralelos, sendo a maior mais ampla e alta, e adquirindo o conjunto um ar maciço, ainda que rasgado por algumas janelas de elegantes ogivas. A cabeceira apresenta ainda, a um terço de altura, um forte embasamento, tal como no Paço de Ourém, engenhosa solução para combater o acidentado do terreno.
Esta imponente igreja, de cerca de 70 metros de comprimento ruiu significativamente após o terramoto e consequente incêndio de 1755, perdendo grande parte do valioso espólio. As tentativas de reconstrução não foram avante, tendo permanecido o templo a céu aberto.
Segundo testemunhos coevos, as abóbadas de cruzaria eram fechadas por bocetes decorados com simbólica alusiva ao Condestável. Os restos arqueológicos indicam que os torais das naves laterais suportariam abobadamento em berço quebrado, sendo a cobertura da cabeceira provavelmente idêntica à do templo da Batalha.
A fachada, modificada em 1532, é uma das zonas que se conservam melhor, sobressaindo desde logo o portal de seis arquivoltas ogivais, semelhante a alguns trabalhos escultóricos da 1.ª fase do ciclo batalhino. O portal lateral sul é, todavia, mais simples.
As dependências conventuais incluíam, além da igreja, a sacristia, o capítulo dos bispos, uma capela desaparecida, o capítulo novo - cuja entrada é definida por belo portal quinhentista -, o refeitório, o dormitório e o claustro. A sacristia, constituída na primeira campanha de obras, possui ainda a original abóbada de cruzaria e os janelões góticos, embora tenha sofrido um acrescento seiscentista. O claustro é um belo exemplar do desadornado e austero "estilo chão" que marca o século XVII, destacando-se a singeleza dos arcos e das pilastras toscanas. A frontaria do convento desapareceu, mas Guilherme Debrie ainda a registou numa gravura incluída na edição de 1745 da Crónica de Frei José. A anterior gramática tardo-renascentista foi modificada após o terramoto, optando-se por uma imitação do estilo gótico, embora com uma linguagem por vezes barroca.
O Convento do Carmo está hoje ocupado pela Guarda Nacional Republicana e na igreja instalou-se o Museu Arqueológico do Carmo, pertencente à Associação de Arqueólogos Portugueses.
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