Cristianismo: do Sofrimento ao Triunfo

O Cristianismo, com todas as suas variantes rituais e teológicas, é a maior religião a nível mundial, com uma expressiva representação em todos os continentes. Este sistema de crenças e de valores tem como elemento central a figura de Jesus Cristo, a partir do qual emergiram diferentes práticas religiosas.
Os vários credos cristãos discordam no seu entendimento e na sua definição daquilo que distingue Cristo e o torna único, mas todos concordam que a sua vida foi um exemplo a seguir, e que os seus ensinamentos acerca do amor e do companheirismo devem ser as bases das relações entre os homens. Grande parte dos seus ensinamentos tem pontos em comum com os dos rabis judaicos e com a filosofia de Confúcio e de Sócrates.
Para os Cristãos, Jesus Cristo é o supremo pregador e um exemplo moral de vida, mas para muitos destes crentes isso, por si só, não justifica inteiramente o significado do seu trabalho e da sua vida.
As parcas informações históricas acerca de Jesus estão contidas nos Evangelhos do Novo Testamento da Bíblia e nos escritos de Flávio Josefo, um historiador judeu romanizado do século I.
Um dos princípios fundamentais deste credo, que pode ter muitos nomes diferentes, é o conceito de "Pai". Os Cristãos identificam Jesus como "O Filho de Deus". A doutrina cristã, entretanto, evoluiu para uma forma segundo a qual Jesus Cristo, mais do que o filho de Deus, passou a integrar a Trindade absoluta, isto é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não se trata de três entidades distintas, mas antes uma só. Este conceito é um dos princípios básicos do Cristianismo, presente, nomeadamente, no sacramento do batismo, um ato simbólico pelo qual o crente é ritualmente purificado e perfilha esta religião.
A oração privada foi ensinada por Jesus Cristo, mas este também apelou à oração em comunidade. Desde o tempo do Novo Testamento, o primeiro dia da semana foi o escolhido para a oração comunal. O domingo, o dia da ressurreição do senhor, é o dia de descanso semanal e o dia por excelência de oração, tal como o Sabbath dos Judeus.
A pregação de Jesus Cristo está baseada nos dez mandamentos. Todavia, entre estes, há dois que se destacam dos demais: são eles o amor a Deus e o amor ao próximo, que sintetizam os seus ensinamentos.
A esperança numa vida depois da morte é outro dos elementos basilares deste credo. A Igreja fala nesta esperança na linguagem da ressurreição, uma nova vida de participação na glória da ressurreição de Cristo. Esta crença serve muitas vezes de motivação para tornar a vida na terra mais confortável.
Os dados conhecidos sobre Jesus Cristo e sobre os primórdios do Cristianismo foram-nos legados pelos seus seguidores, e muitas vezes estes relatos subjetivos, sem grande rigor histórico, levantam mais questões do que aquelas a que respondem. No entanto, podem descortinar-se algumas informações sobre Jesus de Nazaré e as primeiras comunidades cristãs.
Sabe-se que a mensagem de Cristo atraiu muitos seguidores que o consideravam como um novo profeta. As suas palavras e ações foram transmitidas às gerações vindouras pelos evangelistas, que narraram a vida de Jesus na terra à luz da experiência identificada pelos cristãos primitivos com o milagre da ressurreição. Muitos dados foram recolhidos da Bíblia Hebraica (basicamente o Pentateuco), chamada pelos Cristãos Antigo Testamento, para construir uma realidade que vieram a conhecer, a do Novo Testamento.
A cidade de Jerusalém foi o centro da primeira comunidade cristã, pelo menos até à destruição da cidade pelos Romanos em 70 d. C., por ordem de Tito, que mandou destruir também o templo. O centro do movimento cristão irradiou então a sua influência a outros núcleos urbanos da Palestina e mesmo para além desta.
O primeiro apelo estava confinado aos Judeus, para quem representava o cumprimento da promessa feita por Deus aos profetas, a Abraão, a Isaac e a Jacob. Já nos primeiros tempos do Cristianismo, a sua posição face ao Judaísmo era de continuidade e de preenchimento, mas também de antítese e de afirmação. A quebra da continuidade entre o Judaísmo e o Cristianismo nunca foi total, porque muitos elementos do judaísmo estão presentes na Bíblia cristã. O próprio Jesus Cristo era judeu, e o Novo Testamento da Bíblia não aparece sozinho; ele é, em grande medida, a continuação do Antigo Testamento dos Judeus.
A cisão entre estes dois credos deu-se com a mudança de membros no final do século II. Num determinado momento, os Cristãos sem raízes judaicas ultrapassaram em número os judeus cristãos. A influência do apóstolo Paulo foi crucial. Paulo nascera judeu, com estatuto de cidadão romano, mas converteu-se ao Cristianismo, vindo a tornar-se um instrumento de transmissão da mensagem de Cristo aos gentios através das suas Epístolas (cartas) direcionadas para as comunidades cristãs.
Paulo merece o título de "primeiro teólogo cristão", e a sua obra terá seguimento no trabalho de muitos teólogos que se basearam nos conceitos apresentados nas suas Epístolas, compiladas no Novo Testamento.
A clarificação da mensagem cristã tornou-se uma necessidade quando começaram a surgir diferentes interpretações sobre os mesmos temas. Estas heresias diziam respeito à pessoa de Cristo. Alguns tentaram proteger a sua divindade pela negação da sua qualidade humana, enquanto outros protegeram a fé monoteísta tornando Cristo menos divino do que Deus.
A Igreja respondeu a estes desvios com a especificação da divindade de Cristo. As conclusões relativas à sua relação com Deus e com a sua humanidade saíram de Concílios reunidos durante os séculos IV e V. Os mais importantes foram o Concílio de Niceia, de 325, e o de Calcedónia, de 451, nos quais foram estabelecidas as doutrinas da Trindade e da dupla natureza de Cristo (divino e humano), e a criação de uma linguagem de teologia filosófica em grego e em latim. O grande mentor da teologia ocidental foi Santo Agostinho de Hipona, o autor de obras como Confissões e Cidade de Deus, obras marcantes do pensamento cristão.
Durante os primeiros tempos do Cristianismo, a relação com o poder instituído não foi muito pacífica, como seria de esperar. Inicialmente era visto como uma seita judaica dentro do Império Romano. Antes da morte do imperador Nero, em 68 d. C., tinha já sido apontada como inimiga do Estado. A hostilidade face aos Cristãos cresceu desde então.
A lealdade dos Cristãos ao seu Senhor, Jesus Cristo, era um ponto incontornável que os romanos não admitiam, pois colidia com a adoração e o culto do imperador como o único "senhor". Os imperadores Trajano e Marco Aurélio, empenhados na unificação e na reforma do império, estão entre alguns dos mais ferozes combatentes desta ameaça. Todavia, não foi o aspeto religioso que alarmou Roma, mas antes o facto desta considerar o Cristianismo uma ameaça à ordem pública.
A perseguição dos primeiros Cristãos levou-os a praticar o seu culto clandestinamente, em lugares afastados dos olhos dos Romanos. A reunião dos crentes era feita maioritariamente em catacumbas ou galerias subterrâneas, onde podiam livremente expressar a sua fé, longe dos perigos do mundo da superfície.
Esta religião cristã teve necessidade de construir espaços onde os crentes pudessem praticar a sua fé. Assim, numa primeira fase, as catacumbas eram os únicos espaços que ofereciam alguma segurança para os fiéis se reunirem em segredo. As catacumbas mais importantes são as de Roma, onde se encontram ainda hoje vestígios de frescos da autoria de artistas modestos, formados nas oficinas romanas, que dão um tratamento inovador à estética pagã.
As formas arquitetónicas da arte paleo-cristã evoluíram a partir de tipologias romanas. Inicialmente, não havia uma arquitetura característica porque o culto era praticado em locais privados. Na arte funerária era diferente, sobretudo para as famílias cristãs que possuíam propriedades fora das cidades, onde escavavam galerias para enterrar os seus mortos, que, ao contrário dos pagãos, não eram cremados. Nestas paredes surgem os primeiros exemplares deste tipo de arte.
A questão da iconografia paleocristã é bastante problemática, pois alguns teólogos cristãos eram adversos à figuração humana, isto é, à representação dos Santos e de Cristo, presente na arte pagã (intransigência que é visível, por exemplo, no Islão, que ainda hoje tal proíbe). Outros, porém, eram defensores deste tipo de temática na iconografia, direcionada para ensinar a religião a uma população maioritariamente analfabeta. Embora tardiamente, esta foi a tendência que triunfou no Ocidente.
A maior evolução desta arte deu-se sobretudo no campo da iconografia, com a constituição de um programa temático para a nova religião. Eram representadas figuras naturalistas, sem grande profundidade nem riqueza de pormenores, com um forte teor pedagógico.
A iconografia paleocristã apresentava temas retirados do Antigo Testamento (o Bom Pastor ou o Orante) aliados a temas do Novo Testamento (Daniel e a cova dos leões, a Última Ceia) e temas clássicos readaptados a esta nova religião (os pássaros que representam a alma, as vindimas como símbolo da Eucaristia, etc). Em finais do século IV, a estas referências veio juntar-se uma forte influência oriental, também patente na arte romana.
Por outro lado, a Cristandade tinha crescido a tal ponto, desde meados do século IV d. C., que ou era totalmente irradicada ou teria que ser aceite. O imperador Diocleciano tentou acabar com o cristianismo, movendo violentas perseguições aos seus seguidores. O imperador Constantino, pelo contrário, aceitou o Cristianismo, convertendo-se ele próprio, e deu origem a um "império" cristão.
Com a conversão do império, a Igreja passou a ocupar um lugar privilegiado na sociedade. A partir deste momento, era mais fácil ser-se cristão do que não sê-lo. Constata-se, então, um fenómeno novo: alguns crentes começaram a sentir que os padrões da conduta cristã tinham baixado. Para estes, o único caminho a seguir era o da vida monástica. Só este tipo de vida rigorosa permitia uma total entrega ao Cristianismo.
Este movimento de entrega teve o seu início nos desertos do Egito com Santo Antão, o eremita, e propagou-se por diversas partes do império, tendo atingido não só as áreas gregas e latinas, mas também a Ásia, nos séculos IV e V. Estes monges devotavam a sua vida à oração, aos serviços religiosos e ao ascetismo.
Do período bizantino ao período medieval tornaram-se a maior força de cristianização dos não-crentes. Eles eram os grandes teólogos, pedagogos e pregadores. A cristandade dos nossos dias muito deve a estes fervorosos Cristãos, que devotaram a sua vida à religião.
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