Cultura Cortesã Medieval

Até ao reinado de D. Dinis, a Corte Real portuguesa era itinerante, e esse nomadismo vinha de certa forma dificultar a criação de uma corte à semelhança das restantes cortes reais dos reinos europeus, fixas e sedentárias. Na realidade, se não se tiver em conta a corte ducal de D. Henrique em Guimarães - e não devemos esquecer que D. Henrique era um conde oriundo da Borgonha - as cortes reais portuguesas podiam quase considerar-se casas modestas e frugais. Não se depara aí com quaisquer luxos, quer no vestuário ou nos hábitos alimentares, na quantidade de cortesãos ou mesmo de animadores da corte. Nas cortes reais portuguesas não se encontrava os centros de cultura e arte, que caracterizavam, por exemplo, as cortes reais, ou mesmo feudais, de França ou até de Castela, Aragão ou Navarra.
Durante o reinado de D. Afonso III, que tinha por rainha uma nobre francesa (D. Matilde de Bolonha, de cujo casamento lhe adveio o título de conde de Bolonha) e que passou uma importante fase da vida em França (por isso cognominado de o "Bolonhês", de Boulogne), de alguma forma o status quo foi alterado. Durante este período deu-se inclusivamente um enorme florescimento da poesia jogralesca em Portugal, e pensa-se que esta seria a fase em que a corte real portuguesa contou com um maior número de poetas no seu corpo permanente de jograis.
A frágil situação económica da corte e as próprias contingências da guerra da Reconquista contra os Árabes dificultaram a criação de um espaço social, cultural, político e administrativo, digno da denominação de Corte. Por outro lado, também não havia em Portugal uma nobreza culta e instruída. Pelo contrário, era fraca de valores materiais e culturais, e intelectualmente muito atrasada, dedicada basicamente à caça e às artes da guerra, aplicando muitas vezes, segundo alguns autores, na vida social, e mesmo na vida familiar, as técnicas guerreiras usadas contra os mouros.
Na verdade, os verdadeiros centros de cultura eram os mosteiros, e a classe intelectual era o clero. Era aí que se tomava contacto e se estudavam os textos bíblicos e clássicos, e se desenvolvia uma cultura monacal, característica desta época. Foi nestes centros que nasceu uma comunidade alfabetizada, que sem dificuldades se impôs culturalmente às restantes classes. Mesmo no que diz respeito à arte, mais propriamente à pintura, os mosteiros foram-se tornando, um pouco por toda a Europa, centros de produção artística, formando mesmo escolas, que se celebrizaram e, em alguns casos, rivalizaram em termos de qualidade artística.
No reinado de D. Dinis e D. Isabel de Aragão, deu-se outro ponto de viragem. A princesa aragonesa introduziu alguns aspetos inovadores, e o próprio rei D. Dinis era um homem considerado culto para a sua época, grande instigador da poesia trovadoresca e ele próprio um poeta.
Nas restantes cortes europeias, nasceu o gosto pela literatura poética trovadoresca, que exaltava as qualidades cavalheirescas e os feitos e valores da honra e dos romances platónicos entre os cavaleiros e as suas damas, bem como os heroísmos atingidos durante as Cruzadas. Junto dos reis, ou mesmo junto dos grandes senhores feudais, reúniu-se um grupo relativamente grande de homens, vassalos, que ocupavam os seus dias entre a caça a cavalo, banquetes, torneios e treinos de duelos, liças e justas, e ocasionalmente em batalhas e guerras reais.
Também a corte real portuguesa, deixando a sua monotonia inicial, se começava a parecer cada vez mais com as suas congéneres europeias, à medida que avançava a baixa Idade Média.
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