Custódia de Belém

Realizada com o primeiro ouro proveniente do reino de Quíloa, trazido em 1503 no regresso da sua segunda viagem à Índia por Vasco da Gama, a Custódia de Belém (com mais de 6 kg em ouro) foi concluída em 1506 e seria uma alfaia de culto do espólio privado de D. Manuel I. Após a morte deste monarca, ocorrida em 1521, a custódia foi legada em testamento ao Mosteiro de Santa Maria de Belém.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a custódia foi retirada do Mosteiro dos Jerónimos e enviada para a Casa da Moeda. Salva da destruição pela ação esclarecida de D. Fernando II, esta preciosidade da ourivesaria nacional passou a integrar as coleções de arte que este rei mecenas possuía no Palácio das Necessidades. Com o advento da República, a custódia foi transferida para a sua atual morada, o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Neste museu procedeu-se à substituição de um desgracioso viril dos finais do século XVI por um cilindro de cristal, reproduzindo o esquema inicial da peça.
O testamento legado por D. Manuel I aponta o nome do artista que concebeu a custódia. Trata-se de Gil Vicente, com toda a probabilidade o mesmo Gil Vicente dramaturgo, referência cimeira do teatro nacional do século XVI. Esta identificação de Gil Vicente como mestre ourives da Custódia de Belém e escritor de peças teatrais tem envolvido os eruditos em acesa polémica ainda não completamente esclarecida. Contudo, uma carta régia de 1513, nomeando-o Mestre da Casa da Moeda de Lisboa (cargo a que resigna em 1517), designa-o como "Trovador e Mestre da Balança", podendo indiciar que se tratará apenas de um só artista de nome Gil Vicente, ourives e dramaturgo. Acresce que os autos vicentinos são pródigos em referências a determinadas técnicas de ourivesaria, alusões demasiado específicas e provavelmente só ao alcance de quem possuísse um domínio desta arte decorativa.
A Custódia é elaborada no âmbito do universo artístico do gótico final ao tempo de D. Manuel I, estruturada a partir de um esquema de influência arquitetónica. A base, polilobada e de perfil elíptico, é preenchida nas suas faces por meio-relevos esmaltados, com motivos naturalistas zoomórficos - caracóis e pavões - e de cariz vegetalista - frutos e flores. Uma tarja contorna o extradorso da base, podendo ler-se nela a seguinte legenda: "O MVITO ALTO. PRICIPE. E. PODEROSO. SEHOR. REI. DÕ. MANUEL I A. MDOV. FAZER. DO OVRO I. DAS. PARIAS. DE QUILOA. AQVABOV. CCCCVI."
A haste hexagonal apresenta um trabalho vazado de fenestrações do gótico flamejante e um nó ressaltado, onde foram aplicadas seis esferas armilares em esmalte.
O corpo da custódia é marcado pela composição de doze esmaltadas figurinhas de Apóstolos, ajoelhados e em oração, rodeando o cilindro de cristal. Cobre-o um alto e esbelto baldaquino hexagonal, magnificamente trabalhado com arcarias góticas e pináculos cogulhados. Dividido em dois andares, o primeiro encerra a pomba do Espírito Santo e o superior possui a figura do Padre Eterno, rematando a composição uma cruz latina esmaltada. Lateralmente, duas esguias pilastras sustentam o baldaquino central e apresentam uma série de arcos, onde se inserem estátuas miniaturais de anjos e profetas e ainda uma "Anunciação" - com as minúsculas figuras da Virgem e de S. Miguel Arcanjo.
Esta profusão decorativa, própria da gramática estilística do manuelino, encerra, na sua disposição iconográfica, uma eminente carga simbólica. Com efeito, a Custódia de Belém revela uma leitura dicotómica que oscila entre o poder real e o poder divino, entre esfera terrestre e esfera celeste. Na base subsiste o mundo terreno e natural, que é presidido pelo poder régio de D. Manuel I, simbolizado pelas esferas armilares no nó da peça. O divino povoa toda a parte superior da Custódia, aludindo explicitamente à Santíssima Trindade. Com efeito, nesta soberba peça da ourivesaria nacional, confluem o labor da matéria mais preciosa do mundo dos homens e o simbolismo maior da palavra de Deus.
Como referenciar: Porto Editora – Custódia de Belém na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2021-12-03 10:41:48]. Disponível em