Declínio da Militância Política e do Sindicalismo

O desinteresse pela atividade político-partidária constitui uma das preocupações atuais mais afloradas pela sociedade e pela opinião pública e publicada. Ainda não se conhecem as verdadeiras razões deste declínio, que afeta também o sindicalismo. Mas as crises económicas que não mais largaram o espetro da sociedade desde os anos 70 podem constituir a raiz de tal descrédito. Podemos também apontar que a crise da política começou com a crise dos partidos, cada vez menos ideológicos e ativistas e cada vez mais eleitoralistas, tendo em vista o objetivo de ocupação de cargos, honras, posições de relevo e prossecução de interesses pessoais e corporativos e já não tanto de estado. Princípios, programas, projetos são conceitos cada vez mais substituídos pela ambição e eleitoralismo, afastando a opinião pública da sua crença nos partidos e, logo, na vida política.
A adoção do pragmatismo eleitoral, com a defesa de certos meios para atingir fins constitui um dos gérmenes do descrédito da vida política. Mesmo a esquerda assumiu este pragmatismo possibilista para alcançar o poder institucional pela via eleitoral, mesmo entre os Partidos Comunistas modernos. Aparece aqui a questão do utilitarismo, do "voto útil", que sacrifica ideologias: muitos partidos têm mais adesão popular quando se enquadram em movimentos sociais do que quando são sujeitos ao escrutínio popular, por ambição do poder institucional. Muitos cidadãos, por outro lado, têm também o seu utilitarismo, quando preferem votar num partido com possibilidades de triunfo em detrimento do partido em que sempre se reviram ideologicamente. Por isso, os partidos embarcam cada vez mais nesse utilitarismo pragmático, muitas vezes esvaziando conteúdos ideológicos e tornando-se, na prática, quase iguais aos seus adversários, o que cria desinteresse eleitoral, abstenção e afastamento da política ou militância partidária pelos cidadãos. Com o neoliberalismo e a globalização económica, que redundaram em assimetrias e desigualdades sociais crescentes, a população enveredou pelo individualismo e por uma opção de sobrevivência, perdendo confiança e interesse naqueles que eram antigamente os seus paladinos: os partidos e os sindicatos. A política já não interessa, já nada traz de novo. O fracasso do marxismo, ou do socialismo marxista, com a sua tradição militante e de ativismo político e ideológico, ajudou também ao declínio da vida política, já que a direita é cada vez mais ultilitário-pragmática e sem propostas de militância como a esquerda, que na sua modernização se tem aproximado do centro pragmático, competitivo e eleitoralista, como tem feito também a direita. Depois, a aplicação das políticas e medidas publicitadas eleitoralmente está longe de ser efetiva, devido às insuperáveis crises económicas, institucionais e militares, à absorvência global da economia, que retira autonomia e capacidade política e decisória aos estados nacionais, diminuindo o empenho da cidadania pela via política. O declínio do conceito de Estado também contribui para o declínio da militância política, já que há cada vez "menos Estado" e "mais indivíduo", logo menos ideologia e princípios e mais oportunidade, pragmatismo e carreira. Depois, os governantes e parlamentares estão cada vez menos comprometidos politicamente com os seus eleitores, dessintonizados com as necessidades nacionais, com a justiça social. A democracia pode ter "conquistado" o mundo nos últimos decénios, mas não foi acompanhada de vantagens económicas e sociais de relevo, nem para as maiorias nem para a juventude, maior alfobre de potencial militância política. A realização humana é cada vez mais difícil, e os jovens cada vez mais pessimistas. Daí que a democracia, enquanto sistema que mais privilegia a vida política e partidária dos cidadãos, esteja em crise, sendo ultrapassada pela pragmática crença no desenvolvimento económico. Uma grande parte, crescente, de cidadãos dos países empobrecidos da América Latina prefere hoje o autoritarismo com desenvolvimento económico do que a democracia, com liberdade e garantias, mas com pobreza e baixos índices de realização humana das maiorias.
As alternâncias sucessivas, as incríveis e inimagináveis alianças eleitoralistas, a baixa aplicabilidade de programas eleitorais, os jogos e corrupção política e a mestiçagem dos partidos com os grupos económicos, a par de maus dirigentes (péssima imagem pública) e de uma classe política sem sentido de estado ou de desenvolvimento social, crises agudas das economias, fraqueza dos sistemas políticos, guerras, desigualdades, podem ser vistos como as causas do declínio da militância política.
Como a vida política ao nível partidário, também os sindicatos têm conhecido declínio de militância. Depois do seu apogeu entre a Primeira Guerra Mundial e os anos 70/80, não só nos EUA e na Europa Ocidental, mas também no Leste, aqui mais marxistas, os anos 80 e os 90 do século XX marcam algum declínio. Assistencialistas e reinvindicalistas, os sindicatos viram o desenvolvimento tecnológico e as alterações político-económicas mundiais de finais do século passado, bem como a diluição ideológica da vida política, principalmente à esquerda, alterar-lhes a sua projeção social e política. As recuperações económicas de alguns setores da sociedade, a diminuição do papel do Estado, o aumento do poder de compra dos cidadãos, o fim das políticas salariais indexadoras em muitos países, as reestruturações de empresas e novos métodos de gestão dos chamados "recursos humanos", o novo perfil do trabalhador, mais terciário e mais temporário, como domiciliário e também cada vez mais qualificado, com melhorias na qualidade dos empregos ao nível da oferta regular e regulamentada, com greves cada vez menos frequentes, os sindicatos viram o enquadramento dos trabalhadores nas suas fileiras diminuir, bem como a sua importância social e o seu mediatismo, apesar da sua participação na concertação social ter subido.
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