Defesa perante o tribunal do Santo Ofício

A figura do Rei Desejado, desaparecida misteriosamente nos areais de Alcácer Quibir, foi chorada durante muito tempo pela literatura, que via nele "a maravilha fatal da nossa idade" - no dizer do épico. Com a sua morte ou desaparecimento quebravam-se as esperanças de um povo que, havia pouco ainda, deslumbrava o mundo dando-lhe novos mundos.

Assim, inúmeras profecias surgiram na esperança do regresso do monarca desejado, como foi o caso de Gonçalo Anes, de alcunha o Bandarra, sapateiro de profissão, em Trancoso, por volta de 1500. Este profeta, entre outros, ter-se-ia inspirado na Bíblia para vergastar em trovas a corrupção da época e fazer nevoentas predições, entre elas a do Quinto Império. Assim se criou o Sebastianismo, que, mais tarde, operou a transferência entre D. Sebastião e os duques de Bragança ou, no caso do Padre António Vieira, para D. João IV.

O Santo Ofício, que já havia metido o Bandarra no cárcere, não lhe perdoou também e, preso em Coimbra, mesmo ali teimou ser fiel ao encoberto. Esta conceção providencialista, que fazia de Portugal o "povo eleito" desde a batalha de Ourique, norteou-lhe grande número de sermões e outros escritos e a sua grande defesa perante o tribunal do Santo Ofício.

Na custódia da Inquisição, Vieira escreveu, no decurso de oito meses, esta defesa, que se compõe de duas Representações: na primeira, apresenta-nos os motivos que teve para atribuir espírito profético a Bandarra, e na segunda, fala-nos dos fundamentos da sua crença na instauração do Quinto Império na Terra.

Nelas, o acusado recorre ao estratagema de não pretender defender ou justificar as teses controvertidas, mas simplesmente explicar-lhes o fundamento e o verdadeiro sentido, muitas vezes mal entendidos, segundo ele. Todavia, em todas as páginas desta obra, nota-se que o autor dá a sua plena e profunda adesão às teses dos inquisidores.


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