Derrocada do Império da Pimenta

A pimenta foi desde sempre um dos produtos mais exportados do Oriente para o continente europeu, cujo tráfego foi muito implementado no período dos Descobrimentos portugueses, durante o qual a sua distribuição era feita na cidade de Lisboa através da Casa da Índia.
No século XVI a atividade comercial em volta da pimenta era bastante ativa. Para comprová-lo, basta dizer que representava cerca de 240 contos de réis por ano, num total da receita total do Estado português que perfazia os 745 contos de réis.
Antes de 1500, este comércio era controlado pela comunidade judaica e pelos cristãos nestorianos, que traficavam com os mercadores muçulmanos que, por sua vez, compravam a especiaria aos produtores na Índia, até que foram destronados pelos portugueses. Vasco da Gama, em Melinde, contactou com um grupo de cristãos, que o incitaram para rumar a Calecute onde encontraria a mais intensa atividade deste comércio da pimenta.
Este negócio era a tal ponto relevante na Europa que motivou a designação dos droguistas em Itália de piperarii, na Inglaterra pepperers, e na França poivriers.
Da capital do reino de Calecute os portugueses comerciavam a pimenta para a Europa por intermédio da feitoria da Flandres. Mas não eram só os portugueses os envolvidos; através desta mesma feitoria, os holandeses também a adquiriam. Estes compravam pimenta a particulares e capitães da Índia por um preço bastante acessível, para a revenderem com lucro no mercado de Antuérpia.
O monopólio deste comércio pertencia, todavia, aos portugueses. Contudo, este fator não excluiu a possibilidade de haver formas alternativas de contornar o privilégio da Coroa portuguesa. De facto, frequentemente chegava à Europa pimenta proveniente de outras vias. A Índia portuguesa entra então em decadência. A indisciplina, os abusos e a corrupção do corpo de funcionários levaram a um estado de verdadeira anarquia. Alguns armavam mesmo navios e, contra o que estava estabelecido, dedicavam-se a frutuosos negócios por conta própria.
A esta anarquia juntava-se a reação dos operadores que haviam sido destronados pelos portugueses. Os árabes recuperaram a sua tradicional atividade no Oriente e, através das rotas do Levante - que são reativadas - forneciam de especiarias, sobretudo de pimenta, os mercados europeus. Portugal via irremediavelmente perdido, para árabes, holandeses (no Índico desde finais do século XVI) e, posteriormente, ingleses, o monopólio deste comércio. A rota do Cabo, para o Estado-mercador, falia. Mas não foram estas as principais razões da derrocada deste tão proveitoso comércio. O motivo primordial da falência da rota do Cabo foi a abertura do canal de Suez, que acabou com um comércio que era ainda muito lucrativo no século XVIII pela rota do cabo via Lisboa (em decadência). Mas também o surto de crescimento de Antuérpia e de Londres que, nessa centúria, já dominava o grosso do comércio mundial, ajudou ao fim do trato da pimenta.
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