Direito de Mentir

O sétimo livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge reafirma como traços inconfundíveis deste autor o esboço de sequências narrativas ou descritivas imprevistas, o recurso à elipse, à interrupção de eixos sintáticos, na notação de elementos da realidade quotidiana, de experiências, situações, lugares, ou na referência explícita a produções estéticas (textos, autores, quadros). Esta tendência discursiva, desenvolvida a partir de microestruturas diegéticas e que integra referências culturais e textuais num discurso fragmentado e disperso, encontra a sua unidade, segundo Joaquim Manuel Magalhães, na "expressão duma paz contemplativa de sucessivas paisagens perturbadas", jogada "num plano que não é o da confissão linear de sentimentos, mas que é duma afirmação emocional tensa, ora carregada de paixão, ora de euforia irónica, ora de puro registo sensorial." (cf. MAGALHÃES, Joaquim Manuel - Os Dois Crepúsculos, Lisboa, Regra do Jogo, 1981, p. 243). O "Direito de Mentir" surge, nesta poesia, que parece construída a partir de retalhos de memórias (culturais, pessoais), de um "pequeno jogo entre acaso e destino, entre matéria e memória", que permite "Um passo para o surgir de um outro jogo: o que vai da presença de uma memória pura ao existir de uma memória (in)voluntária." (cf. JORGE, João Miguel Fernandes - nota do autor a Obra Poética 3, Lisboa, 1988, volume que reedita, entre outros, Direito de Mentir.)
Como referenciar: Porto Editora – Direito de Mentir na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2021-10-24 14:55:22]. Disponível em