Dois Compartimentos

Peça publicada em 1965 e representada em 1950, no Teatro do Clube Estefânia. À letra, "Dois Compartimentos" fazem referência ao espaço cénico onde a ação decorre, dividido entre os dois gabinetes: um onde o agente interroga a queixosa, uma velha viúva a quem foram roubadas as joias que herdou do marido; e o outro, onde as três suspeitas do furto, a sobrinha do falecido, a cozinheira e uma criadita, aguardam a sua vez de serem interrogadas. Do interrogatório saem ilibadas a cozinheira e a sobrinha, graças à astúcia e capacidade de dissimular os pensamentos; ingénua e coagida pelo polícia, a criadita acaba por confessar o crime que na verdade fora perpetrado pela sobrinha. Os pensamentos materializados das personagens individualizadas pelo foco de luz acentuam, nas duas primeiras suspeitas, a discrepância entre o que dizem e o que pensam, enquanto na criadita os pensamentos permitem uma retrospetiva sobre uma vida marcada pela infelicidade, pela miséria e por maus tratos. Deste modo, Dois Compartimentos são também, "numa interpretação psicológica, os dois compartimentos que separam, nos indivíduos, aquilo que dizem do que pensam; e são finalmente, numa interpretação mais lata, dialéctica, os dois compartimentos em que a sociedade burguesa nossa contemporânea divide os indivíduos." (REBELLO, Luís Francisco - prefácio a Os Dois Compartimentos, Lisboa, 1965).
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