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Economia e Finanças no Regime Salazarista: disciplina e contenção
A instabilidade do precário regime republicano aumentou consideravelmente com o agravamento da crise económica, financeira e social desencadeada pela Primeira Guerra Mundial. A economia portuguesa estava particularmente enfraquecida pela grande dependência de matérias-primas e de produtos manufaturados importados como o aço, o ferro, o carvão e os adubos agrícolas. A carência destes produtos provocou uma quebra de produtividade que prejudicou, simultaneamente, o patronato e os assalariados, a braços com uma forte vaga de desemprego. A falta de emprego, aliada ao aumento de custo de vida e ao acentuado aumento da inflação, originou um conjunto de greves (160), entre 1918 e 1925, e de manifestações de rua às quais o patronato respondera com o lock-out.
No Governo reinava a instabilidade, inviabilizando-se, assim, a implementação de um programa de reformas coerente e com continuidade.
No plano social, cultural e mental, a República implementara grandes e positivas mudanças, como a legalização da vida civil, a redução da taxa de analfabetismo, a expansão da frequência escolar, a defesa do Património e a criação de movimentos literários. No entanto, estas medidas não foram suficientes para fazer esquecer a difícil conjuntura que o país atravessava.
Este clima de incertezas e dificuldades gerou forte descontentamento entre a população. Em certos setores chamava-se por uma ditadura, prevista para casos extremos. No fundo, era optar por um período de suspensão da constitucionalidade.
A 28 de maio de 1926, a coluna militar proveniente de Braga liderada pelo General Gomes da Costa redundou num golpe de Estado apoiado por uma larga, mas heterogénea base (monárquicos, conservadores e meros desiludidos). Este golpe militar encerrou o Parlamento e instaurou a ditadura; mas, numa fase inicial, assistiu-se ao conflito de várias fações pelo poder, sobretudo entre duas tendências: a que considerava a ditadura militar como um interregno da República e como uma forma de permitir o saneamento político e administrativo, e a outra, que pretendia instaurar um novo regime dotado de instituições autoritárias. Com o afastamento de Gomes da Costa (9 de julho de 1926), o General Carmona tornou-se a figura de equilíbrio entre as duas fações.
A 26 de novembro de 1926, Carmona foi nomeado Presidente da República interino. Contudo, rapidamente veio a desiludir a ala republicana quando aderiu à tendência totalitária. As reações republicanas foram anuladas pelas forças governamentais e os chefes partidários deportados para presídios nos Açores, Guiné, Cabo Verde e Angola. A censura militar da imprensa foi instalada, e proibida a atividade de partidos políticos, sindicatos e organizações político-sociais.
Alguns políticos exilaram-se noutros países, como Espanha, França ou Brasil, onde tentaram boicotar o reconhecimento internacional do novo regime. O exemplo mais significativo é o da ação da Liga de Paris (nomes como António Sérgio, Jaime Cortesão, Afonso Costa e Álvaro de Castro), que tentou impedir a concessão de um empréstimo a Portugal, sob a égide da Sociedade das Nações. A oposição exilada conseguiu agravar as condições deste empréstimo e, face às exigências dos técnicos da SDN, a ditadura militar desistiu desta operação.
O General Óscar Carmona, eleito presidente interino, por sufrágio direto, em março de 1928, convidou para a pasta das Finanças António de Oliveira Salazar, um cargo que já tinha ocupado no segundo Governo de Mendes Cabeçadas, por um curto espaço de tempo.
Salazar rapidamente conseguiu impor a sua personalidade no Governo, o que lhe permitiu acumular a Pasta das Finanças com a das Colónias, considerados ministérios estratégicos, passando deste modo a controlar todo o Gabinete.
Os bons resultados financeiros que conseguiu (a 1 de agosto de 1928 foi publicado o primeiro orçamento sem défice) transformaram-no num político prestigiado e muito homenageado.
A economia portuguesa foi beneficiada pela Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez desde o século XVIII, a balança comercial teve um saldo positivo, o que foi devido ao incremento do volume das exportações de matérias-primas, produtos alimentares e manufaturados para os países intervenientes no conflito e à redução das importações causada pelas dificuldades atravessadas pelos países em guerra. Contudo, no pós-guerra, enquanto as economias de outros países europeus recuperavam da crise, o investimento e a indústria portuguesa estavam bloqueados devido à excessiva preocupação com o equilíbrio financeiro.
Outro fator que impediu um rápido crescimento económico foi a predominância rural do regime e a falta de confiança no progresso industrial (encarado como um setor de perturbação ideológica), que afastaram o país das nações mais desenvolvidas da Europa.
Nos anos 50 houve um esforço para se desenvolver a economia, traduzido num aumento do incentivo industrial, no fomento das obras públicas e na abertura da economia portuguesa ao comércio e ao investimento externo (por exemplo, a adesão à EFTA , em 1959). Outra medida tomada para implementar o crescimento económico foi a criação dos Planos de Fomento. Foram instituídos três planos quinquenais (1953-58, 1959-64 e 1968-73) e um Plano Intercalar (1965-67), que procuraram colmatar, ainda que tardiamente, o atraso da economia portuguesa.
Na década de sessenta, assistiu-se a um aumento do investimento e a uma progressiva abertura ao exterior. Operou-se uma evolução positiva no setor turístico e as remessas dos emigrantes possibilitaram um maior equilíbrio económico-financeiro. Todavia, persistiam as dificuldades económicas. Portugal enfrentava as despesas crescentes da guerra do Ultramar, que se tornaram insuportáveis, e uma enorme vaga de emigração.
O país voltava a afastar-se do grupo das nações mais avançadas da Europa e dentro das suas fronteiras mantinha-se o crónico ruralismo e os acentuados desequilíbrios regionais.
Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, Portugal conservava ainda o Império Colonial, composto pela Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, em África; Goa, Damão e Diu, na Índia, e Timor, territórios muito longínquos e muito distintos entre si, no geral pouco desenvolvidos, que funcionavam como mercados privilegiados dos produtos portugueses e fontes de matérias-primas, frequentemente exploradas por companhias multinacionais.
As colónias africanas estavam divididas étnica e culturalmente, e como nesta vasta área a colonização não tinha sido, no geral, muito marcante, até à década de 50, o domínio colonial não foi contestado com muita intensidade. Em época de desagregação dos impérios coloniais, Portugal persistia em manter o seu, contrariando as diretivas dos organismos internacionais.
Salazar nunca aceitou negociar a descolonização, apesar de ter sido pressionado pela comunidade internacional, porque considerava que estes territórios constituíam não colónias, mas províncias de um Estado pluricontinental.
Em 1961, a Índia anexou à força os territórios portugueses naquele país, enquanto nas colónias africanas surgiam movimentos autonomistas armados (o MPLA, a FNLA e a UNITA em Angola, a FRELIMO em Moçambique e o PAIGC na Guiné), que receberam apoio de países socialistas e que impuseram a Portugal uma guerra devastadora e ruinosa, que durou até à queda da ditadura em 1974.
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