Elegias de Londres

A elegia, género cultivado na Antiguidade Greco-Latina, além da sua estrutura prosódica particular, tinha como traço distintivo, qualquer que fosse a sua temática (guerreira, moralista, narrativa), o objetivo específico da "exortação, ensino e reflexão" (H. Fränkel, cit. por PEREIRA, Maria Helena Rocha - Estudos de História da Cultura Clássica, vol. I, 6.a ed., Lisboa, F. C. G, 1988, p. 188), acrescendo a esta característica, na sua transmissão, o sentido de "canto fundamentalmente triste". Transportando o género para a atualidade e dotando-o de liberdade métrica, as Elegias de Londres de Alberta Lacerda compõem um discurso profundamente melancólico sobre a fragilidade da vida humana sujeita, na contemporaneidade, a sucessivas perdas (cf. a segunda elegia, sobre uma África perdida, ou a elegia seguinte, sobre a perda de Deus), para concluir sobre a ausência de sentido de uma existência que reconhece "O não haver nada / O não estar em nada / O abandono / voluntário e involuntário / Da acumulação de escamas / de pedrarias / de escadas para nenhures" (quarta elegia). Ao mesmo tempo, as Elegias de Londres não abdicam da sua função de "reflexão" e de "exortação", tentado reequacionar, com lucidez e amargura, o papel que ainda pode ser reservado ao sujeito poético num mundo irreversivelmente rasgado depois da descoberta do "mal / nu" e aspirando pela recuperação de um "momento / De comunhão total com o universo" (Elegia 14).
Como referenciar: Elegias de Londres in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-11-25 23:19:38]. Disponível na Internet: