eremita

O termo eremita provém do latim er?m?ta, que significa "solitário". O objetivo dos eremitas é o de levar uma vida que imite a de Cristo e dos Apóstolos. No princípio, era apostólica (logo evangelizadora), como também baseada na estabilidade. Estes valores, principalmente o primeiro, mitigaram-se ao longo dos tempos. O eremita pratica essencialmente a humildade, a paciência, o silêncio, a contemplação, mas tudo levado ao extremo. Uma existência que se estriba numa penitência austera, num testemunho da sua fé através da ascese radical.
O movimento eremítico no Cristianismo apareceu muito cedo, no Oriente, assinalando-se de forma concreta a partir do século III. S. Antão (251-356), ou António (ou S. António Abade ou o Grande) adotou o modo de vida anacorética, c. 270, no Egito, fenómeno que depois se espalharia pela Síria, Capadócia e Palestina. No Ocidente, os primeiros eremitas aparecem algum tempo depois na Itália, ao longo do século IV. No século seguinte, assinalam-se as primeiras formas de vida eremítica na Irlanda, onde o monaquismo assume esta dimensão de vida mais solitária do que noutras paragens de vida monástica. O introdutor do eremitismo no Ocidente foi S. Atanásio, monge oriental várias vezes exilado nestas paragens da Europa, biógrafo de S. Antão, a par de João Cassiano, que se refugiou em Roma, vindo do Egito, onde era monge, e depois seguiu para Marselha, onde fundou duas comunidades de eremitas (c. 415). No Ocidente, o deserto oriental foi substituído pelas montanhas, florestas e clareiras destas.
O eremitismo esteve sempre, desde os seus começos, estreitamente ligado ao monaquismo, de que se pode dizer até que é uma forma particular. Muitos eremitas eram monges que viviam de forma reclusa em celas solitárias, próximas ou não umas das outras, apenas tendo como referência comunitária uma capela ou ermida onde celebrariam missa ou um ofício fúnebre. Os seus lugares para viver eram as cabanas, as grutas, as lapas, mas também as árvores (os chamados "dendritas") ou as colunas (em grego stylos, de onde deriva o termo estilita, como S. Simeão). Os eremitas era homens que fugiam à guerra, ao serviço militar ou com projetos de santidade arreigados ao desejo de substituírem os mártires através desta vida solitária. Quando havia palhoças e cabanas próximas, com eremitas, chamava-se a este aglomerado eremítico uma "Laura", "lugar de perfeição". Deveria haver também uma fonte ou poço perto. Nos séculos XI e XII, o monaquismo foi renovado pela aparição de diversos movimentos de cariz eremítico ou recoleto, neste caso, de monges que viviam reclusos na sua cela monástica, como se fossem eremitas, conciliando a sua forma de vida rigorosa e extrema com algumas exigências de vida comunitária mínima. Fora disto exemplo – e é ainda hoje – a Cartuxa de S. Bruno, ordem eremítica e contemplativa fundada em 1084. Viriam depois outros exemplos, como as hoje extintas ordens de Grandmont ou Fontevrault. Outro grande exemplo remanescente é o da Ordem Camaldolenes (Camaldoli), ramo eremítico (com via cenobítica também) do tronco beneditino.
Do século XIII até finais da Idade Média, um grande número de pequenas comunidades confirmam a validade e vitalidade do ideal de pobreza e de solidão cultivado pelos eremitas, em quase todos os países da Europa Ocidental. Depois do século XVI, o movimento eremítico diminuiu, embora com novas experiências no século XVII e depois com um certo reflorescimento no século XX, apesar das restrições do código de Direito Canónico de 1918, que negava a existência de formas de vida baseadas no eremitismo que não tivesse base monástica. Desde sempre a Igreja considerou as formas de vida solitária como perigosas, reservadas apenas a pessoas de qualidades espirituais excecionais, além de defender que os valores e as virtudes cristãs vingavam melhor em experiências de vida cenobítica. Houve até várias vezes hostilidade face aos eremitas no Ocidente, muitas vezes por causa da sua itinerância ou modo de vida despojado e afastado do mundo. A inexistência de direção e enquadramento espiritual e eclesiástico lançou muitas vezes a desconfiança em relação aos eremitas.
A vida eremítica é também uma reação ou alternativa à vida monástica, aos problemas e defeitos desta, que muitos entendem que só conseguem superar através do eremitismo. Em Portugal, existiam comunidades de eremitas, como na Serra de Ossa, por exemplo, algumas nas cidades, sob a forma de emparedados (ambos os sexos) o mais famoso dos quais foi Fr. João da Barroca, que vivia no Bairro Alto, e era conselheiro de D. João I e de muitos varões ilustres do reino), outros na ilha da Madeira, uma das "Meças" do eremitismo tardo-medieval europeu.
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