Esboços do Natural

Coletânea de contos à margem da série Cenas da Vida Contemporânea, dotada de um prólogo doutrinário sob a forma de uma carta a João Serras da Conceição, onde Júlio Lourenço Pinto defende a independência da arte e da ciência: "Pedir ao romance a demonstração de uma tese é exigir da arte a invasão dos domínios da ciência - invasão perigosa para a arte e para a ciência." Apesar deste postulado, as cinco narrativas curtas que compõem o volume (todas, à exceção de "Últimas memórias de um romântico", passadas em ambiente rural) evidenciam o gosto pela observação e a assunção dos pressupostos de Taine e Zola relativos à hereditariedade e à influência do meio. Assim o demonstram os casos diversos do Padre João, de "Uma vocação", e da jovem Etelvina, de "A andorinha": ele, filho de uma mulher anémica e histérica, efeminado por força da educação beata, encaminhado desde criança para o sacerdócio, acaba dilacerado pelo desejo que sente por uma das suas pupilas e sucumbe a um "ataque cerebral"; ela, filha de uma viúva fogosa e ambiciosa, dotada de um temperamento inconstante e sem ninguém que a oriente, depois de abandonada pelo primeiro amante, borboleteia de aventura em aventura até que, "vexada da sua vida de devassidão", se regenera, morrendo no hospital. Não faltam sequer os casos patológicos, como o de José da Castela, protagonista de "Um crime na charneca", um homem bestial, criado "como os animais bravios", capaz de crimes violentos sem sentir quaisquer remorsos, ou os exemplos de amor mórbido, como o que Duarte da Silveira sente pela atriz Paquita em "Últimas memórias de um romântico", conto que visa denunciar os excessos da sensibilidade romântica.
Como referenciar: Esboços do Natural in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-10-20 05:25:17]. Disponível na Internet: