espaço social

Na sua apreensão das hierarquias e das diferenças sociais, a Sociologia sempre foi atraída por metáforas de carácter espacial: a estratificação, a escada e a pirâmide são algumas dessas imagens mais persistentes. O mesmo acontece com o conceito de espaço social, sistematizado por P. Bourdieu. Uma sociedade pode ser comparada a uma nuvem de posições relativas interligadas por sistemas móveis de relações de proximidade e distância. Algumas diferenças demarcam, no entanto, esta proposta das anteriores.
1. É multidimensional: as classes de agentes inscrevem-se num espaço construído e representado a n dimensões e não numa única, habitualmente vertical. Até os esquemas de classes mais elaborados, como o de W. Warner, apenas contemplavam uma dimensão, acima e abaixo, embora o índice seriador fosse composto por vários indicadores. Esta multidimensionalidade possibilita discernir classes e frações de classes antes confundidas, por exemplo, ao nível das chamadas classes ou camadas médias. Na prática, para esta construção multidimensional, Bourdieu socorreu-se de técnicas recentes, como a análise de correspondências.
2. É relacional: o espaço social não é composto por entidades substantivas; a posição e o valor dos agentes e das propriedades derivam da trama de relações, designadamente de afinidade e de oposição, em que se inserem.
3. É dinâmico: as configurações constituídas pelas classes de agentes e pelas propriedades socialmente relevantes apresentam-se, para retomar uma noção de N. Elias, como "equilíbrios móveis de tensões" sujeitos a lutas permanentes de classificação simbólica, que visam, precisamente, redefinir a posição e o alcance das diferentes propriedades e classes em jogo.
Pode-se encarar o espaço social como resultado do entrecruzamento de três planos que se supõem e interpenetram: o das propriedades relativas, o das posições sociais e o dos estilos de vida. Qualquer espaço social é caracterizado por uma distribuição desigual dos recursos. Pela sua apropriação e valorização, mobilizam-se as diversas classes de agentes em lutas que vão redefinindo as suas posições relativas. Bourdieu assimila estes recursos a capitais, que agrupa em quatro espécies: o económico, o cultural, o social e o simbólico (em determinados campos ou sociedades podem ser consideradas outras formas ou variantes de capital, como o político ou o científico). A representação sinóptica de certos espaços sociais, com as respetivas posições e propriedades objetivas, como, por exemplo, o da sociedade francesa estudada por Bourdieu, pode ser reduzida, sem perda significativa de informação, a apenas dois eixos ou dimensões principais. O primeiro prende-se com o volume global de capital e hierarquiza as posições sociais desde os assalariados agrícolas (desprovidos de qualquer espécie de capital) às profissões liberais (bem providas de todas as espécies). O segundo refere-se à estrutura do capital (peso relativo dos capitais cultural e económico) e discrimina os grupos de posições relativamente mais munidas de capital económico do que cultural (por exemplo, os agricultores, os comerciantes e os artesãos) dos grupos que, inversamente, dispõem, comparativamente, de mais capital cultural do que económico (por exemplo, os professores).
Enfim, a diferentes grupos de posições sociais correspondem distintos estilos de vida, uns e outros ligados por relações de homologia. Cada grupo de posições é caracterizado por determinadas probabilidades de trajetória social, condições de existência, relações com os outros grupos, sistemas de disposições e estilos de vida. Bourdieu desvendou estas conexões em vários domínios da prática social, por exemplo, na alimentação, nos cuidados do corpo, no desporto, na habitação ou no consumo cultural.
Como referenciar: espaço social in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-10-30 18:45:49]. Disponível na Internet: