estilos de vida

"Um dos desenvolvimentos mais importantes e inovadores da teoria sociológica mais recente provém da crescente atenção dedicada aos estilos de vida enquanto conceito-chave sociológico" (1997, Cockerham et alii - "Conceptualizing contemporary health lifestyles". In The Sociological quarterly).

Os estilos de vida prendem-se com práticas quotidianas e formas de consumo que envolvem escolhas particulares e identitárias em domínios tão díspares como a habitação, a alimentação, os usos do corpo, o vestuário, a aparência, os hábitos de trabalho, o lazer, a religião, a arte, a organização do espaço e do tempo ou o convívio com os outros atores sociais. Distintos e distintivos, com homologias ou correspondências significativas a ligar as suas diversas componentes, os estilos de vida tendem a configurar-se de forma coerente (Bourdieu) e a exprimir as identidades pessoais e coletivas (Giddens). Habitusi, etos, visão do mundo e (sub)cultura são alguns dos conceitos clássicos da Sociologia mais próximos. Quase todos os grande sociólogos se consagraram, direta ou indiretamente, ao estudo dos estilos de vida (por exemplo, Tocqueville, Marx, Veblen, Mauss, Bakhtine, Elias, Hall, Goffman, Becker, Baudrillard). Merecem, porém, particular realce as contribuições de Simmel, de Weber, da Escola de Chicago, de Bourdieu e de Giddens.
G. Simmel foi um dos primeiros sociólogos a empregar explicitamente a noção de estilos de vida, especialmente quando encara o dilema da individualidade e da subjetividade no mundo contemporâneo. A modernização fomentou a impessoalidade das grandes metrópoles, da racionalização, da cultura objetiva, do feiticismo da moeda, do calculismo e da abstração. Simultaneamente, graças à expansão dos mercados, à complexificação da divisão do trabalho e à diferenciação urbana, as possibilidades de escolha oferecidas aos atores sociais multiplicaram-se. Este incremento das opções permite-lhes adotar e construir os seus próprios estilos de vida. Estes estilos individualizam-nos e resguardam a sua subjetividade, funcionando como uma espécie de esfera de proteção e de resistência face às tendências reificadoras da sociedade de massas. Pese a sua originalidade, estas reflexões de Simmel em torno dos estilos de vida permanecem ainda algo confinadas.

Neste, como em muitos outros aspetos, caberá a Max Weber rasgar horizontes. Weber liga os estilos de vida aos grupos de status e enquadra-os principalmente ao nível do consumo: "Poder-se-ia, numa simplificação porventura excessiva, dizer que as 'classes' se organizam segundo as relações de produção e de aquisição de bens, e os status segundo os princípios do seu consumo de bens sob as diversas formas específicas do seu 'estilo de vida'" (Weber). Embora condicionados pela situação social e respetivas "possibilidades de vida" dos atores, os estilos de vida resultam das suas escolhas, subsistindo um espaço considerável de liberdade; na dialética entre escolhas e possibilidades de vida, Weber inclina-se nitidamente para o primeiro polo. São muitos os escritos que nos deixou relativos aos estilos de vida. Atente-se, por exemplo, nos seus estudos sobre o habitus e o etos de diversas religiões (por exemplo, A ética protestante e o espírito do capitalismo), encarados como uma maneira de estar no mundo e na vida.

Inspirando-se em Simmel, a Escola de Chicago privilegia o mundo da vida quotidiana e, em particular, as situações de liminaridade e marginalidade social. Na pesquisa de várias (sub)populações, enfatiza o modo como a sua atividade diária, as atitudes, os valores e os comportamentos tendem a configurar-se segundo padrões consistentes e adaptados à sua condição e modo de articulação com a sociedade global, ou seja, como "subculturas". Foram assim caracterizados, entre outros, os "estilos de vida" de imigrantes (Thomas; Znaniecki), de delinquentes (Shaw; Whyte) e de pobres (Lewis).

P. Bourdieu é dos sociólogos que mais tem insistido na elucidação do modo como as práticas e as escolhas quotidianas dos indivíduos se ajustam às suas condições de existência, nomeadamente às suas posições e trajetórias sociais. O conceito mediador de habitus assume aqui um papel fulcral. Sistema durável, aberto e dinâmico de esquemas e disposições interdependentes, o habitus incorpora as estruturas envolventes e molda as rotinas e os estilos de vida dos indivíduos (ações, perceções e avaliações), que, por sua vez, num pendor claramente reprodutivo, tendem a reforçar as ditas estruturas. A diferentes condições sociais correspondem diferentes estilos de vida, num sistema global marcado por proximidades e distâncias, afinidades e distinções, gostos e desgostos... As práticas características dos estilos de vida são, simultaneamente, classificadas e classificatórias, delineando fronteiras significativas (entre propriedades e agentes) que delimitam o espaço social. Em todo este processo cabe ao gosto um desempenho fundamental. "Naturalizado e espontâneo", ele subjaz à maioria das escolhas (em matéria de convívio, alimentação, vestuário, arte, desporto, mobiliário...). Embora Bourdieu não descure outros fatores, como o género, a idade ou a etnicidade, o essencial da sua obra concentra-se na estratificação dos estilos de vida consoante as classes sociais. Se, à semelhança de Weber, assume a existência de uma relação dialética entre estrutura e ação, objetividade e subjetividade, determinismo e liberdade, possibilidades e escolhas de vida, Bourdieu, afastando-se de Weber, acaba por conferir a primazia ao primeiro termo.

Não é esta a via de A. Giddens, que retoma a ênfase na subjetividade e nos espaços de jogo e de manobra. Giddens diagnostica uma autêntica explosão das opções numa atualidade cada vez mais dinâmica e complexa. As transformações ocorridas em termos de tempo e de espaço, acopladas com a descontextualização dos sistemas sociais, promovem a mudança, a abertura da vida social, a pluralidade dos enquadramentos e a dispersão da autoridade. Na modernidade avançada "não há outra escolha senão escolher". Escolhas que tendem a cristalizar-se em estilos de vida, próprios de determinados grupos ou estratos sociais. Os estilos de vida adquirem, assim, maior relevo, tanto na definição das práticas diárias, como na construção das identidades pessoais, que não são adscritas mas quotidianamente (re)criadas pelas atividades e opções dos indivíduos. A composição da identidade social apela à apropriação de um estilo de vida reflexivamente construído. Na esteira de Simmel, Giddens destaca-se como o autor que mais focaliza a ligação entre estilos de vida e identidades pessoais. É ainda aquele que mais considera, para além da classe e do status, os efeitos de fatores como o género, a raça ou a etnia.
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