Evolução Natural da Península Ibérica

A morfologia do território português tem o seu prolongamento natural em Espanha. A observação da condições climáticas e de tipo de superfície indicam semelhanças notórias entre o Minho e a Galiza e a raia e a zona correspondente espanhola. Assim, qualquer análise efetuada para o conhecimento da evolução natural tem que englobar forçosamente a totalidade da Península Ibérica.
Grande parte do território é formado pelo maciço antigo, constituído por rochas magmáticas e metamórficas. A sua extensão é considerável, pois, fazendo parte de amplas superfícies do território espanhol, ocupa todo o Minho e Trás-os-Montes, grande parte da Beira Alta, Beira Baixa e Alentejo, chega a Aveiro e flete na direção sul até Tomar. Junto à costa volta a observar-se esta formação antiga desde Sines até ao Cabo de São Vicente e a serra algarvia que corre paralela ao mar ainda pertence ao maciço.
Contribuíram para a formação do maciço antigo os fenómenos decorrentes da tectónica da superfície, como é o caso dos desnivelamentos de dimensão importante que marca vigorosamente o Norte, cuja principal expressão se encontra na cordilheira central que divide o Norte do Sul, dos vales encaixados e das escarpas. Outros fenómenos contribuíram de forma decisiva para a fisionomia da Península, nomeadamente a erosão e as variações climatéricas, cujos efeitos estão intimamente ligados. Conhecem-se melhor esses efeitos para a Era Quaternária. Do Cenozoico são as bacias do Tejo e do Sado formadas ao longo da Era Terciária e onde se deteta a presença de materiais decorrentes de erosão (areias, argilas, aluviões e praias antigas). O resultado mais importante do fenómeno de movimentação tectónica foi a Serra da Estrela. Notam-se igualmente reflexos do deslocamento tectónico a sul, mas sem grande significado. Os resultados de fenómenos erosivos e sedimentares estão patentes na costa algarvia; o primeiro verifica-se nas arribas que se prolongam de Vilamoura a Sagres e o segundo verifica-se de Cádis até Vilamoura.
Os efeitos do clima na configuração da geologia ibérica, na expansão e retração da fauna e da flora têm sido investigados para a Era Quaternária. No entanto, está ainda numa fase inicial. As dificuldades que se têm encontrado no estudo resultam da falta de uma sequência de períodos glaciares comparável à que ocorre nos Alpes. Alguns episódios ficaram confinados a áreas de reduzida dimensão, com um valor regional. Para o estabelecimento de cronologias aplica-se, no entanto, a escala verificada nas glaciações alpinas. A Península Ibérica ilustra bem a variedade climatérica que marcou a Europa, pois este território demarca-se da do clima geral frio, pelas suas características temperadas. No território peninsular apenas se registaram restos da glaciação de Würm e escassas marcas da de Riss na Serra Nevada, em Peñalara, nos Picos da Europa e na Serra da Estrela, confinando-se às áreas mais interiores e elevadas e marcando a continentalidade da meseta. Os principais focos glaciários foram detetados na Serra Nevada, nos sistemas Bético e Central e na Cordilheira Cantábrica. Assim, as mudanças climáticas que atingiram a Europa Meridional mostram-se de forma atenuada. A ação direta do gelo só se fez sentir nos locais mais elevados e nas suas zonas periféricas.
No território português as manifestações mais importantes das temperaturas baixas da glaciação ocorreram na Serra da Estrela e na sua região periférica, com a formação de uma grande calote de gelo no topo que se estendia mais acentuadamente pelos vales da encosta oriental. Foi também possível registar, recentemente, a presença de restos de glaciares na Peneda-Gerês como continuação de fenómenos da mesma natureza verificados na Galiza. Tanto neste conjunto do Nordeste como na Serra da Estrela identificou-se o máximo desenvolvimento dos glaciares no estádio de Würm III. O estado atual da investigações não permite afirmar com segurança a existência de glaciações anteriores, que até poderão nunca ter ocorrido devido às condições climatéricas especiais de que o território beneficiava. As informações que têm sido recolhidas provêm sobretudo de praias elevadas e de terraços fluviais ou de levantamentos de materiais em contextos estratigráficos pertencentes a diferentes fases de glaciação. Alguns vestígios que têm ocorrido no Algarve, nos terraços fluviais do Tejo e no vale do rio Lis têm sugerido a presença de momentos glaciares anteriores a Würm devido à configuração do território esculpido por ação da erosão provocada por acentuadas diferenciações de temperatura. Assim, com segurança, não se identificou nenhum indício da ocorrência de um clima frio anterior ao Würm em Portugal.
Crê-se que o Ocidente da Península Ibérica fosse uma zona de transição climática importante. Entre há 18 000 e 11 000 anos, se nas zonas mais elevadas se verificavam as influências do Würm, os vales e a orla litoral do território português e da Galiza meridional cobriam-se de espécies arborícolas. Assim, foi possível o desenvolvimento de florestas temperadas onde os animais com características também temperadas procuraram refúgio. As espécies de climas frios como a rena só excecionalmente atingiam estas áreas.
Por volta de 9500 a. C., com o fim do Pleistoceno e início do Holoceno, houve uma mudança climatérica com algum significado e que se prende com a presença de correntes frias decorrentes da fusão dos gelos do Norte da Europa aliadas a ventos muito fortes afetou, o que o litoral atlântico europeu, provocando a desertificação da costa portuguesa e Galega. Na zona a norte de Bragança e na Serra Nevada também se verificaram modificações no tipo de vegetação: na primeira os pinheiros foram substituídos por vidoeiros em 9500 a. C. e na segunda os carvalhos foram substituídos por pinheiros e arbustos.
Os estudos que continuam a ser efetuados permitirão desvendar dados importantes que ajudem a esclarecer algumas dúvidas que persistem e alguns dados que ainda não se mostram totalmente seguros. Fica a evidência da existência de uma variedade regional considerável e a particularidade que representa a Península Ibérica quando inserida num conjunto europeu mais vasto.
Como referenciar: Evolução Natural da Península Ibérica in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-07-24 00:32:08]. Disponível na Internet: