explicação quási-causal

A explicação quási-causal, introduzida por G. H. Von Wright (1971), constitui um modelo misto de explicação. Sendo a perspetiva de Von Wright a da ação humana e dos acontecimentos históricos e sociais, ele sabe que a explicação causal dos acontecimentos não dá conta por si só da estrutura teleológica da ação. Defende, assim, que a causalidade (não nomológica), de que nos servimos para explicar os acontecimentos históricos, se liga com os mecanismos teleológicos da ação, isto é, à compreensão e à explicação finalistas. A este propósito, Ricœur (1983) irá aproximar o modelo da explicação quási-causal de Von Wright do método da imputação causal singular (ou da explicação causal singular) de Max Weber e R. Aron.
A explicação quási-causal é, com efeito, apropriada à explicação da História e das Ciências Sociais, porque dá conta da sucessão e da interligação entre os comportamentos, as situações, as motivações, as causas, os antecedentes, as consequências próprias dos acontecimentos humanos no mundo social. Tomemos o exemplo da Primeira Guerra Mundial, dado por Von Wright: o assassínio do arquiduque da Áustria em Sarajevo, em julho de 1914, foi, num conjunto de circunstâncias, a causa (explanans) do rebentamento da Primeira Guerra Mundial (o rebentamento da guerra é o explanandum, o efeito). Qual é a conexão que liga estes dois acontecimentos? São ligações motivacionais. O assassínio transformou a situação factual e provocou transformações ao nível das motivações das ações do Governo austríaco, o que conduziu ao ultimato à Sérvia. Isto permite compreender a razão por que Von Wright propõe o "modelo misto" da "explicação quási-causal": esta evita a dualidade entre a explicação pelas causas e as leis versus a explicação pelas razões. O que não impede que o historiador diga que o assassínio do arquiduque da Áustria causou o ultimato à Sérvia, ou que causou o rebentamento da Primeira Guerra Mundial. Os acontecimentos históricos podem, portanto, ser explicados por outros acontecimentos que lhes são independentes. Isto porque as ligações intermédias entre as situações são motivações e inferências práticas, das quais a explicação apropriada é a teleológica (parte-se, portanto, da conclusão - ação - para as premissas - intenções -, segundo um silogismo prático invertido: trata-se de verificar se as premissas demonstram que o comportamento que é dado na conclusão é intencional). Von Wright observa que a explicação teleológica se associa à explicação causal pelos termos: em vista de..., de modo que...
A validade da explicação quási-causal não depende, portanto, da verdade de leis gerais: "Quando, à falta de melhor - justifica Von Wright - eu a designei de quási-causal, isto não significa qualquer juízo de valor ou imperfeição como explicação. Eu utilizei o termo porque a explicação não depende para a sua validade da verdade de leis gerais." A explicação quási-causal é do tipo: "isto aconteceu porque...". Ela permite compreender do que é que se trata ("what something is"), ou por que razão isto aconteceu, como resposta ao porquê?, em termos das condições suficientes (é em termos de uma condição suficiente que se responde ao porquê?; a causa é uma condição suficiente de q: a ocorrência de p é suficiente para assegurar a ocorrência de q).
É uma explicação causal, porque o objeto a explicar, o acontecimento ou o efeito (explanandum), é explicado pela causa ou antecedente (explanans: o que o explica), ou seja, por um fator que o precedeu. Mas, na realidade, o modelo é misto, na medida em que a explicação teleológica se associa aqui à explicação causal, já que na própria produção do acontecimento que se pretende explicar existiram inferências práticas da parte dos atores, tomadas em função da situação e das circunstâncias criadas pelos antecedentes.
Como referenciar: explicação quási-causal in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-10-22 14:43:06]. Disponível na Internet: