Fernando Bento

Ilustrador, figurinista, maquetista, caricaturista, pintor e autor de banda desenhada, de seu nome completo Fernando Trindade Carvalho Bento, nasceu a 26 de outubro de 1910, em Lisboa.
Teve uma infância marcada pelos bastidores do teatro (o pai trabalhava no Coliseu dos Recreios) e desde cedo revelou dotes para o desenho, colaborando com o jornal do Liceu Camões, O Desportivo, com apenas 12 anos.
A sua formação autodidata teve como único complemento o curso de desenho por correspondência, da École ABC de Dessin, de Paris, que tirou tinha então 19 anos. No início dos anos 30, realizou caricaturas de ciclistas e de atores, tendo feito ilustração desportiva no jornal Os Sports e para a crítica teatral em Coliseu e Diário de Lisboa, a par da realização de cartazes, cenários e figurinos para o teatro de revista.
Como figurinista do teatro de revista, recebeu o aplauso da crítica, tendo também feito incursões na publicidade e na Pintura. Apesar do seu gosto e talento pelo desenho e ilustração, assegurou trabalho como empregado comercial numa companhia petrolífera (BP).
Estreou-se nas histórias aos quadradinhos (BD) em 1938, no suplemento infantil do jornal República, tendo passado em 1941 para o Pim-Pam-Pum!, suplemento de O Século e Notícias Agrícola, do Diário de Notícias, entre outros títulos.
O seu nome esteve intimamente ligado ao Diabrete (publicado entre 1941-1951), onde para além de múltiplas histórias foi responsável pela maquetagem e todo o arranjo gráfico e, posteriormente, ao Cavaleiro Andante (1952-1962), ambas revistas da Empresa Nacional de Publicidade (ENP) que marcaram os anos de intensa competição entre os periódicos infantis e juvenis.
Grande parte do seu trabalho desta época foi feito tendo por base argumentos de Adolfo Simões Müller e Maria Amélia Bárcia, que adaptaram histórias de autores de renome.
No Diabrete, Fernando Bento tanto produziu histórias aos quadradinhos cómicas, de que se destacaram "Béquinhas, Beiçudo & Barbaças", "Coisas Que o Demo Não Fez", "Kókabychinhos Detetive", "Diabruras da Prima Zuca" ou, ainda, "Zé Quitolas com o seu Burro Faísca", de entre as dezenas de histórias recheadas de bom humor que concebeu, como histórias de aventuras e biografias realistas, desde "A Ilha Misteriosa", de Júlio Verne, passando por "Luís de Camões".
Na sua participação no Cavaleiro Andante apareceram as adaptações de obras de Artur Conan Doyle (as aventuras de Sherlock Holmes), de Walter Scott, de Robert-Louis Stevenson, de PC Wren e de Mark Twain.
Uma das melhores histórias de Fernando Bento foi, sem dúvida, "Beau Geste", uma adaptação do clássico de Percival Cristopher Wren, que teve a sua primeira publicação no Cavaleiro Andante em 1952 e que chegou a ser editado em flamengo, na Bélgica. Outras histórias famosas foram também "O Anel da Rainha de Sabá", adaptação do romance de Rider Haggard, que apareceu no Cavaleiro Andante em 1953, "Com a Pena e com a Espada - Camões, Afonso de Albuquerque" (Diabrete, 1950-1951) e "As Mil e uma Noites" (Diabrete, 1948), ambos com argumento de Adolfo Simões Müller.
História particularmente aclamada foi também A Ilha do Tesoiro, adaptação da obra de Robert-Louis Stevenson, publicada em 1947 e que, mais de 40 anos depois, foi continuada com grande entusiasmo pelo grande mestre Fernando Bento. O Regresso à Ilha do Tesouro contou com argumento de Jorge Magalhães, adaptado de um romance de H. A. Calahan, um pouco conhecido autor que retomou as personagens de Robert-Louis Stevenson. Esta história teve direito a um primeiro volume (editado em 1993), tendo a segunda parte ficado concluída mas incompleta na coloração de grande parte das páginas, devido à suspensão da sua edição. Numa publicação póstuma, a revista Seleções BD (II série) apresentou esta segunda parte entre os números 13 e 19, também sob argumento de Jorge Magalhães, ficando a terceira e derradeira parte deste O Regresso à Ilha do Tesouro, por realizar.
Entre o seu trabalho como ilustrador para livros e periódicos, produziu banda desenhada para manuais escolares de inglês e de francês, e publicou, no jornal A Capital, "Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho", em 1973, numa época em que, com a crise das revistas juvenis, a sua produção de BD tinha diminuído consideravelmente. Ao nível da ilustração para livros, realce para A Minha Primeira História de Portugal, sob texto de António Manuel Canto Viana, e O Mistérios dos Cães Desaparecidos, de Ana Meireles (Coleção "Grande Prémio"), ambos editados pela Verbo, o último dos quais recebeu o Prémio Adolfo Simões Müller.
O seu legado constitui uma das maiores, mais ricas e diversificadas obras de toda a banda desenhada portuguesa, tendo este autor clássico de traço fino e elegante marcado e encantado o imaginários de milhares de leitores, especialmente nos anos 40, 50 e 60.
Foi distinguido com um prémio, atribuído ao conjunto da sua obra, pelo Clube Português de Banda Desenhada, em 1983, e com o Troféu Zé Pacóvio e Grilinho - Honra, no 6.º Festival Internacional de Banda Desenhada - Amadora, em 1995, para além das homenagens realizadas nas Jornadas de BD da Sobreda e nos Salões do Porto e Viseu.
Faleceu a 14 de setembro de 1996, em Lisboa. Entre dezembro de 1997 e janeiro de 1998, realizou-se uma exposição retrospetiva da sua obra, na Bedeteca de Lisboa, comissariada por António Dias de Deus e Leonardo De Sá, da qual se editou um notável catálogo. Em maio de 1999, foi atribuído o seu nome a uma artéria da sua cidade natal.
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