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Fernando Nicolau de Almeida

Enólogo e criador de vinhos português, Fernando Moreira Pais Nicolau de Almeida, nascido em 1913, na cidade do Porto, fazia parte de uma família com pergaminhos na produção de vinho do Porto. A sua juventude portuense foi passada entre vários desportos que lhe ocupavam o tempo livre. Futebol, rugby, remo, ténis e o seu eterno golfe contam-se entre as modalidades em que foi praticante. O seu pai, Fernando Kelly de Aguiar Nicolau de Almeida, era diretor técnico da Casa Ferreirinha, um dos empórios gaienses dos vinhos durienses e uma das mais importantes casas do vinho do Porto. Em 1930, ainda na sua fase desportiva e liceal, já seu pai o chamava para o ajudar na sala de provas das caves da Ferreirinha. A vontade de um dia ser piloto aviador esfumara-se por entre os tonéis e o cheiro do vinho. O seu mundo era já aquele, desde sempre o vinho era o negócio de família, que ele, aliás, supunha ser a única atividade económica que existia na cidade. Para além do trabalho nas caves, o seu pai obrigou-o a estudar nos tempos livres: química e inglês. O idioma era necessário, num negócio em que era quase a língua oficial, sendo ele até um descendente de ingleses; a ciência, imprescindível para as análises na sala de provas.
Naquele ano de 1930, foi ao Douro para a sua primeira vindima, acompanhando Jorge Ferreira, administrador da companhia em que começara nesse ano a trabalhar. Para Fernando, não foi uma sensação agradável, saturado do calor, do pó, da vida dura, das más estradas e dos rústicos transportes que teve que tomar, entre outros a que estava mais habituado. Os alojamentos causaram-lhe também deceção, desmotivando-o.
1931 foi o ano da mudança, ano em que ganhou uma paixão pelos vinhos. De facto, quando viu o seu pai provar os primeiros vinhos feitos da vindima em que trabalhara, sentiu que eles seriam de facto a sua vida, a eles dedicando carinho e rigor no seu tratamento, ideias chave da sua vida e segredos dos vinhos que viria a produzir. Entretanto, na década de 40 fazia já algumas experiências enológicas na casa Ferreirinha, que estava a apostar na exportação de vinhos verdes tintos para o Brasil. Uma dessas experiências, um vinho tinto feito na Quinta de Vale do Meão , deu Fernando a provar, em 1949, a um dos magos franceses dos vinhos, o enólogo Émile Peynaud, então a colaborar com a empresa. O famoso enólogo, terá dito a Fernando para esquecer os verdes e se dedicar aos vinhos maduros tintos, dando início, desta forma, à sua fase de criador de vinhos. Parte então em viagem para as principais regiões vinhateiras de França (Borgonha, Bordéus) e para a Rioja, em Espanha, com o intuito de estudar as técnicas de fermentação por lá utilizadas, distintas das de Portugal. As fermentações eram controladas com sistema de frio, de molde a preservar os aromas e a frescura dos vinhos, propriedades que se perdiam com o calor. Todavia, no Douro ainda poucas quintas tinham eletricidade naquele tempo e não havia cubas de fermentação com controlo de temperatura. Nicolau de Almeida decide então construir um recipiente com paredes duplas onde colocava gelo, que vinha de Matosinhos em camiões. À custa deste trabalho, nem sempre fácil e carente de meios sofisticados, em 1952 Nicolau de Almeida declara o seu primeiro Barca Velha, só comercializado oito anos mais tarde, quando o criador entendeu que devia começar a ser consumido, apesar das solicitações comerciais.
Este vinho era feito com uvas do Douro Superior, cuidadosamente controlado pela "prova" de Nicolau de Almeida durante o estágio em pequenos cascos de carvalho. 1954, 1957, 1964, 1966, 1978, 1981, 1982 e 1983 serão os anos de outros Barca Velha, anos em que Nicolau de Almeida entendeu reunirem-se as condições para a obtenção do precioso vinho tinto. Já por exemplo, em 1960, 1962, 1974, 1977 e 1980, o talentoso criador de vinhos entendeu não estarem reunidas as condições para aqueles anos serem de Barca Velha, dando-lhes a designação de Reserva Especial Ferreirinha. Criou, para além destes dois vinhos exponenciais, outros de grande qualidade, como o Vinha Grande, o São Marco ou o Esteva.
Foi também um homem do vinho do Porto, um criador de vintages de grande qualidade, para o que contou com a ajuda dos seus mestres John Smith e Latimer Atkinson. O seu primeiro vintage apareceu em 1955, apresentando outros depois em 1960, 1963, 1966, 1970, 1975, 1977, 1978, 1980 e 1982. Nicolau de Almeida foi um dos fundadores, em 1982, da Confraria do Vinho do Porto e seu primeiro chanceler, mostrando-se um dos maiores e acérrimos defensores daquele vinho português. Foi também colaborador do Instituto do Vinho do Porto desde o seu início, fazendo parte da sua Junta Consultiva, e do Grémio dos Exportadores (depois Associação de Empresas de Vinho do Porto).
No vinho do Porto, foi um dos pioneiros de uma nova forma de produção deste vinho, através do uso exclusivo da "marca e engarrafamento na origem", em vez do costumeiro "negócio a granel". Selecionando as melhores castas no Douro, Nicolau de Almeida é o criador de alguns Tawnies velhos de excecional qualidade, como o D.Antónia ("Reserva"), o Quinta do Porto ("10 Anos") e um 20 anos, o Duque de Bragança, para além dos Vintages Ferreira.
Muitos foram os reconhecimentos públicos pela genialidade deste autêntico homem do vinho, várias vezes condecorado em Portugal e no estrangeiro. Para além da Confraria acima referida, foi também sócio e presidente de instituições desportivas portuenses, como o Oporto Golf Club de Espinho ou o Lawn Tennis Club da Foz, tendo sido também cônsul honorário da República Dominicana na sua cidade natal, onde fora distinguido como Doutor Honoris Causa na Universidade Católica Portuguesa. Nas horas vagas, dedicava-se à pintura, sendo grande apreciador da escola flamenga, principalmente Pieter Bruegel e Hyeronimus Bosch.
Em 1998, Fernando Nicolau de Almeida, o criador dos criadores de vinhos em Portugal no século XX, falecia na cidade onde nasceu. Todavia, o nome Nicolau de Almeida continua ligado aos vinhos, mesmo após o desaparecimento da sua figura referencial, através dos seus filhos.
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