Festas de S. Firmín

A cultura milenar do Mediterrâneo e da Península Ibérica elegeu o touro como representante das forças da terra e como protagonista dos rituais que estão na origem das touradas e dos jogos circenses históricos, ligados a cerimónias sagradas do culto da fertilidade. Esta tradição está também estreitamente ligada aos Sanfermines, uma das mais celebradas festas do mundo que tem lugar, todos os anos, no centro histórico de Pamplona, a Iruña basca, de 6 a 14 de julho. Contrariamente ao que se pensa, o patrono de Pamplona não é San Fermín, mas San Saturnino, nem o dia 7 de julho é o dia de San Fermín, um santo francês de vida incerta, mas sim a festa em honra de San Fermín, bispo de Amiens, nascido em Pamplona, que morreu mártir.
Com origem nas feiras comerciais e festas seculares da Idade Média que progressivamente foram integradas em datas religiosas cristãs, os Sanfermines surgiram nos finais do século XVI e deles já faziam parte as corridas de touros, para além de procissões, teatro, danças e torneios. Os festejos prosseguiram durante centenas de anos sem grandes alterações com um carácter muito local até aos princípios do século XX, altura em que o famoso escritor norte-americano Ernest Hemingway se inspirou nos Sanfermines para escrever o seu livro Fiesta. A partir de então, e especialmente após a Segunda Guerra Mundial, cada vez mais estrangeiros acorrem à cidade, que, durante os festejos, chega a duplicar a sua população.
A festa começa com o famosíssimo txupinazo, ou chupinazo, o lançamento de um pequeno foguete, a que se seguem outros, ao meio-dia do dia 6 de julho, a "víspera" ou véspera, desde o balcão principal do edifício da Câmara de Pamplona, diante da Praça Consistorial, onde se apertam milhares de pessoas que acenam os lenços vermelhos que depois usarão ao pescoço. As pessoas exclamam "San Fermín! San Fermín" e ao troar do foguete segue-se uma explosão de música, dança, canto e festa acompanhados pelo som das rolhas que saltam das garrafas de cava ou champanhe. A tarde começa com o primeiro ato religioso da festa, "Las Vísperas", que se celebra desde o século XV e que consiste numa procissão em que desfilam os Gigantes e os Cabezudos, seguidos da Pamplonesa - a banda de música que toca uma única música, a famosa Vals de Astrain - e a comitiva de gala do município de Pamplona. O desfile percorre as poucas ruas que separam a Praça Consistorial da igreja de San Lorenzo, onde se celebra a missa na capela de San Fermín. Durante este cortejo tem lugar o famoso "Riau-Riau", em que grupos de jovens tentam travar a comitiva com danças e canções e que termina com o grito "Riau! Riau!", que já foi algumas vezes suspenso por ter conseguido paralisar completamente a comitiva. No dia 7 de julho, dia do patrono da festa por excelência, toda a gente se veste de pamplonica - de branco com faixas ou lenços vermelhos e com a txapela, a boina vermelha ou preta - para assistir à procissão em que a Comparsa de Gigantes, Cabezudos, Kilikis e Zaldikos, ou cavalos, as representações das confrarias artesanais e das Peñas, a corte de San Fermín, o cabido da catedral de Pamplona e a corporação municipal seguem o andor de San Fermín pelas ruas da cidade, onde milhares de pessoas assistem à passagem do santo e lhe cantam uma jota ou lhe entregam ramos de flores.
A partir deste dia e durante toda a semana de festejos decorrem vários eventos relacionados com os touros. O famoso encierro, a emotiva e perigosa corrida de touros pelas ruas da cidade, tem lugar às 8 da manhã mas cerca de duas horas antes já os mais madrugadores ocupam os melhores lugares para assistir ou para participar na corrida, vestidos à pamplonica. Anunciado por foguetes, o primeiro com a abertura dos currais, o segundo quando já saíram todos os touros e o terceiro quando estes já chegaram à praça de touros, o percurso começa na Cuesta de Santo Domingo, uma rua com uma curva à esquerda, de onde, às 8 horas, saem os touros com muita violência, assustados pela multidão. Segue-se a Plaza del Ayuntamiento, um corredor que desemboca na Calle de Mercedes, que começa com uma curva e acaba com outra ainda mais pronunciada e perigosa onde normalmente os touros caem. Os touros chegam cansados à prolongada e estreita Calle de la Estafeta aonde normalmente correm de uma forma inesperada e desconcertante para os corredores, antes de passarem pelo callejón, a estreita e perigosa entrada da praça de touros. É no estreito callejón que muitas vezes tem lugar o montón, uma confusão de touros e corredores. Depois, e já dentro da praça de touros, soltam-se as vacas e retiram-se os touros. Mas o evento não termina aqui, dado que depois são soltos seis touros bravos e nove mansos, acompanhados dos pastores com longos varapaus, que tentam manter a manada numa carreira uniforme, mas que, quando desordenada, se pode tornar perigosa. Existem várias categorias para os corredores do encierro, desde o profissional ao aprendiz, até ao divino, passando pelo espavorido ou os muito irresponsáveis, estes últimos normalmente estrangeiros. No encierro, os corredores não correm à frente do touro, que é muito mais veloz que os humanos, mas normalmente a par ou à frente por poucos segundos, dado que no seu conjunto o encierro não dura mais que três minutos, nos cerca de 850 metros da totalidade do percurso. Os touros não perseguem os corredores que se incorporam na manada com muita coragem, não devendo estes desviar os touros do seu percurso. Pouca gente sabe que existe o encierrillo, na véspera de cada encierro, em que os touros correm um percurso mais curto, de noite, de forma solitária e no mais absoluto silêncio, desde os Corrales Del Gas até aos currais da Calle Santo Domingo, de onde sairão no dia seguinte. O encierro tem a sua origem no costume centenário de trasladar os touros dos currais para a praça de touros para a corrida do dia seguinte.
Em cada um dos dias dos festejos, tem lugar pela tarde a corrida de touros na Monumental, a praça de touros inaugurada em 1922 e assim chamada pela sua dimensão, a terceira maior do mundo, e pela qualidade das suas touradas. Curiosamente, a Monumental está encerrada todo o ano, para esgotar a sua lotação nesta época festiva. Este evento, juntamente com o encierro, é considerado a atração principal dos Sanfermines e, por esta razão, as entradas estão vendidas desde o ano anterior, senão antes, sendo eventualmente possível encontrar bilhetes, de valor inflacionado, nos locais de revenda, situados a pouca distância das bilheteiras oficiais.
Uma característica interessante é a diferença associada à divisão que existe dentro da própria praça de touros, entre o tendido de sol e o tendido de sombra, os lugares de bancada. Assim, na bancada de sol, existe um ambiente de grande festa, onde os seus ocupantes fazem questão de dar nas vistas com os saltos, danças, cantos, as merendas e vinho espumante, saindo da tourada com o pior aspeto possível. No tendido de sombra, as pessoas olham de lado para os seus vizinhos ruidosos, vestem fatos de verão, chapéus e binóculos, assumindo-se como muito entendidos, embora apenas um pequeno número o seja realmente. Na verdade, até gostariam de estar do outro lado, como quando eram jovens, mas apesar de terem menos calor acabam por ter mais sede...
O desfile dos caballeros en plaza, juntamente com a banda municipal de música La Pamplonesa, anuncia o começo da tourada. Outro desfile igualmente interessante é o das peñas, associações recreativas típicas de Pamplona. Cada peña leva a sua banda de música, a txaranga, e empunha a pancarta, com desenhos e legendas de crítica à política local, que as identificam a título de estandarte. As peñas são a alma da festa e fazem parte indissolúvel dos Sanfermines, embora a sua atividade, de índole desportiva, cultural, recreativa e, em alguns casos, de beneficência, se desenrole durante todo o ano. Provavelmente surgidas em meados do século XIX, as peñas têm um grande poder de coesão social e podem ter tido uma origem geográfica, nos bairros ou lugares de Pamplona, gremial ou simplesmente em grupos de amigos. Só estão abertas ao público durante os Sanfermines para venda de comida e bebida que, juntamente com as quotas dos sócios, são a sua principal fonte de rendimento. Têm lugar cativo no tendido de sol na praça de touros, onde se distinguem pela indumentária, blusão e lenço identificativos, sobre o generalizado traje branco à pamplonica, e também pelo "ritual da merenda do terceiro touro" acompanhado de cantos, danças, invenção de letras satíricas, enquanto borrifam de espumante e de vinho todos aqueles que estão à sua volta.
Durante os Sanfermines morrem cerca de 48 touros e seis novilhos, que chegam da Andaluzia, do centro de Castela ou mesmo do sul de Navarra e, ao contrário de outros lugares em que são levados diretamente para os currais das respetivas praças de touros, visitam três currais sucessivamente, o que dá lugar ao já falado encierro.
A salida de las peñas da praça de touros, no fim da corrida, provoca uma verdadeira revolução na cidade com o arrastar atrás de cada peña, e respetivo desfile de pancarta e txaranga, de uma multidão de gente ansiosa por celebrar pela noite fora, no que se chama ir de peñas.
Nos sete dias de festa salientam-se os desfiles diários da Comparsa de Gigantes y Cabezudos, as merendas na rua, os bailes regionais, as atuações improvisadas, a tradicional feira de gado, os concertos, o fogo de artifício, as primeiras corridas dos futuros corredores do encierro à frente do touro de fogo e a especial noite do estrondo, o Estruendo de Iruña, que tem lugar todos os anos num dia diferente e sem prévio aviso, entre outros eventos.
A octava de San Fermín, a despedida do santo, é o último ato religioso dos festejos, que terminam oficialmente à meia-noite do dia 14 de julho, na Plaza Consistorial. O alcaide dá por terminada a festa perante uma multidão de velas na mão, enquanto se ouve a canção Pobre de mí (que se han acabádo las fiestas de San Fermín). A cidade volta à normalidade... isto aparentemente, porque um grito de esperança paira no ar, !ya falta menos para el glorioso San Fermín!, e a contagem decrescente começa: uno de Enero, dos de Febrero, tres de Marzo...!siete de Julio, San Fermín!
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