flores (simbologia)

As flores tiveram desde sempre uma carga simbólica muito importante. As raízes literárias de todo o seu simbolismo remontam à mitologia grega.
Enamorado de Flora, divindade feminina da natureza, Zéfiro, o vento da primavera raptou-a e uniu-se-lhe em casamento, oferecendo-lhe como prova ou dom do seu amor os campos e jardins cultivados. A bela Flora, deusa das flores, que dançava no seu jardim rodeada de semi-deuses e heróis, quando morreu viu toda esta corte divina ser transformada, cada uma dessas figuras, em flores. Destas referências mitológicas clássicas advém ainda a tradição da aparição de Aurora no seu carro espalhando flores pelo caminho, como forma de anunciar a luz do novo dia que nascia. Nas representações das quatro estações, a primavera é quase sempre uma mulher que leva flores ou que as espalha sobre pratos ou lugares. Na tradição iconográfica dos cinco sentidos o olfato é por vezes representado por uma composição de flores ou então por uma figura que leva flores nas mãos ou mesmo um ramo.
Desde a Antiguidade que a flor está associada ao conceitos de vida breve e de beleza. Esta também é efémera e degrada-se ao fim de pouco tempo, como as flores. Estes temas foram muito representados no género de pintura designado por “natureza morta”, o qual se desenvolveu imenso a partir do Renascimento e principalmente depois de Caravaggio, nos começos do século XVII, atingindo um notável esplendor com Van Gogh, em finais de Oitocentos. Nas “naturezas mortas” aparecem composições de vários tipos de flores, com as suas cores diversas, num aspeto maravilhoso, muitas vezes junto a outras que começam a murchar e cujas pétalas caiem para junto do vaso que acolhe o conjunto floral. A caducidade da vida humana, da beleza, da vaidade que nada vale. Aparecem neste sentido as chamadas vanitas, em que as flores mortas ou murchas, ou pétalas suas caídas, se avizinham de uma caveira, aludindo à inutilidade dos bens terrenos em comparação com a inevitabilidade da morte e perenidade da vida eterna. Dentro da iconografia ou simbólica das flores ao serviço da arte, por exemplo, recordemos a Lógica, uma das sete artes liberais, a qual maneia um ramo de flores, dada a certeza da sua caducidade. A Esperança, uma das três grandes virtudes, tem também esse atributo, pois a imagem das flores anuncia o futuro nascimento dos frutos.
Flores como os Jacintos (nascidos do sangue de Ajax) ou os Narcisos têm também uma origem mitológica, como a Flor de lótus, símbolo do Alto Egito, tinha um importante significado religioso, a par da sua congénere na China ou dos Crisântemos e um sem fim de flores no Japão antigo, por exemplo. No universo cristão, as flores ganharam uma dimensão religiosa, mas também decorativa, sem precedentes, como acontece no Hinduísmo também, por exemplo. Entre os Cristãos, muitas flores têm uma simbologia própria, como, por exemplo, as rosas representam o amor da Virgem Maria (também o rosário ou os anjos), as açucenas a sua virgindade, extensível, como atributo iconográfico, aos santos, o narciso alude às dores de Maria e a flor de laranjeira representa Maria, esposa de José, a violeta remete para Maria, para a humildade e é a flor do Paraíso, entre muitas outras flores e simbologias. Noutras latitudes, a tulipa representa o amor, com base numa antiga lenda persa, que reza que a flor nasceu do sangue e as lágrimas de uma jovem que se aventurou no deserto à procura do seu amor, aí sofrendo. Outra flor de grande importância iconográfica e carga simbólica é o girassol, no qual uma ninfa, Clísia, se transformou por amor a Apolo, um deus solar, que nunca lhe correspondeu no amor. Por isso, o girassol significa devoção, a flor dos antigos que procura o sol, embora só tenha vindo da América no século XVI. Tinha, porém, flores correspondentes antes de Quinhentos, como o heliotrópio ou a calêndula, como referia Ovídio nas suas Metamorfoses (IV, 190-270).
A simbologia das flores pode reportar também para outros âmbitos que não apenas o religioso ou mitológico. É o caso dos cravos vermelhos, símbolo da Revolução Portuguesa do 25 de abril de 1974, ainda que tenham essas flores o significado da promessa de matrimónio pleno de amor, além de simbolizarem a Paixão de Cristo. As rosas simbolizam a Inglaterra, tendo dado o nome a uma guerra medieval, a Guerra das Rosas, ocorrida naquele país, entre as famílias e fações da rosa branca e as da rosa vermelha.
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