fonologia

Área da linguística que identifica e caracteriza os sons que desempenham funções linguísticas e que são responsáveis pela distinção de significados na língua. A fonologia descreve ainda os processos que os sons dessa língua sofrem ou produzem na relação que estabelecem com outros sons em vizinhança contextual.
A fonologia estuda os sons e as propriedades acústicas dos sons que cada língua seleciona para estabelecer significados. Por outras palavras, da imensa lista de sons que compõem o alfabeto fonético internacional, cada língua utiliza apenas um pequeno grupo de sons que combina segundo regras fonológicas. Esse inventário selecionado por cada língua constitui o seu sistema fonológico. As unidades constituintes do sistema fonológico de uma língua são os fonemas.
N. S. Trubetzkoy (Principes de Phonologie, 1939, 1976:3) é o responsável pela distinção entre fonética e fonologia "Daremos à ciência dos sons da fala o nome de fonética e à ciência dos sons da língua o nome de fonologia". A fonologia nasce assim no enquadramento das teorias estruturalistas do Círculo Linguístico de Praga.
A fonologia distingue-se assim da fonética na medida em que apenas se dedica aos aspetos fónicos que implicam diferenças de significado, enquanto que à fonética interessam todas as variações acústicas e articulatórias de um segmento. Por exemplo, a fonética interessa-se pelas diferentes formas como os falantes de diversas regiões articulam as palavras. Para a fonologia estes aspetos de variação dialetal são secundários, a não ser que tenham impacto na diferença de significado das palavras na língua.
A fonologia atual sintetiza os contributos teóricos trazidos fundamentalmente pelo estruturalismo e pelo generativismo.
Do estruturalismo (N.S.Trubetzkoy, R. Jakobson e A. Martinet) a fonologia moderna reteve os seguintes princípios/ termos-chave:
♦ Conceito de fonema como unidade mínima distintiva de significados que se distingue de fone (unidade mínima de realização do fonema no plano fonético) e de alofone (variação de fone);
♦ Noção de função distintiva dos fonemas manifestada pelas oposições de pares mínimos (sequências de sons iguais em todos os segmentos exceto em um e essa diferença distingue significados: ex - /'patu/ vs /'batu/); a análise de pares mínimos da língua é um método que se designou por comutação (ou substituição) e que se mostrou importante para a determinação dos fonemas de uma língua (oposições de /'balA/ vs /malA/ provam que /b/ e /m/ são fonemas da língua portuguesa porque colocados no mesmo contexto distinguem palavras do Português);
♦ Noção de distribuição de um fonema como método de análise, saído do distribucionalismo de L. Bloomfield, baseado na observação do conjunto de contextos em que uma dada unidade pode ocorrer
O generativismo e a teoria dos traços distintivos contribuíram para a fonologia atual com os seguintes aspetos:
♦ Desenvolvimento de duas propostas de descrição e classificação da fonologia das línguas baseada no conceito de traço distintivo, unidade menor dentro do fonema e que é responsável pelas oposições distintivas. As propostas foram trazidas:
Por R. Jakobson, G. Fant e M. Halle (1952), Preliminaries to Speech Analysis, com uma teoria de descrição fonológica baseada em traços acústicos. É proposto um sistema de traços que classificavam os fonemas em termos de oposições binárias (+/-) de presença/ ausência. Os traços distintivos de base acústica eram constituídos por doze oposições binárias repartidos por três grupos:
Traços de fonte (+/- vocálico; +/- consonântico)
Traços de fonte complementar consonântica (+/- contínuo; +/- bloqueado; +/- estridente; +/- vozeado)
Traços de ressonância (compacto/difuso; grave/agudo; +/- bemolizado; +/- diesado; +/- tenso; +/- nasal)
Por N. Chomsky e M. Halle (1968), The Sound Patterns of English, com uma teoria de traços distintivos semelhante à anterior mas de base articulatória. Esta proposta colheu mais adesão por ser uma proposta que vai ao encontro da investigação feita em fonética articulatória tradicional. Tal como na teoria acústica de traços, esta teoria vai apresentar um sistema binário de oposições distintivas de traços que à partida seriam suficientes para a descrição da fonologia de todas as línguas do mundo. Seguem-se os traços propostos por Chomsky e Halle, depois de selecionados para a descrição do português por M. H. Mateus (1974):
Traços das classes principais: +/-silábico [sil] (aplicado às vogais); +/- consonântico [cons] (aplicado às consoantes); +/- soante [soan]
Traços relacionados com o corpo da língua: +/- alto [alt]; +/- baixo [bx]; +/-recuado [rec]; +/- anterior [ant]; +/- coronal [cor]
Traços relacionados com a posição dos lábios: +/- arredondado [arr]
Traço relacionado com abertura secundária: +/- nasal [nas]; +/- lateral [lat]
Traços relacionados com o modo de articulação: +/- contínuo [cont]
Traços relacionados com a fonte de emissão: +/- vozeado [voz]; +/- estridente [est]
O sistema fonológico do Português foi apresentado por Maria Helena M. Mateus (1974) com base numa classificação dos fonemas através dos traços fonológicos distintivos de base articulatória (Chomsky & Halle) e apresenta o desenvolvimento de um sistema de descrição de regras fonológicas, a partir das Teorias dos Traços Distintivos apresentadas, em que o nível fonológico se relaciona com o nível fonético; a análise das regras fonológicas para o Português foi iniciada por Mateus (1974).
A fonologia estrutural e generativa ocupou-se também, numa fase inicial, dos aspetos prosódicos relacionados com o acento, a sílaba, a entoação, o tom e o foco. Recentemente desenvolveu-se uma linha de investigação dentro da fonologia especializada nestes aspetos, a fonologia prosódica (E. Selkirk, 1980; M. Nespor & I. Vogel, 1982, 1983, 1986; S. Frota, 2000; M. Vigário, 2001; M.J. Freitas, 1997). Contudo, e uma vez que a fonologia não possui ferramentas de análise suficientemente capazes de dar conta dos fenómenos prosódicos, surgiu já uma área de estudo autónoma, a prosódia com um carácter muito interdisciplinar e com uma metodologia mais experimental e apoiada em análise computacional.
Como referenciar: Porto Editora – fonologia na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2022-01-24 13:17:29]. Disponível em