Formação do Mundo Feudal

O período que compreende os séculos X e XI é geralmente considerado como o período feudal. Um pouco por toda a Europa instala-se um novo sistema de organização política, territorial e social.
Numa primeira fase, acompanhando o processo de desagregação do Império Carolíngio, o desaparecimento de um poder régio forte e de uma administração centralizada, vão-se formando principados, reinos independentes do poder central, pelas mãos da aristocracia e de funcionários anteriormente bem colocados na corte carolíngia. Muitos antigos condes e missi dominici, que percorriam o Império em nome do rei, passam agora a ser senhores dos seus próprios domínios. No interior do território da Germânia - na Suábia, na Saxónia, na Lorena, na Baviera, na Francónia - surgem principados, reinos mais pequenos, quase independentes do rei. O mesmo se passa no território de França - na Borgonha, na Aquitânia, na Gasconha, na Normandia, na Flandres - bem como no território italiano - em Friúli, em Ivrea, na Toscânia.
Numa segunda fase, poucos destes principados irão sobreviver à proliferação de novos domínios - os feudos - que serão tanto laicos (da nobreza) como eclesiásticos (da Igreja). Cada um destes novos senhores são reis dentro do seu feudo, criando laços de fidelidade com os seus vassalos e formando quase uma corte nos seus castelos, onde procuram adquirir privilégios até aqui reservados ao monarca. Assim vão criar exércitos próprios, cunhar moeda, cobrar impostos e administrar a justiça. As linhagens feudais remontam muitas vezes a antigos funcionários da dinastia Carolíngia ou a antigos cortesãos nobres ou eclesiásticos, no serviço direto do rei. Em alguns dos casos, os seus feudos são inclusivamente concedidos pelo monarca, mas muitos são adquiridos por usurpação.
Esta nova ordem política vai criar uma nova ordem social, baseada numa estratificação rígida das classes sociais, em que o lugar e a função de cada um é clara e distinta: é a sociedade de ordens. O clero tem a elevada função de velar pelos espíritos dos vivos e dos mortos, administrar os sacramentos e ainda vai tomar a seu cargo a educação, bem como o governo de vários senhorios eclesiásticos e mosteiros, que acabam por reunir uma riqueza e património consideráveis. Os cavaleiros, membros da alta e baixa nobreza, vassalos do senhor feudal, e ligados a ele por laços de fidelidade e honra, têm a função de combater ao serviço da justiça e da fé e defender os fracos. O povo, na base da pirâmide social, produz os recursos para benefício de todos. Esta organização social é tida como sendo a expressão da vontade de Deus e praticar o contrário é considerado pecado. A mobilidade social é praticamente inexistente, sendo a condição de cada homem marcada pelo seu nascimento.
O sistema de vassalagem e de juramento de fidelidade é uma das pedras angulares de toda a ordem feudal. O senhor concede o título de cavaleiro ao vassalo que lhe presta homenagem ficando, para sempre, ligado a ele pelo serviço das armas e pela honra. O vassalo deve fidelidade e obediência ao senhor, bem como conselho, quando pedido. Se o vassalo não cumpre com as suas obrigações, e não honra o seu juramento, é punido e perde o seu título, a confiança dos seus pares e a sua honra. Se o senhor não cumprir com os seus deveres de dar proteção e sustento ao seu vassalo, ele pode apelar para um outro senhor ou ao rei.
Na verdade este esquema vai acabar por causar problemas complexos: havia fidalgos presos por juramento a vários senhores simultaneamente, o que em caso de conflito entre eles criava uma grave questão ética. Para solucionar estas questões, procura-se hierarquizar os juramentos, tendo como base o valor dos títulos atribuídos, um critério baseado na riqueza, não contemplando os valores de justiça e honra que envolvem a dignidade da cavalaria.
O sistema económico promovido assenta na servidão do povo. Os camponeses trabalham as terras do senhor e em troca pagam diversos tributos, em dinheiro e géneros, e contribuem com trabalho para as construções de muralhas, estradas, entre outros. Os camponeses pagam ainda o uso obrigatório do moinho e forno comuns, bem como a madeira das florestas e a exploração dos poços ou cursos de água do senhor. Alguns camponeses trabalhavam a sua própria parcela de terra, pela qual pagavam uma renda. Cada senhorio constitui uma célula económica autossuficiente, gerida pelo castelo do senhor, centro de todo o domínio.
Entrando facilmente nesta estrutura, a Igreja, em ascensão, vai ocupar o seu lugar - entre os privilegiados - tendo ainda um papel muito importante na formação de uma mentalidade cavalheiresca, bem como de uma moral, um conjunto de valores a defender e comportamentos a seguir. Os vassalos e cavaleiros estão assim integrados num sistema moral comum, onde sobressaem os valores cristãos. Todo o ritual de investidura da cavalaria é envolto em religiosidade, numa aura sagrada sempre acompanhada de um eclesiástico de posição elevada.
Apesar deste cenário ideológico, muitos cavaleiros, ao serviço dos seus senhores, envolvem-se em longas e graves disputas e guerras, a maior parte das vezes em torno de questões territoriais.
As cruzadas são a expressão mais clara das atividades dos cavaleiros, bem como um ótimo exemplo da influência da Igreja nesta fase.
O feudalismo não vai ser igual em toda a parte: na Flandres, na Normandia e na Inglaterra, os senhores não chegam a adquirir a totalidade dos direitos régios que pretendem, permanecendo sob a autoridade de um conde, um duque ou do rei. No Languedoc, a liberdade dos pequenos proprietários é maior e as situações de servidão são raras.
Todo o processo de implantação do sistema feudal na Europa foi acompanhado por diversas alterações que vieram mudar o status quo político e territorial do Velho Continente. Em França, a dinastia dos Capetos vem substituir a Carolíngia, conseguindo uma continuidade dinástica bem sucedida, adotando o sistema de sucessão da varonia - não mais se partilha o reino por todos os herdeiros, mas mantém-se o território intacto que será deixado ao primogénito varão. Os Capetos vão ainda manter uma forte relação com a Igreja, criando uma aura do sentido sagrado da monarquia, envolvendo as cerimónias de coroação em rituais, símbolos e mitos, valorizando assim um domínio que é, em extensão e riqueza, mais pequeno que os feudos da Normandia ou da Aquitânia, submetendo ao seu poder sagrado os mais poderosos senhores feudais da França.
Em Inglaterra sobe ao trono a dinastia dos Plantagenetas, e Henrique II, quando casa com a duquesa da Aquitânia, reúne sob o seu poder o trono da Inglaterra, a Aquitânia e a Normandia. Estas serão perdas graves para os Capetos.
Na Península Ibérica decorre o processo da Reconquista e expulsão dos árabes. Toledo é conquistada em 1085 e Lisboa em 1147.
A continuação da cristianização é outro aspeto que marca esta época. A evangelização penetra na Boémia, em 966 é criada a Diocese de Gniezno e em 973 o Bispado de Praga. Entre 997 e 1038 dá-se a conversão dos húngaros; entre 950 e 986 converte-se a Dinamarca; entre 995 e 1000, a Noruega, seguida pela Suécia.
O feudalismo conhecerá um longo período de sucesso e expansão mas, nos finais do século XIII e inícios do século XIV, irá entrar em declínio. O reforço do poder régio e o aparecimento e ascensão de uma nova classe social, uma burguesia cada vez mais rica e influente, serão fatores determinantes para a dissolução do sistema feudal e a instituição de uma ordem política, social e económica.
Como referenciar: Formação do Mundo Feudal in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-04-20 06:03:20]. Disponível na Internet: