Gaitinhas

Personagem da obra Esteiros (1941) de Soeiro Pereira Gomes. Embora a narrativa, representativa de uma estética novelística neorrealista na sua primeira fase, caracterize fundamentalmente um protagonista coletivo, os "filhos dos homens que nunca foram meninos", como Sagui, Maquineta, Guedelhas, Gaitinhas ou Gineto, na sua luta trágica contra a miséria e contra a opressão desumana de uma sociedade submetida à exploração capitalista, a ação não deixa de esboçar os percursos individuais das crianças para sublinhar o modo como a sua vida é pautada por uma gradação crescente de situações disfóricas. Entre essas crianças, João da Fonseca, de sobrenome o Gaitinhas, "porque gostava de imitar os instrumentos da banda musical", adquire um particular relevo pelo modo como é sublinhado o desejo frustrado de estudar para ser "doutor". Quando a sua mãe, Madalena, uma jovem tecedeira, fica doente e deixa de poder sustentar o lar - o seu pai, Pedro, emigrara na miragem de poder dar um futuro melhor ao filho ("sem instrução, será um escravo ou um vadio...") -, Gaitinhas vê-se obrigado a abandonar a escola. A partir desse momento, enquanto espera o emprego prometido na Fábrica Grande, com um grupo de crianças, miseráveis mas solidárias, pede esmola, rouba fruta e amortalha os sonhos de meninice. Depois da morte da mãe, abandona a casa onde uma vizinha o acolhera e parte para trabalhar no telhal. O último parágrafo do romance condensa, na partida de Gaitinhas, uma nota de esperança numa transformação social: "Gaitinhas cantor vai com o Sagui correr os caminhos do mundo, à procura do pai. E, quando o encontrar, virá então dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais - moços que parecem homens e nunca foram meninos."
Como referenciar: Gaitinhas in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-12-11 14:56:17]. Disponível na Internet: