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Gália Romana
O antigo país dos Gauleses compreendia aproximadamente o que é hoje a França e a Bélgica, alguns territórios da atual Holanda e Alemanha (margem esquerda do Reno), Suíça ocidental e, desde o século IV d. C., também a alta Itália até ao rio Pó, para onde tinham emigrado os gauleses. Esta última região chamou-se Gália Cisalpina, para a distinguir da sua congénere além-Alpes, denominada Gália Transalpina. A Gália Transalpina tinha como limites: a oeste o mar Cantábrico (golfo de Biscaia) e o oceano Atlântico; a sul os Pirenéus e o golfo de Lião; a este o rio Varus, os Alpes e o Reno; a norte a desembocadura do Reno.
Segundo a divisão das Gálias, feita por César, estas distribuíam-se em três partes: Aquitânia, entre os Pirenéus e o Atlântico; Gália Narbonense, a parte sudeste do país; Gália Lugdunense, a faixa de terra entre o Loire e o Sena.
A Gália Cisalpina compreendia a parte da alta Itália, a norte do rio Pó.
A conquista da Gália por Roma foi operada em várias etapas. Marselha, colónia grega sob uma crescente pressão das tribos celtas, pede ajuda a Roma (125 a. C.), que vem em seu socorro. Como perigo isolado, os Romanos ocupam uma região que se estende das proximidades de Genebra aos contrafortes dos Pirenéus. Uma segunda etapa é marcada pela conquista de outras regiões da Gália. A autoridade romana vai esforçar-se a fim de obter o apoio das elites gaulesas. Três séculos sem sobressaltos maiores vão permitir o apogeu económico de um país ricamente dotado pela natureza.
Sob Marco Aurélio (161-180), os povos do outro lado do Reno derrotam as defesas do Império, tanto sobre as fronteiras fortificadas como sobre as costas onde se manifestam os piratas. Em Lião, em 197, os conflitos militares à volta do poder imperial traduzem-se na devastação da cidade pelos soldados, após a batalha que opôs Albino e Sétimo Severo. No século III, o exército romano mostra-se incapaz de conter as tribos germânicas, atraídas pela riqueza do mundo romano. Por duas vezes (em 258 e 276), os Alamanos e os Francos atravessam a Gália, devastando-a. Após estas incursões, as cidades fecham-se em muralhas construídas prematuramente.
A Gália, tal como o resto do Império, sucumbe à crise económica do século III, e a sua população diminui drasticamente. Em 258, os soldados do Reno proclamam augusto o seu chefe Póstumo, e o imperador legítimo, Galieno, não conseguiu pôr fim a esta dissidência.
O Império Gaulês, na realidade um império do Ocidente (juntamente com a Espanha e a Bretanha), dura quinze anos (258-273). Póstumo é assassinado pelos seus soldados em 268. Os seus associados ou sucessores (Mário, 267-269; Leliano, 268-269; Vitorino, 269-271; Tétrico, 271-273) são menos capazes e Aureliano recupera facilmente a Gália. Doravante, instalam-se grupos de Bárbaros, prisioneiros de guerra ou colonos oferecidos pelos reinos da Germânia.
No século IV, a Gália conhece uma economia renovada (trigo, vinho). Os grandes proprietários vivem agora no meio das suas terras, numa villa fortificada. Eles são os poderosos aos quais obedecem os camponeses, colonos ou escravos, a partir desta altura ligados à gleba. A cultura cerealífera é particularmente importante nas planícies da bacia parisiense e da Bélgica. A cultura do cânhamo e do linho permite a produção dos célebres panos gauleses. A estes recursos tradicionais, os Romanos acrescentam a cultura da vinha, que se implantou nas regiões setentrionais. A exploração da floresta, os produtos da pesca asseguram um complemento não negligenciável. Mas, desde meados do século III, grupos de foras da lei, desertores ou colonos em fuga aterrorizam os campos. Algumas cidades são bastante prósperas: é o caso de Arles, ou de Trèves (Trier), que os imperadores preferem a Roma, bastante distante do Reno. Com efeito, a ameaça bárbara não desaparece: foi necessária toda a perseverança do imperador Juliano, o Apóstata, e muitos anos de campanhas (355-361) para reprimir os invasores alamanos e manter os Francos nas margens do rio.
O Cristianismo apareceu tardiamente na Gália. No século II, os orientais introduzem-no nas cidades de Narbonne: os mártires de Lyon, em 177, tornam-se célebres. No século IV a população urbana é convertida, mas os campos permanecem pagãos, que os bispos missionários - Martinho de Tours, Victrice de Ruão - se esforçam por converter. São Martinho funda comunidades religiosas em Ligugé e em Marmoutier; a de Lérins é, no século V, o centro teológico da Gália; João Cassiano funda os primeiros mosteiros de Marselha, em 418. É em parte devido à influência da Igreja que a romanização deve a sua durabilidade.
No século V, só existem bárbaros federados para defender uma Gália, que recebe bandos sucessivos doutros bárbaros. A região é um ponto de passagem: atravessam a Gália os povos que se vão finalmente instalar-se em Espanha ou em África. Estes bárbaros são instáveis. O conde Aécio, entre 434 e 454, dispõe de uma grande energia para fixar os federados e utilizar os seus contingentes contra os novos invasores; ele consegue ter êxito e afasta Átila, em 451. Mas o Império do Ocidente desaparece em 476. Os últimos generais romanos, Egídio (morto em 464) e o seu filho Siágrio (morto em 486), contentam-se em possuir a região entre o Sena e o Loire. Os Visigodos ocupam agora mais de metade da Gália. O franco Clóvis (481-511), convertido ao Cristianismo e apoiado pelos bispos, conquista a Gália.
Este final do Império Romano do Ocidente não deve ser considerado como uma rutura radical. Os sucessivos poderes bárbaros agiram durante bastante tempo por imitação do modelo romano. Por outro lado, se a vida urbana abranda a sua marcha, a ocupação dos campos conserva de uma forma arreigada os traços herdados do fim do Império. Esta perenidade ilustra bem a importância da contribuição romana nas províncias
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