Génese do Movimento Republicano

O movimento republicano surgiu de uma aspiração, em si contraditória, da consciência burguesa, que se sentia revoltada e desconfortável com a sua situação. Esta aspiração burguesa de mudança não se traduziu na maior parte das vezes numa concertação de ideias e projetos.
O movimento republicano português está intimamente ligado ao liberalismo, pois a sua génese estava já latente na vertente de esquerda presente nas Cortes Gerais de 1820-1822 (Vintismo), também na ideologia Setembrista a partir de 1836 e, mais tarde, na Patuleia de 1846-1847.
A sua forte influência norteadora é a trilogia de valores saídos da Revolução Francesa de 1789: liberdade, igualdade e fraternidade. Em Portugal e em Espanha, as experiências republicanas resultaram de uma ideologia revolucionária burguesa, assente na desagregação do modelo do antigo regime. Neste contexto a monarquia constitucional, proveniente do modelo francês, estava condenada a falhar sempre que a ala liberal de esquerda tentasse responder aos problemas do país, de acordo com a referida trilogia revolucionária.
Para o professor Joaquim de Carvalho, este "sentimento republicano" teve origem na reação contra a decadência da ideologia liberal cartista. A aspiração republicana começou por se opor ao cartismo, isto é, à ala liberal conservadora; note-se que não se insurge contra o liberalismo, mas sim contra uma determinada interpretação do liberalismo; o seu objetivo é, em última análise, ultrapassar a Monarquia Constitucional, impossibilitada de concretizar o ideário da Revolução Francesa.
A liberdade burguesa não conseguiu pôr em prática a igualdade de todos os cidadãos e, portanto, também não realizou o conceito de fraternidade, que não passava de uma utopia.
Em Portugal, como no exterior, com o liberalismo verificara-se uma transferência de poder económico. A nobreza e o clero davam lugar à burguesia vencedora. A transição ideológica deu-se em 1870. Nesse ano, Antero de Quental exprimiu a sua opinião face ao republicanismo no periódico A República, de 11 de maio; para ele, "é mais do que uma palavra: é um credo; mais do que uma bandeira: é um lábaro".
Segundo Basílio Teles, este movimento prende-se com a renovação da escola coimbrã de 1865. Contudo é certo que os representantes da Geração de 70, como Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça de Queirós, só esporadicamente consideraram o republicanismo o caminho a seguir na via democratizante. De acordo com outros investigadores, as raízes deste movimento têm de ser encontradas num período mais recuado. No ano de 1829, data do apogeu miguelista, surgiu a primeira referência a um regime republicano na Ilha Terceira, pela voz do general Marinho; mas esta foi totalmente inconsequente.
O primeiro surto verdadeiramente democratizante aconteceu em Portugal de 1848 a 1852, quando a revolução da Patuleia tinha sido reprimida e em França acontecia a Revolução Francesa de 1848. Pela primeira vez era considerada seriamente a hipótese de se derrubar a monarquia constitucional. Esta hipótese foi avançada pelos setembristas, desencantados com a influência exercida sobre o trono pela coligação da Espanha e Inglaterra, e do rescaldo do entusiasmante clima democratizante vivido na revolta falhada da Patuleia.
Nesta altura em Portugal era publicado o jornal A República, em abril de 1848. José Estêvão, Oliveira Marreca e Rodrigues Sampaio perpetraram uma conspiração, conhecida como Conspiração das Hidras, nesse mesmo ano, enquanto os estudantes de Coimbra reivindicavam direitos democratizantes.
Esta ideologia estava enraizada no sucesso francês de 1848 e era, ao mesmo tempo, republicana e socialista, por influência de Saint-Simon, Louis Blanc, Proudhon e Fourier. Entre 1850 e 1851 em Lisboa foi editado o Eco dos Operários de Lopes Mendonça e Sousa Brandão, ligado ao Centro Promotor das Classes Laboriosas (1853), de onde partiu o Partido Socialista Português de 1871. No Porto eram publicados os jornais A Esmeralda (1850-1851) e A Península (1852-1953), onde se destacou Custódio José Vieira. Outro dos mais importantes promotores do republicanismo foi Henrique Nogueira, um discípulo de Herculano, influenciado por Fourier e Louis Blanc. Na sua vasta obra reformadora, estão presentes as ideias do republicanismo, do socialismo francês, do municipalismo de Herculano e do associativismo/cooperativismo francês e, ainda, do federalismo dos povos da Península Ibérica.
A utopia socialista caiu por terra em 1851, com a Regeneração e triunfo na Europa do capitalismo burguês.
Antero de Quental e Teófilo Braga trouxeram à cena a Questão Coimbrã, e depois deste acontecimento cultural com ligações políticas constituiu-se o Cenáculo, onde Antero estudava Proudhon e se faziam as Conferências Democráticas do Casino (1871). Surgem então os jornais A República e O Republicano, em Lisboa, e no Porto A Gazeta Democrática.
O novo republicanismo, vinte anos após a primeira experiência de 1841 a 1851, necessitava de uma larga base de apoio. Assim, a partir de 1878, e até 1890, voltou-se para ações propagandísticas. Em 1873 procurava uma ideologia que satisfizesse várias tendências. A ala esquerda, o republicanismo federal, que apresentava o maior número de adeptos, confundia-se com o socialismo. Verificando-se que o socialismo no nosso país não tivera a adesão desejada por parte do proletariado das grandes cidades, o republicanismo, para vingar, tinha de apelar para o conservadorismo burguês.
Até à vitória do republicanismo unitário (1880), sob orientação do democrata Elias Garcia, há uma passagem para uma posição notoriamente mais conservadora.
No entanto, a década seguinte abriria com acontecimentos decisivos que iriam alterar definitivamente o movimento, dando-se um novo élan.
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